Mostrando postagens com marcador Catolicidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Catolicidade. Mostrar todas as postagens

janeiro 17, 2019

Trechos dos Escritos dos Pais da Pré-Reforma que foram Incorporados nas Confissões Luteranas do Século XVI

(As citações confessionais são do Livro de Concórdia, traduzido por Arnaldo Schüler e editado por Darci Drehmer.)

INTRODUÇÃO

Os reformadores luteranos do século XVI não eram inovadores sectários que se propuseram a criar uma nova igreja. Pelo contrário, eles reconheceram e se alegraram por estar em continuidade com a igreja dos apóstolos e dos antigos Padres cristãos. Os reformadores sabiam que Cristo havia prometido preservar sua igreja até o fim dos tempos, e na história da igreja eles observaram que, “a fim de manter o evangelho entre os homens, publicamente opõe ao reino do diabo a confissão dos santos e, em nossa fraqueza, declara seu poder. Os perigos, trabalhos, e sermões do apóstolo Paulo, de Atanásio, de Agostinho, e de outros, semelhantes a esses, os quais ensinaram as igrejas, são obras santas, sacrifícios verdadeiros, agradáveis a Deus, pelejas de Cristo, pelas quais reprimiu o diabo, arredando-o dos que creram”. (Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 189-90, p. 138) Os reformadores formalmente e sem reservas endossaram os Credos Ecumênicos com a seguinte declaração: “E, visto que, imediatamente após os tempos dos apóstolos e ainda em vida deles, penetraram falsos mestres e hereges, contra os quais se compuseram, na igreja primitiva, Symbola, isto é, confissões breves e categóricas, que foram consideradas como a fé e a confissão unânimes, universais e cristãs, da igreja ortodoxa e verdadeira, a saber, o Símbolo Apostólico, o Símbolo Niceno e o Símbolo Atanasiano, nós os confessamos por nossos e rejeitamos, com isso, todas as heresias e doutrinas introduzidas na igreja de Deus contrariamente a eles” (Fórmula de Concórdia, Introdução: 3, p. 498).

Foi a convicção dos reformadores de que “os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são a única regra e norma, segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas, igualmente todas as doutrinas e todos os mestres”, e portanto concordaram com Santo Agostinho “que também aos bispos regularmente eleitos não se deve obedecer caso errem ou ensinem ou ordenem algo contra a santa e divina Escritura” (Fórmula de Concórdia, Introdução: 1, p. 498; Confissão de Augsburgo XXVIII: 28, p. 58) Os reformadores sabiam que os Padres da igreja, como eles mesmos, eram homens que “podiam errar e ser enganados”, e que “de quando em quando também eles edificaram palha sobre o fundamento, palha que, todavia, não lhes destruiu a fé" [cf. 1 Cor 3.11-13]. (Apologia XXIV: 95, p. 286; VII / VIII: 21, p. 180) Mas eles também acreditavam que “não se rejeitam outros livros bons, úteis e puros, tais como interpretações da Sagrada Escritura, refutação de erros e explicação dos artigos doutrinários" (Fórmula de Concórdia, Declaração de Sólida, Da Suma: 10, p. 543) Tais "escritos... dos antigos ou dos novos mestres, seja qual for o nome deles. não devem ser equiparados à Escritura Sagrada", mas podem e devem ser recebidos como “testemunhas da maneira como e quanto aos lugares onde essa doutrina dos apóstolos e profetas foi preservada nos tempos pós-apostólicos” (Epítome, Introdução: 2, p. 499) Em consonância com este princípio, os reformadores conseguiram afirmar: “no que tange ao pecado original, nada pensamos que seja estranho à Escritura ou à igreja católica, mas repurgamos e restituímos à luz gravíssimas sentenças da Escritura e dos Pais, soterradas por discussões sofísticas de teólogos recentes." (Apologia da Confissão de Augsburgo II: 32, p. 105) Em relação ao "artigo principal" da fé cristã, eles também foram capazes de dizer: "as coisas por nós ditas são consentâneas com as Escrituras proféticas e apostólicas, aos santos Pais, Ambrósio, Agostinho e a muitos outros e com toda a igreja de Cristo, a qual, certamente, confessa que Cristo é o propiciador e justificador.”(Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 389, p.175) E estava claro para os reformadores que o Senhor preservou seus meios de graça dentro da igreja também nos séculos mais recentes, pois “Deus confirma o batismo pela infusão de seu Espírito Santo, conforme bem se percebe em alguns Pais, como São Bernardo, Gérson, João Hus e outros.” (CatecismoMaior, IV: 50, p. 481) 


O que se segue é uma antologia de citações diretas dos escritos dos Padres, organizados topicamente, que aparecem nas Confissões Luteranas oficiais do século XVI. Esses Padres - latinos e gregos, antigos e medievais - são, em um sentido muito real, contribuintes pré-reformadores da teologia da Reforma do Livro de Concórdia. A presença destes trechos patrísticos no Livro de Concórdia valida a afirmação confessional de que tudo no ensino ortodoxo luterano “se fundamenta claramente na Sagrada Escritura e, além disso, não é contrário nem se opõe à igreja cristã universal e, na verdade, tampouco à Igreja Romana, quando se pode coligir dos escritos dos Pais”, e que entre os luteranos nada“nada se ensina que seja contrário à Sagrada Escritura ou à igreja cristã universal, havendo-se apenas corrigido alguns abusos”. (Confissão de Augsburgo, epílogo de XXI, 1, p. 40; prólogo para XXII, 1, p. 40)

PESSOA DE CRISTO

No mesmo tempo em que vivia o herege Manes, um chamado Paulo - o qual, samosateno de nascimento, foi, porém, bispo de Antioquia, na Síria - impiamente ensinou que Cristo Senhor nada foi além de mero homem no qual Deus Verbo habitou como um em cada um dos profetas. Por isso, também julgou que a natureza divina e a humana estão separadas e destacadas uma da outra, e que em Cristo nenhuma comunhão têm entre si, exatamente como se um fosse Cristo e outro Deus Verbo, que nele habita. (Theodoro de Raithu [6° século], Preparação; citado em Solid Declaration VIII: 16, p. 594)

PECADO E GRAÇA

À pergunta sobre o que seja pecado original, responde-se corretamente, dizendo que é concupiscência imoderada. Também acerta quem responde que é carência da justiça devida. E uma dessas respostas inclui a outra. (São Boaventura [+1274], Comentário às Sentenças II, 30: 2c; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo II: 28, p. 104-105) 

O pecado original abrange privação da justiça original e, com isso, desordenada disposição das partes da alma, não sendo, por consequência, pura privação, mas uma espécie de hábito corrupto. (São Tomás de Aquino [+1274], Summa Theologiae II: 1, q.82, a.1 ad 1; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo II: 27, p. 104)

Se a capacidade natural, pelo livre arbítrio, é auto-suficiente, tanto para saber como se deve viver, quanto para bem viver, Cristo morreu em vão, o escândalo da cruz está esvaziando. Por que não exclamaria também eu aqui? Certo que exclamarei, increpando-os com aflição cristã: De Cristo vos desligastes vós que sois justificados na natureza da graça decaístes. Pois, ignorando a justiça de Deus e querendo instituir a vossa, não vos sujeitais à justiça de Deus. Pois, assim como Cristo é o fim da lei, assim também é o salvador da viciosa natureza humana, para a justiça de todo aquele que crê. (Santo Agostinho de Hipona [+430], De natura et gratia 40:47; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 29-30, p. 113-114) 

Não está, portanto, conforme à imagem divina a alma em que Deus não é sempre. (Santo Ambrosio de Milão [+397], Hexaëmeron VI, 8:45; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo II: 19, p. 103)

Errei nisso de haver sustentado que a graça de Deus consiste apenas em Deus, na pregação da verdade, revelar sua vontade, mas que nosso assentir ao evangelho pregado é nossa própria obra e está em nossos poderes... errei, quando disse que está em nosso poder crer no evangelho e querer, mas que é obra de Deus dar, aos que crêem e querem, o poder de operar algo. (Santo Agostinho de Hipona, De praedestinatione sanctorum III: 7; citado em Declaração Sólida II: 27, p. 565) 

Para que não aconteça desvanecer-se alguém como inocente e, exaltando-se a si mesmo, pareça mais ainda, é instruído e ensinado que peca diariamente, enquanto se lhe ordena orar todos os dias, à vista de seus pecados. (São Cipriano de Cartago [+258], De oratione dom, 22; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 322, p. 164)

Antes de mais nada é preciso crer que não podes ter remissão de pecados a não ser por indulgência divina. Depois, que não podes ter nenhuma boa obra a menos que também isso ele o tenha dado. Por último, que não podes merecer a vida eterna por obra alguma, senão que também ela é dada gratuitamente... Ninguém se engane, por que se quiser pensar bem, descobrirá sem dúvida, que com dez mil não pode sair ao encontro daquele que lhe vem com vinte mil. (São Bernardo de Claraval [+1153], Sermo I. in annunciat. b. Mariae Virginis I: 1-2; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XXVII: 32, p. 294)

Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Ele convida a salvação por meio de prêmio, jurando até. Ao dizer "Vivo eu", deseja ser crido. Ó bem-aventurados aqueles por causa dos quais Deus jura! Ó misérrimos, se não cremos nem ao Senhor que jura! (Tertuliano [+230], De Paenitentia, 4; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XII: 94, p. 207)

A lei que está nos membros fica remitida pela regeneração espiritual e remanescente na carne mortal. Fica perdoada porque a culpa fica remitida no sacramento, pelo qual os crentes renascem; permanece, contudo, porque gera desejos contra os quais batalham os crentes. (Santo Agostinho de Hipona, Contra Julianum II: 3; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo II: 36, p. 107)

Ai da vida dos homens - por mais louvável que seja - caso julgada sem misericórdia. (Santo Agostinho de Hipona, Confissões IX: 13; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 322, p. 164) 

Deus nos conduz à vida eterna não por nossos méritos, porém, segundo a sua misericórdia. (Santo Agostinho de Hipona, De gratia et libero arbitrio, IV, 9: 21; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 322, p. 163)

Deus coroa em nós os seus dons. (Santo Agostinho de Hipona, De gratia et libero arbitrio, VI, 9, 15; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 356, p. 169)

Não digo que te exponhas publicamente, nem que a ti mesmo denuncies ou declares culpado junto a outrem, mas obedece ao profeta, que diz: 'Revela ao Senhor os teus caminhos'. Por isso, além de tua oração, confessa-te ao Senhor Deus, o verdadeiro juiz; não diga aos teus pecados com a língua, mas em tua consciência. (São João Crisóstomo [+407], Homilia 31 [sobre a Epístola aos Hebreus], ​​citado em Gratian, Decretum II: 33, q.3, dist.I, c.87: 4; citado em Confissão de Augsburgo XXV: 11, 47) 

LEI E EVANGELHO

A justiça da lei - que viverá nela quem a cumprir - , sem dúvida, é proposta com o intento de que, cada um, quando tiver reconhecido sua infirmidade, conciliando o justificador, não por sua própria força nem pela letra da lei - coisa impossível -, mas pela fé, a alcance, realize e nela viva. Boa obra tal, que, quem a faz, nela tenha vida, não há senão no justificado. Mas justificação só se obtém pela fé... Pela lei tememos a Deus; pela fé esperamos em Deus. Mas a graça é oculta aos que temem a pena. Se a alma sofre debaixo desse temor, etc., refugie-se, pela fé, na misericórdia de Deus, para que dê aquilo que ordena. (Santo Agostinho de Hipona, De spiritu et litera 29: 51; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 106, p. 126-127)

O mundo porém lhe foi sujeito pela lei, porque, segundo a norma da lei, todos estão denunciados, e, pelas obras da lei, ninguém é justificado, isto é, porque, pela lei, conhece-se o pecado, mas não se desfaz a culpa. A lei, que a todos faz pecadores, parecia ter prejudicado, mas o Senhor Jesus, ao vir, perdoou a todos o pecado que ninguém pudera evitar e destruiu, pela efusão de seu sangue, nosso escrito de dívida. É o que se lê: "Avultou o pecado pela lei; superabundou, porém, a graça por Jesus. Porque, depois de sujeitado o mundo universo, tirou o pecado de todo o mundo, conforme testifica João, dizendo: "Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo". E, por isso, ninguém se glorie de obras, já que ninguém é justificado pelo que faz. Porém, aquele que é justo, o é por dádiva, visto haver sido justificado desde o lavacro. É, pois, a fé que liberta pelo sangue de Cristo, porque "bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. (Santo Ambrosio de Milão, Epístola a Ireneu; citado em Apologia IV: 103, p. 126)

Nos convém crer que devemos arrepender-nos, como que devemos ser perdoados; contudo, de modo que esperemos o perdão como proveniente da fé, a qual o obtém como que de nota promissória. (Santo Ambrósio de Milão, De poenitentia adv. Novatianos II: 9; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XII: 96, p. 207) 

JUSTIFICAÇÃO

Considerada, pois, e tratada a questão na medida das forças que o Senhor se digna dar, coligimos que o homem não é justificado pelos preceitos de uma vida reta, senão pela fé em Cristo Jesus. (Santo Agostinho de Hipona, De spiritu et litera 13:22; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 87, p. 124) 

Pois, antes de tudo, é necessário creres que não podes ter remissão dos pecados senão por indulgência de Deus, mas acrescenta ainda que crês também isto: que por ele os pecados te são perdoados. Este é o testemunho que o Espírito Santo dá em teu coração, dizendo: Perdoados te são os teus pecados. Assim, pois, julga o apóstolo que o homem é justificado gratuitamente, pela fé. (São Bernardo de Claraval, Sermo in festo b. Mariae Virg. I: 1; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XII: 73, p. 203)

Por conseguinte, somos justos quando nos confessamos pecadores, e nossa justiça consiste na misericórdia de Deus, não em mérito próprio. (São Jerônimo [+420], Dial. adv. Pelagianos I: 5; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 173, p. 135)

Cumprem-se todos os mandamentos de Deus quando é perdoado tudo o que não se faz. (Santo Agostinho de Hipona, Retractationes I, 19: 3; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 172, p. 135)

E como as néscias não podem sair ao encontro em razão de estarem as lâmpadas extintas, pedem lhes emprestem azeite as prudentes, ao que estas responderam que não podiam dar, visto não haver, talvez, o suficiente para todas; isto é, ninguém deve ser ajudado com obras e méritos alheios, porque é necessário a cada qual que compre azeite para sua própria lâmpada. (Santo Hilário Poitiers, Comentário sobre o Evangelho segundo Mateus, 27: 5 (em Mateus 25: 8, 9); citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XXI: 30, p. 247)

SANTIFICAÇÃO

Se Deus, por causa daquele pecado [de Davi], tivesse ameaçado que ele seria ameaçado assim pelo filho, por que, então, remitido o pecado , cumpriu o de que o havia ameaçado? A resposta é que aquela remissão de pecado se efetuou a fim de que o homem não fosse impedido de receber a vida eterna. Seguiu-se, porém, o exemplo da ameaça, para que a piedade do homem fosse exercitada e provada até naquela humildade. Assim, Deus também infligiu ao homem, por causa do pecado, a morte do corpo e, depois da remissão dos pecados, não a removeu, tendo em vista exercitar a justiça, isto é, para que se exercesse e provasse a justiça daqueles que são santificados . (Santo Agostinho de Hipona, De peccatorum meritis et remissione, II, 34: 56; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XII: 160, p. 219) 

Despojai-vos do velho homem... para não acontecer que alguém julgue que se deve depor a substância ou a essência do homem, ele mesmo explicou o que vem a ser despojar-se do velho homem e revestir-se do novo, ao dizer nas palavras subsequentes: Por isso, deixai a mentira e falai a verdade. Eis que isso é despojar-se do velho homem e revestir-se do novo. (Santo Agostinho de Hipona, Enarratio in Psal. XXV, II: 1; citado em Declaração Sólida II: 81, p. 576)

SANTO BATISMO

Quando a palavra se junta ao elemento ou substancia natural, faz-se o sacramento. (Santo Agostinho de Hipona, Tratado 80 [em João 3]; citado em Catecismo Maior V: 10, p. 487, em Catecismo Maior IV: 18, p. 477, e em Artigos de Esmalcalde III, V: 1, p. 333)  

O pecado é remitido no batismo não assim que já não exista, mas de maneira que não é imputado. (Santo Agostinho de Hipona, De nupt. et cconcup. I: 25; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo II: 36, p. 107)

A SAGRADA EUCARISTIA

O próprio Cristo prepara e abençoa esta mesa. Pois homem nenhum faz do pão e do vinho postos diante de nós corpo e sangue de Cristo, se não o mesmo Cristo que foi crucificado para nós. As palavras são proferidas pela boca do sacerdote, mas os elementos postos diante de nós na ceia são consagrados pelo poder e pela graça de Deus, pela palavra que ele diz: Isto é o meu corpo. E, assim como a palavra: Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra foi dita uma só vez, sendo, porém, sempre eficaz na natureza, de sorte que ela cresce e se multiplica, assim também esta palavra foi dita uma só vez, mas até o dia de hoje e até a sua vinda, ela é eficaz, fazendo com que na ceia da igreja seu verdadeiro corpo e sangue estejam presentes. (São João Crisóstomo, De proditione Iudae 1: 6; citado em Declaração Sólida VII: 76, p. 624)

Não recebemos isso como pão ordinário ou bebida ordinária, mas, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, se fez carne pela Palavra de Deus e também teve carne e sangue por causa de nossa salvação, assim cremos que o alimento por ele abençoado com a palavra e a prece é o corpo e o sangue do Senhor Jesus Cristo. (Justino Mártir [+165], Primeira Apologia, 66; citado na Declaração Sólida VII: 39, p. 617)

[Na Ceia do Senhor] o pão não é só figura, porém que é verdadeiramente mudado em carne. (Teofilato de Acrida  [+1108], Comentário sobre o Evangelho de Marcos, 14: 22; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo X: 2, p. 179)

Não negamos, contudo, que somos unidos espiritualmente a Cristo por fé verdadeira e amor puro. Mas, deveras, negamos, e resolutamente, que com ele não tenhamos nenhuma espécie de conjunção segundo a carne. E dizemos que isso é de todo em todo estranho às divinas Escrituras. Pois quem duvidou que também desse modo Cristo é videira e nós ramos que dele obtemos vida para nós? Ouvi o que diz Paulo: Porque "todos somos um só corpo em Cristo", porque, "embora muitos, somos, contudo, um nele, pois todos participamos de um mesmo pão". Julga ele, porventura, que ignoramos a virtude da bênção mística? Esta, quando está em nós, acaso não fará, também corporalmente, que Cristo, pela comunicação da carne de Cristo, habite em nós?... Deve considerar-se, por conseguinte, que Cristo não está em nós apenas segundo um hábito que é entendido pelo amor, mas, ainda, por participação natural, etc. (Cirilo de Alexandria [+444], In John. Lib X: 2; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo X: 3, p. 189) 

Se um pecado não é de natureza tal que se possa com razão excluir a pessoa da congregação e considerá-la como não-cristã, não deve a gente abster-se do sacramento. (Santo Hilário, Decretum Gratiani, P. III D. 2 c. 15; citado em Catecismo Maior: 59, p. 492)

Ide a ele e sede absolvidos, porque ele é a remissão dos pecados. Perguntais quem é ele? Ouvi a ele mesmo dizer: Eu sou o pão da vida, o que vem a mim não terá fome, e o que crê em mim, jamais terá sede. (Santo Ambrósio de Milão, Expositio in Psalmum, 18: 28; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XXIV: 75, p. 281)

Foram ordenadas pelos apóstolos as comunhões celebradas às quartas-feiras, às sextas-feiras e aos domingos. (Santo Epifânio de Salamina [+403], Heresias III; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XXIV: 8, p. 267)

IGREJA E MINISTÉRIO

A Pedro revelou o Pai que dissesse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. A edificação da igreja é, portanto, sobre a pedra dessa confissão. Essa fé é o fundamento da igreja. (Santo Hilário de Poitiers [+368], A Trindade VI: 36-37; citado em Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa, 29, p. 350)

A questão é a seguinte: onde está a igreja? Portanto, que é que haveremos de fazer? Procurá-la-emos em nossas palavras ou nas de seu cabeça, nosso Senhor Jesus Cristo? Penso que devemos procurá-la nas palavras daquele que é a Verdade, q que muito bem conhece o seu corpo. (Santo Agostinho de Hipona, Epístola Contra os Donatistas [De Unitate Ecclesiae] IV, 15: 2; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo IV: 400, p. 176)

Não consiste a Igreja em homens por virtude de poder ou dignidade eclesiástica ou secular, pois que se descobriu que muitos príncipes e arcebispos e outros, de categoria inferior, apostataram da fé. A igreja, por isso, consiste naquelas pessoas em que há conhecimento e confissão verdadeiros da fé e da verdade. (Nicolau de Lira [+1349], Postilla super Matth, 16:10; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo VII/VIII: 22, p. 181)

Os sacerdotes administram o sacramento e distribuem ao povo o sangue de Cristo. (São Jerônimo, comentário sobre Sofonias, 3; citado em Confissão de Augsburgo XXII: 6, p. 41 e em Apologia da Confissão de Augsburgo XXII: 4, p. 251).

Os diáconos, segundo a ordem, recebem do bispo ou do presbítero, a sagrada comunhão, depois dos presbíteros. (Cânon 18 do Concílio de Nicéia [325], citado em Confissão de Augsburgo XXIV: 38, p. 80)

Por outro lado, contudo, em Alexandria é às quartas e sextas-feiras que as Escrituras são lidas e os doutores as interpretam, e faz-se tudo sem o solene costume do sacrifício. (Sócrates [5º século], História Eclesiástica V: 22; citado em Cassiadorus, História Eclesiástica Tripartida IX; citado em Confissão de Augsburgo XXIV: 41, p. 80)

Por isso, segundo a tradição divina e a observância apostólica, deve ser diligentemente guardado e praticado o que também se observa entre nós e em quase todas as províncias: que, para celebrar as ordenações apropriadamente, todos os bispos vizinhos da mesma província devem reunir-se com o povo para o qual o preposto deve ser ordenado e o bispo deve ser eleito na presença do povo que conhece integralmente a vida de cada um, o que, segundo vimos, também foi feito entre vós na ordenação do nosso colega Sabino, que, pelo sufrágio de toda a fraternidade e pelo juízo dos bispos que se haviam reunido na presença deles, o episcopado lhe foi conferido e lhe foram impostas as mãos. (São Cipriano de Cartago, Epístola 67; citado em Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa, 14, p. 348)

Mas que depois foi escolhido um para ser posto sobre os demais, isto foi feito como remédio contra o cisma, a fim de não acontecer que, com cada qual atraindo para si, a igreja de Cristo se despedaçasse. Pois também em Alexandria, desde Marcos evangelista até o tempo dos bispos Esdras e Dionísio, os presbíteros sempre elegiam um entre eles e o colocavam em lugar mais elevado, chamando-o bispo. Assim como um exército estabelece um comandante para si, os diáconos, por sua vez, elejam entre eles um do qual saibam que é ativo e o nomeiem arcediácono. Pois, executada a ordenação, que faz o bispo que o presbítero não faça? (São Jerônimo, Epistola a Evágrio; citado em Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa, 62, p. 356)

Se à questão é concernente à autoridade, o orbe é maior que o urbe. Onde quer que tenha havido um bispo, seja em Roma, seja em Eugúbio, seja em Constantinopla, seja em Régio, seja em Alexandria, é ele da mesma dignidade e do mesmo sacerdócio. É o poder da riqueza e a humildade da pobreza o que torna superior ou inferior. (São Jerônimo, Epist. 146 ad Euangelum; citado em Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa, 18, p. 348)

LIBERDADE CRISTÃ

Não foi a intenção dos apóstolos instituir dias santos, mas ensinar fé e amor. (Sócrates, História Eclesiástica V: 22; citado em Cassiodoro, História Eclesiástica Tripartida IX: 38; citado em Confissão de Augsburgo XXVI: 45, p. 51)

Não fiqueis a calcular [a data da páscoa], as celebrai-a quando celebram vossos irmãos da circuncisão; fazei-o no mesmo tempo em que eles o fazem e, ainda, que se hajam enganado eles, não seja isso motivo de preocupação para vós. (Epifânio de Salamina, Panarion haer 70:10 [um "decreto apostólico"]; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo VII/VIII: 42, p. 185)

Desacordo em jejum não dissolve acordo na fé. (Santo Irineu de Lião [+202], Epístola a Victor; citado em Confissão de Augsburgo XXVI: 44, p. 51, em Epitome X: 7, p. 531, e em Declaração Sólida X: 31, p. 660)

Apenas a virgindade é coisa que se pode aconselhar, não ordenar; é mais coisa de voto do que de preceito. (Santo Ambrósio de Milão, Exortação à Virgindade 3: 17; citado em Apologia da Confissão de Augsburgo XXIII: 20, p. 257)

Se, porém, não querem ou não podem guardar a castidade, é melhor que casem do que caírem no fogo por sua própria volúpia. E devem acautelar-se bem para não causarem nenhum escândalo aos irmãos e irmãs. (Cipriano de Cartago, Epístola 62: 2; citado em Confissão de Augsburgo XXIII: 25, p. 44)

***

Compilado por David Jay Webber, traduzido e adaptado ao Livro de Concórdia em Português por Denício Godoy.

Publicado Originalmente em www.angelfire.com

janeiro 14, 2019

Holsten Fagerberg

por HOLSTEN FAGERBERG

Trechos de A New Look at the Lutheran Confessions [Saint Louis: Concordia Publishing House, 1972].)

    Quando as Confissões afirmam que elas são baseadas na Bíblia e cresceram em seu terreno, elas estão seguindo um dos princípios básicos da Reforma, que podem ser traçados diretamente através dos escritos teológicos de ambos [Martin] Lutero e [Philip] Melanchthon. Mas ao lado da Bíblia, e também ocupando um lugar importante nas Confissões, é a tradição eclesiástica - como isso pode ser visto acima de tudo nas mais antigas formulações doutrinárias da igreja. Isso aparece tanto em expressões programáticas quanto em procedimentos reais. [Walther] Von Loewenich, que não está de modo algum inclinado a enfatizar excessivamente o elemento “católico” nas obras de Lutero, lembra-nos dos esforços dos reformadores para preservar uma continuidade genuína com a igreja antiga. Lutero revela a mesma tendência em sua atitude para com os iconoclastas, a liturgia e os dogmas da igreja primitiva. Em sua rejeição aos primeiros hereges cristãos, sua aceitação do batismo infantil e sua defesa da confissão privada, vemos uma clara indicação da tendência da Reforma a preservar e restaurar. O objetivo da Reforma não era lançar um novo início radical, mas unir-se à herança da igreja antiga. Lutero tinha um sentimento de continuidade.
     Essa atitude em relação à igreja primitiva é vista de modo ainda mais forte em Melanchthon e nos documentos confessionais que ele escreveu. Desde que [Peter] Fraenkel publicou sua principal obra sobre o papel do elemento patrístico na teologia de Melanchthon - dos primeiros escritos até o último - podemos entender melhor por que a Confissão de Augsburgo e a Apologia aderem tão intimamente às formulações doutrinárias da igreja primitiva. Fraenkel demonstra que o interesse de Melanchthon pelas tradições da igreja primitiva permaneceu inalterado ao longo de sua carreira como autor no campo da teologia. Contra esse pano de fundo, podemos ver com mais clareza a seriedade da declaração da Confissão de Augsburgo: “Nada foi recebido entre nós, em doutrina ou em cerimônias, que seja contrário às Escrituras ou à igreja católica, contra Scripturam aut ecclesiam catholicam . Pois é manifesto que temos guardado diligentemente contra a introdução em nossas igrejas de quaisquer novas doutrinas ímpias. ”A fim de avaliar as declarações das Confissões Luteranas em questões teológicas controversas, é importante que sua orientação na direção das formulações mais antigas , especialmente os da igreja primitiva, sejam mantidos em vista. Na disputa de tendências teológicas opostas que marcaram sua época, os reformadores apoiaram a continuidade histórica e refutaram doutrinas que julgavam ser novas, sem apoio nem na Bíblia nem nos pais da igreja primitiva. Era seu desejo ligar-se às tradições da Igreja Ocidental - depois de terem sido libertados de acréscimos e excrescências posteriores. (pags. 45-46)

    Quando Melanchthon apoiou a posição evangélica com argumentos derivados dos pais da igreja primitiva, isto estava em harmonia com a sua opinião sobre a Reforma como uma continuação da formação doutrinal da igreja primitiva. Um estudo das partes dos escritos confessionais pelos quais Melanchthon foi responsável revela que as declarações formais na introdução e conclusão da Confissão de Augsburgo não estavam simplesmente lá por razões tático-políticas; elas refletem um ponto de vista bem pensado e distinto. As repetidas citações dos pais da igreja falam muito claramente como a expressão do método teológico sobre o qual as confissões são padronizadas. Em primeiro lugar, é feita referência à Bíblia, que deve apoiar claramente uma opinião doutrinal e, em segundo lugar, aos escritos dos pais. Em conexão com a controversa doutrina do pecado original, Melanchthon afirmou que não havia nada de novo nisso. Ensinamos, ele insistiu, nada a respeito do pecado original que está em oposição às Escrituras ou à igreja universal; nós simplesmente estabelecemos as principais idéias da Bíblia e dos pais. O mesmo raciocínio foi aplicado à doutrina da justificação, que tem apoio não apenas na Bíblia, mas também em muitos dos pais da igreja, dos quais Agostinho, com suas visões antipelagianas, foi citado em primeiro lugar. Ambrósio e Cipriano também foram incluídos. Melanchthon freqüentemente se referiu aos pais da Igreja Oriental. Idéias que Melanchthon derivou de Gratian também recebem algum espaço. Entre estes últimos estava a proposição de que qualquer costume que entrasse na igreja contra mandata Dei não deveria ser aceito ou aprovado.
   Em geral, encontramos a mesma atitude em Lutero, embora seu olhar crítico fosse mais aguçado. Naquelas porções das Confissões, as quais ele escreveu citações dos pais da igreja são relativamente escassas e estão muito mais em segundo plano. Lutero faz referências diretas aos pais apenas em algumas ocasiões. Agostinho recebe um lugar especial. Entre os pais mais antigos, Lutero também menciona Jerônimo, a quem ele cita em apoio de sua opinião sobre a igualdade entre papas e bispos. Entre os jovens teólogos, ele presta muita atenção a Bernardo [de Clairvaux], [John] Gerson e [John] Hus, que mostra sua atitude não convencional em relação à tradição eclesiástica.
   Dois outros fatores são de importância ainda maior. Primeiro de tudo, Lutero rejeitou o movimento de reforma radical, anti-Trinitário, cujos defensores eram conhecidos como "entusiastas". Não pode haver dúvida de que essa escolha foi feita deliberadamente. Em uma carta sobre o rebatismo, Lutero tomou uma posição contra Balthaser Hubmaier e escreveu o seguinte: “É nossa confissão que no papado há as Sagradas Escrituras certas, o batismo certo, o sacramento certo do altar, as chaves certas para o perdão dos pecados, o ofício correto de pregação, o catecismo correto, como a Oração do Senhor, os Dez Mandamentos, o Credo. ... Agora, se o cristianismo existe sob o papa, deve ser o verdadeiro corpo e membros de Cristo. Se é o Seu corpo, então tem o Espírito, o Evangelho, o Credo, o Batismo, o Sacramento, as chaves, o ofício de pregação, a oração, as Sagradas Escrituras e tudo o que o Cristianismo deveria ter. Portanto, não nos entusiasmamos com os 'entusiastas' que rejeitam tudo no papado ”[ Von der Wiedertaufe (1528)]. Em segundo lugar, Lutero se ligou positivamente às formulações dogmáticas da igreja primitiva. Em sua introdução aos Artigos Esmalcalde, ele apontou para as doutrinas nas quais ambas as partes opostas concordavam, e ao fazê-lo, ele fez uma conexão direta com os credos niceno e atanasiano.
Essas e outras expressões similares de Lutero e Melanchthon revelam claramente a tradição a qual elas pretendiam aderir. (pags. 48-50)

     Embora as Confissões freqüentemente apontem áreas de concordância com os pais da igreja primitiva, elas também incluem uma variedade de críticas. Sua atitude é que os pais da igreja não podem ser aceitos em bloco . Eles não eram infalíveis; como homens, eles poderiam cometer erros; suas opiniões freqüentemente revelavam uma séria falta de harmonia. Já que muitos dos pais edificados com “feno e palha” no verdadeiro fundamento, Cristo, seu trabalho não pode perdurar (Ap VII 20 f.). Nenhum pai da igreja é infalível, nem mesmo o melhor de todos, Agostinho; ele também é criticado quando expressa opiniões contrárias à Palavra de Deus. Essas e outras observações similares pressupõem mentes capazes de crítica histórica, e os reformadores tinham essa capacidade. Com relação ao sacramento da penitência e do ofício de pregação, eles descobriram um desenvolvimento óbvio, que consideravam um desvio. Eles sustentavam que a palavra “confissão” havia perdido seu sentido e significado originais. Os deveres episcopais aumentaram ao longo dos séculos e o número de sacramentos foi gradualmente fixado em sete. Lutero e Melanchthon concordaram com os humanistas Erasmo e Lorenzo Valla ao afirmar que Dionísio, o Areopagita, era um pseudônimo usado por um homem muito mais recente do que o mencionado em Atos 17:34. Eles também criticaram outros autores, dos quais se dizia erroneamente que tinham escrito livros que, de fato, não poderiam ter produzido.
    Há também um esforço óbvio de classificação para ser visto no que as Confissões dizem sobre o desenvolvimento doutrinário da igreja primitiva. Alguns dos pais são mais apreciados do que outros. Em geral, o testemunho daqueles que viveram mais próximos da época de Cristo é aceito em preferência àqueles que viveram mais tarde. O risco de erro aumentou com o passar do tempo. Os teólogos escolásticos foram criticados com particular nitidez por sua mistura de teologia e filosofia aristotélica. Ap XXI 41 diz sobre isso: “Nós mesmos ouvimos excelentes teólogos pedirem limitações à doutrina escolástica porque ela leva a disputas filosóficas em vez de à piedade. Os escolásticos anteriores estão geralmente mais próximos das Escrituras do que os mais recentes, de modo que sua teologia degenerou constantemente ”. Também é possível observar, em vários casos concretos, como os escritores confessionais jogam com os primeiros pais contra os teólogos escolásticos, incluindo: mais proeminentemente, Tomás [Aquino], Duns Scotus e Gabriel Biel. No que diz respeito às doutrinas do pecado original, da penitência e da Ceia do Senhor, as Confissões Luteranas buscam o apoio dos primeiros pais, na medida em que sua posição era diferente daquela adotada pelos escolásticos. Um número de teólogos individuais da Alta e da Idade Média também forneceu apoio para o ensino da Reforma, pelo menos em certos pontos. Entre estes, Bernardo de Clairvaux e John Gerson foram mencionados com mais frequência. (pags. 52-54)

    Melanchthon queria preservar a continuidade histórica entre a Reforma Luterana e as formas mais antigas de cristianismo, e ele também queria eliminar as irregularidades dentro da igreja. Estas foram as diretrizes básicas que ele derivou de seu estudo da história da igreja.
    De acordo com Melanchthon, a Reforma Luterana não foi uma interrupção da história da igreja, mas uma continuação. Como ele viu, a história da igreja procede de acordo com um padrão definido e é caracterizada por apostasia e reforma. A verdade divina concernente à salvação do homem é uma e a mesma desde o começo do mundo até o presente. Esta verdade tem sido sufocada e ameaçada de destruição vez após vez, apenas para ser trazida de volta à luz através de um movimento de reforma. A igreja sempre existiu, às vezes forte, às vezes enfraquecida. Durante os períodos de decadência, a verdadeira igreja vive como uma igreja minoritária.
     Nos primeiros anos da história cristã, esse padrão envolvia a revelação da verdade divina através de Jesus e dos apóstolos, os quais Melanchthon considerava reformadores. A decadência foi estabelecida após a era apostólica, que atingiu seu ponto culminante em Orígenes e provocou uma reforma por meio de Agostinho. Após o expurgo dos agostinianos, o mesmo curso de eventos se repetiu: decadência durante todo o período medieval, que provocou a Reforma Luterana. Mas durante todo o processo, caracterizado pela renovação-decadência-renovação, a verdade sempre foi preservada por uma minoria. A verdade pode ser sufocada, mas nunca pode ser completamente destruída. Melanchthon podia ver uma continuidade doutrinal dogmática que perpassa os séculos de história da igreja e os períodos de decadência, e foi a isso que a Reforma quis se unir. A Reforma não foi projetada para introduzir novidades, mas para reviver as antigas verdades que haviam sido esquecidas ou obscurecidas como resultado da decadência da igreja.
    Esta visão da história pode ser encontrada nos símbolos luteranos, e lança luz sobre as expressões positivas e negativas relativas ao desenvolvimento doutrinário da igreja. Agostinho recebe a mais alta classificação. Ele era o único pai da igreja que lecionava regularmente em Wittenberg. Ele também explica a atitude geralmente negativa que os Símbolos tomam para com a época pós-agostiniana, na qual pensava-se que o papa Gregório, o Grande, havia provocado uma tendência na direção errada. Também deixa claro por que certos teólogos medievais poderiam ser consultados sobre questões particulares: a luz nunca foi completamente apagada, e a verdade nunca totalmente obscurecida. (pags. 54-55)

    A verdade foi dada e estabelecida de uma vez por todas. Aqueles pais cujo trabalho era aceitável não haviam formulado nenhuma doutrina nova; eles restauraram as originais e as libertaram de adições irrelevantes. As Confissões procuraram retornar àqueles pais que preservaram as doutrinas puras, sem falsificação. Mas tentar uma análise tão crítica das declarações dos pais da igreja exigia o uso de uma norma mais elevada, e os luteranos a encontravam nas Escrituras. Isso faz com que a questão da relação entre Escritura e tradição seja pertinente.
    Como seria de esperar, os símbolos luteranos vêem a tradição em relação ao seu conceito de proclamação viva da igreja. A igreja tem a Palavra revelada de Deus, que também é uma Palavra viva. O que a igreja proclama não pode ser alterado; seu conteúdo deve permanecer o mesmo de geração para geração. Os símbolos colocam a maior ênfase na proclamação viva da igreja. Doutrina e pregação estão intimamente ligadas umas às outras nas Confissões - não de tal modo que a pregação deva carecer de conteúdo doutrinário e que a doutrina possa ser traduzida como Palavra pregada , mas para que a revelação e salvação de Deus possam ser ditas e ensinadas e trazidas a vida de novo em cada geração. Isto é expresso mais claramente nas palavras da absolvição e nas palavras da instituição do Batismo e da Ceia do Senhor, onde nenhum acréscimo pode ser feito; somente a voz do próprio Deus deve ser ouvida. Como resultado, a única função ou dever do clero é fazer com que a voz de Cristo seja ouvida. Em outras palavras, a igreja deve dar voz à Palavra de Cristo . Na pregação, na absolvição e na administração dos meios da graça, devemos ouvir a própria voz de Cristo (de acordo com Lucas 10:16). As Confissões opõem-se energicamente à idéia de que o clero tem autoridade para acrescentar novas palavras, seja na esfera doutrinária ou em relação à disciplina da igreja. (pag. 58)

     Um dos pontos principais da Reforma tem a ver com a identidade permanente da proclamação da igreja. A igreja tem uma e a mesma mensagem para proclamar, desde a promessa do protevangelium (em Gen. 3:15) até o tempo presente. A promessa de salvação dada a Adão foi repetida para os patriarcas e os profetas; foi renovada por Cristo e pregada pelos apóstolos como sendo válida para todos os homens em todas as eras (Ap XII 53). É neste contexto que a tradição eclesiástica legítima deve ser colocada. Os símbolos da igreja primitiva, alguns dos pais da igreja e vários teólogos posteriores estão incluídos na longa lista de testemunhas. Melanchthon - e Lutero também - estava profundamente convencido da continuidade doutrinária da igreja. As Confissões localizaram a fonte e norma da mensagem divina na Bíblia; Como resultado, a Bíblia ocupa uma posição central na teologia da Reforma. A Palavra apostólica é encontrada preservada nas Escrituras, e todas as declarações devem ser verificadas pela Escritura. Como Fraenkel apontou, a primazia da Escritura era axiomática.
    O fato de que a Escritura recebeu tal destaque não significava, entretanto, que suas palavras tivessem que ser repetidas de maneira literal. Como resultado da [má] aplicação do princípio da Escritura, havia círculos dentro da Reforma em que essa demanda não era estranha - mas nas Confissões é completamente desconhecida. O que é dito na Bíblia também pode ser encontrado em alguns dos pais da igreja primitiva e foi codificado nos antigos credos da igreja. É certamente verdade que eles às vezes usam outras palavras e diferentes modos de expressão, mas preservam o significado da Escritura. Lutero considerou o Credo dos Apóstolos como uma Palavra revelada de Deus, preservando e resumindo fielmente o Evangelho das Escrituras. Nos artigos de Esmalcalde, Lutero associava-se sem reservas com “os artigos sublimes da majestade divina”, como estes são formulados nos três credos mais antigos. Tanto Lutero quanto Melanchthon identificaram-se dessa maneira com as doutrinas da igreja primitiva porque consideravam que essas doutrinas estavam em harmonia com as Escrituras. Não houve diferença de opinião entre os dois reformadores sobre este ponto. Pelo contrário, ambos encontraram uma base segura para a doutrina e proclamação da igreja nos credos da igreja primitiva. Na medida em que os credos eram vistos como uma interpretação das Escrituras, a Bíblia tornou-se tanto a fonte quanto a norma para julgar a legítima tradição eclesiástica. Aquilo que harmonizava com as Escrituras era aceito; aquilo que não, foi descartado. De acordo com as Confissões Luteranas, a base real de toda tradição legítima nada mais é do que a exposição eclesiástica da Bíblia .
    Aquilo que pode ser aceito como genuína tradição eclesiástica deve ser capaz de ser verificado pela Escritura. A tradição não pode incluir teses sem apoio bíblico. É este princípio que deu origem ao dito: “A Palavra de Deus estabelecerá artigos de fé” (AE II II 15) e que explica a crítica rejeição de certos pontos no desenvolvimento doutrinário mais antigo. Uma das passagens bíblicas usadas com mais frequência neste contexto foi Atos 10:43, que diz que o perdão dos pecados por amor a Cristo é dado a todos os que crêem Nele. Esse profeta de consenso unânime é o mesmo que a opinião consciente da igreja, e tem mais peso do que todos os ensinamentos contrários dos teólogos posteriores. Negativamente, implica uma crítica aos indivíduos, bem como às opiniões. A distinção convencional feita na doutrina da penitência entre dois tipos de arrependimento, contritio e attritio , bem como as doutrinas de satisfação, purgatório e opus operatum , são contrárias às Escrituras. Mas esse apelo às Escrituras de modo algum inclui uma exigência para reiterar as formulações escriturísticas de maneira literal. As Confissões também usam termos que não podem ser encontrados na Bíblia, mas estão em harmonia com o seu significado. O mesmo acontece com as formulações empregadas nos antigos credos da igreja. (pags. 59-61)

     A convicção acerca da identidade do anúncio da igreja também confere à tradição uma certa importância para a exposição da Bíblia. As Escrituras, portanto, não têm uma função meramente crítica para cumprir a tradição; este último também tem um grau de importância como um guia para a igreja em sua própria exposição das Escrituras. Para apoiar o argumento de que as Confissões não introduziram nenhuma novidade, era importante poder referir-se a declarações patrísticas. Há, em outras palavras, uma linha que vai das Escrituras para a tradição posterior; mas também o contrário: começando com a tradição, pode-se também encontrar a estrada que leva de volta às Escrituras. Durante os confrontos teológicos do século XVI, os antigos credos serviram de guias para as Escrituras. Lutero e Melanchton aprovaram interpretações bíblicas que afirmavam o dogma da Trindade, enquanto aquelas que não o fizeram foram rejeitadas como erradas.
    Que Lutero deliberadamente escolheu uma linha que vai contra as tendências radicais dentro da Reforma pode ser visto em sua carta sobre o re-batismo escrita em 1528. Ele rastreou toda a heresia de volta para a negação do Segundo Artigo do Credo, que define Cristo como verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Melanchthon também sustentou a ideia de que os credos antigos podem ser usados ​​como guias de volta às Escrituras. Mas a linha de conexão não é ininterrupta, nem mesmo nos primeiros cinco séculos da existência da igreja. Antes, a verdade deve ser encontrada em pontos isolados, elucidados por teólogos individuais, com a Escritura servindo em todos os momentos como a norma suprema. A autenticidade do que a igreja diz hoje depende de seu acordo factual com o que a igreja disse em todos os tempos, através daqueles que entenderam o verdadeiro significado da Escritura. (pags. 61-62)

***

REFERÊNCIAS
  • Fraenkel, Peter. Testimonia patrum: The Function of the Patristic Argument in the Theology of Philip Melanchthon. Geneva, 1961.

  • Loewenich, Walther von. Von Augustin zu Luther: Beiträge zur Kirchengeschichte. Witten, 1959.

maio 15, 2018

O Terço e a Devoção



Por Nathan Buzzatto

Existe uma palavra que luteranos entendem muito bem “adiáforo”. Este termo derivado do grego e que literalmente quer dizer “indiferente”, para nós tem um uso bem específico.

Quando falamos em liberdade cristã, temos uma posição extremamente escriturística. Um dos motes da Reforma protestante foi o “Sola Scriptura”, com isto entendemos que somente as Escrituras, dotadas da inspiração divina, é que podem nos agravar as consciências, nos dizer o que devemos e o que não devemos crer e viver. Entretanto, sobre muitos pontos, ela não prescreve algo taxativamente. Nestes quesitos, alguns irmãos de outras linhas teológicas criam seus próprios usos e costumes, como permitir ou não o uso de televisão, aceitar ou não o uso de maquiagem, calças, ou mesmo o que pode ou não ser usado como elemento de culto.

Para nós, preferimos nos firmar naquilo que está escrito, e nos silenciamos onde o texto também silencia. Desta forma, sobre muitos aspectos temos “adiáforos”, coisas que não são essenciais para nossa salvação, mas também não representam nenhum perigo à nossa espiritualidade.

Uma destas coisas compreendidas pela liberdade cristã está no uso do rosário. Talvez a prática que mais gere espanto da parte de alguns. Vocês rezam o terço igual os católicos? Esta é uma pergunta recorrente. De fato, é uma realidade pouco conhecida de muitos. Tenho de fato um grupo de amigos luteranos que fazem das orações do terço uma prática diária, assim como eu tenho feito, de igual modo, conheço pastores que não gostam desta prática. E como lidamos com isso?

Com a maior naturalidade. Em ponto algum das Escrituras vemos uma ordem de que Cristãos devam fazer o uso de um terço, ou mesmo uma recomendação a não o usar. Entender que existe liberdade cristã, é entender que a mesma liberdade que tenho de escolher usá-lo em minhas devoções individuais, o outro tem de não o usar. Somente as escrituras tem a palavra final sobre todos nós.

Lembro-me que quando criança, as devoções em família eram ponto de honra, todos deviam estar ali no horário combinado. Sabíamos que sem devoção não tem cama! Não importava o quanto estivéssemos cansados, ou mesmo que fosse tarde da noite, todas as noites estávamos lá, reunidos em família, havia algo cantado, leituras, como eu era criança, sempre o que foi lido era explicado e comentado, e então vinham as orações.

Muitas vezes, tomado de sono, cansado, outras vezes de mau humor, não me sentia pronto para orar, palavras simplesmente não me vinham à boca. E então, as orações muitas vezes eram repetidas.

Muitos podem dizer que isto não estava sendo de nenhum proveito, mas devo discordar, foram estas orações que não me deixaram esfriar na minha vida de oração, foram elas que me mantiveram quando não sabia o que dizer ou não tinha ânimo.

Hoje sinto falta de ter minha mãe me chamando para a devoção, e esta proximidade da data do dia das mães faz esta falta doer mais fundo. São dias assim que me sinto completamente deprimido. Não tenho mais as explicações que me acompanharam, hoje, muitas vezes sou eu quem agora explica as passagens lidas.

O que dizer diante do altar quando a lembrança apenas traz lágrimas aos olhos e não temos, ou não sabemos como ou o que dizer? Neste momento, me lembro das noites em que estava de mal humor, mas eu tinha uma oração para fazer, porque mesmo que minha mente e meu coração não estivessem no lugar, aquelas orações me guiaram como uma luz num lugar escuro. Então eu as repetia.

Hoje, eu posso estar de pé em frente ao altar sozinho, não ter para quem explicar, ou quem me explique, posso não ter palavras para dizer o que estou sentindo, mas posso pegar aquele terço e a cada conta dizer Ἅγιος ὁ Θεός, Ἅγιος ἰσχυρός, Ἅγιος ἀθάνατος, ἐλέησον ἡμᾶς.”, Santo Deus, Santo forte, Santo Imortal, tem piedade de nós. E a cada vez que clamo, ter de Deus o renovo da esperança em seu Evangelho.

O Terço é algo obrigatório? Não. Faz a pessoa mais santa? Não. É um amuleto contra o mal? Não. Mas se todos soubessem como ele nos carrega em momentos difíceis, tenho certeza que muitos mais também o usariam.

janeiro 13, 2018


Em 25 de junho de 1530, os reformadores luteranos apresentaram a Confissão de Augsburgo (CA) ao imperador Carlos V, demonstrando que os luteranos são os verdadeiros católicos.

Veja o artigo XXI da CA: "Isto é, mais ou menos, a suma da doutrina entre nós. Pode ver-se que nela nada existe que divirja das Escrituras, ou da igreja católica." Leia também a tradução de um excerto do artigo de Mathew Block:


"[...] Ser católico é ser herdeiro da fé apostólica. É estar enraizado firmemente no ensinamento dos Apóstolos, como registrado para nós nas Escrituras, a imutável Palavra de Deus.

[...] o corpo da igreja que aceita as Escrituras como a única fonte de autoridade na Igreja e ainda reconhece a tradição da Igreja como um princípio interpretativo normativo para a compreensão das Escrituras pode justamente chamar-se católico. É neste sentido que os luteranos se confessam herdeiros da tradição católica. "Visto as igrejas entre nós não dissentirem da igreja católica em nenhum artigo de fé", declara Melanchthon na Confissão de Augsburgo. "Pode ver-se que nela nada existe que divirja das Escrituras, ou da igreja católica, ou da Igreja Romana, até onde nos é conhecida dos escritores."

Séculos mais tarde, Herman Sasse afirmaria o mesmo: "Não foi mera diplomacia eclesiástico-política que ditou a enfática asserção na Confissão de Augsburgo de que os ensinamentos dos evangélicos eram idênticos aos da Igreja Católica Ortodoxa de todos os tempos", escreve ele . "O teólogo luterano reconhece que pertence à mesma igreja visível a qual Tomás de Aquino e Bernardo de Claraval, Agostinho e Tertuliano, Atanásio e Irineu uma vez pertenceram."

Sendo assim, os luteranos confessionais são católicos? Sim. E sempre seremos, contanto que nos apeguemos às tradições dos Apóstolos, escritas nas Escrituras e fielmente transmitidas a nós pela Igreja. Consequentemente, não posso deixar de pensar que aqueles que buscam um "Futuro Protestante" devem, de fato, olhar para o Passado Protestante. Está procurando uma igreja que recebe fielmente a tradição católica ao proclamar claramente a autoridade das Escrituras? Está procurando uma igreja que é tanto sacramental quanto devotada à salvação pela graça somente pela fé? Está procurando, em outras palavras, por uma Igreja Católica Evangélica? Ela já existe. É chamada luteranismo."

-- Mathew Block, editor da revista The Canadian Lutheran da Igreja Luterana do Canadá. (Artigo "Are Lutherans Catholic?", publicado em firstthings.com)