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agosto 09, 2019


por Rev. Benjamin Ball

É muito engraçado quando você procura algo com um propósito, e se depara com algo completamente diferente. Eu tive essa experiência hoje lendo Chemnitz: O exame do Concílio de Trento: Parte II, Seção III sobre a Missa. Chemnitz está respondendo ao Cânon VI de Trento "Se alguém diz que o cânon da Missa contém erros e, portanto, deve ser revogado, seja anátema". significado ”e pode citar vários Padres da Igreja para ajudar a provar seu caso. Ele argumenta que este cânon e as reivindicações dos papistas são "nebulosas e sem sentido" e pode citar vários Padres da Igreja para ajudar a provar seu ponto.

O que foi tão interessante para mim foram as citações que ele oferece e suas descrições do Culto Divino. Aqui estão seus comentários introdutórios, citações e depois eu intervirei.

É útil conhecer a história da antiguidade em relação às orações que eram costumeiras nas liturgias ou na celebração da Ceia do Senhor. A partir disso, muitas coisas podem ser julgadas quando comparamos, por um lado, o cânon papal e, por outro lado, a liberdade com a qual orações desse tipo foram usadas corretamente em nossas igrejas de acordo com a analogia da fé.

Justin diz, Apologia, 2, que depois de ler e interpretar as Escrituras, todos se levantam para orar e que, quando as orações terminam, o pão e o vinho são levados ao supervisor para que comece a ação da Ceia do Senhor. E nesta ação ele menciona louvor e glorificação através de orações e ações de graças. Quando terminam, as pessoas acenam e dizem: "Amém". "Depois da Comunhão", diz ele, "nós nos aconselhamos ao amor e à união fraterna; também damos ofertas para as quais os necessitados são ajudados. E no que é oferecido, bendizemos o Pai, o Criador de todas as coisas, através do Filho e do Espírito Santo ".

Em Irineu, Bk. 4, estas ofertas aos pobres com ações de graças pelo dom precedem a ação da Ceia do Senhor, “porque destes dons das primícias dos frutos da terra é tomado aquilo que através das palavras de Cristo recebe o chamado para ser o corpo e sangue de Cristo ”.

De acordo com Dionísio, orações e leituras são feitas a partir dos livros sagrados, e então os catecúmenos, os possuídos e os penitentes são ordenados a sair. Depois disso, eles pegam o pão e o cálice e a oração sagrada é feita. Depois disso, segue a Santa Comunhão, que termina com ação de graças”.

Agostinho, Carta n º 59, para Paulino, enquanto explica as palavras de Paulo em 1 Tim. 2: 1, sobre "súplicas, orações, intercessões e ações de graças", diz que na celebração dos sacramentos as orações são feitas antes de ser abençoado o que está na mesa do Senhor; então orações são feitas enquanto são abençoados, consagrados, partidos  e preparadas para distribuição; que é interrompido quando as pessoas são abençoadas antes da comunhão; e depois da comunhão, diz ele, tudo termina com ação de graças.

Crisóstomo diz, Homilia 18, cerca de 2 Coríntios: “Primeiro, o sacerdote e o povo fazem orações comuns. Segundo, quando aqueles que não podem estar presentes nos mistérios eram despedidos, outra oração é feita. Terceiro, a paz é pronunciada sobre aqueles que devem comungar. Em quarto lugar, tudo termina com ação de graças.

Portanto, nas liturgias dos antigos: 1. Orações eram feitas antes de começarem a abençoar o que estava na mesa do Senhor; 2. Eles tinham certas orações durante a bênção, consagração e preparação do pão e do cálice do Senhor; 3. Após a consagração, mas antes da Comunhão, uma bênção ou paz foi dada às pessoas que deveriam comungar; 4. Após a comunhão, toda a ação terminava com ação de graças.

Martin Chemnitz, Examination of the Council of Trent: Part II, Trans. by Fred Kramer. Concordia Publishing House, 1978, pp.510-512

Os pontos resumidos por Chemnitz abriram meus olhos ao relatar o que os antigos faziam na celebração da Ceia do Senhor, que em essência não é diferente do que as Congregações Litúrgicas e Confessionais luteranas fazem hoje. Antes do sacramento, nós oramos. Temos certas orações que rezamos durante a celebração do Sacramento, a mais importante, o Pai Nosso. Depois da consagração, Pax Domini é uma parte vital da celebração, particularmente porque é uma bênção para aqueles que receberão o Corpo e o Sangue vertido de Jesus Cristo. Você também pode perceber como a comunhão fechada era praticada na Igreja Antiga. A paz está sobre aqueles que estarão em comunhão, na verdadeira fé contrita que recebe que os mistérios, enquanto outros estão excluídos da comunhão. E finalmente "Tudo conclui com ação de graças."

Ler Chemnitz hoje me ajudou a ser grato por esse grande pai luterano, mas também por nossa liturgia luterana. No que dizemos e fazemos, de acordo com a analogia da fé, estamos ligados ao Deus verdadeiro e vivo, Seus dons e Seu povo que nos precederam. Os santos da antiguidade estão dando graças agora mesmo pelos dons que Deus lhes deu no Culto Divino, através do Seu querido Filho, pelo Espírito Santo. Através do Evangelho e dos Sacramentos eles estão vivendo agora e oferecendo infinitas ações de graças. Fazemos bem em seguir seu exemplo: orar as orações que recebemos ao Deus verdadeiro e vivo, ter uma clara confissão da verdadeira fé por meio de nossas sólidas práticas baseadas na doutrina das Escrituras, unir-se aos crentes da antiguidade vivendo e recebendo os dons de Deus como eles fizeram, concluindo tudo com gratidão. Você simplesmente não pode vencer a liturgia. Ela é bíblica. É católica. É luterana. Através dela, recebemos os dons de Deus. Nela, nós nos aconselhamos a sermos cristãos. A partir daí, vivemos uma vida de fé e amor santo e em tudo damos graças continuamente.

julho 29, 2019


Hoje a Igreja comemora Maria, Marta e Lázaro de Betânia. Os três estão juntos em João 11, quando Maria e Marta vieram a Jesus em nome de Lázaro, que estava doente. No evangelho do 6° Domingo após Pentecostes (Lucas 10.38-42) Maria e Marta aparecem com Jesus em sua casa. É sobre este texto que queremos refletir. Nossa lectio divina vem dos Sermões de Santo Agostinho (Sermo 103, 1-2. 6: PL 38, 613.615) (Séc.V)

Lectio Divina

As palavras de nosso Senhor Jesus Cristo nos advertem que, em meio à multiplicidade das ocupações deste mundo, devemos aspirar a um único fim. Aspiramos porque estamos a caminho e não em morada permanente; ainda em viagem e não na pátria definitiva; ainda no tempo do desejo e não na posse plena. Mas devemos aspirar, sem preguiça e sem desânimo, a fim de podermos um dia chegar ao fim.

Marta e Maria eram irmãs, não apenas irmãs de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam ao Senhor corporalmente presente. Marta o recebeu como costumam ser recebidos os peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. O Senhor quis tomar a forma de servo e, nesta condição, ser alimentado pelos servos, por condescendência, não por necessidade. Também foi por condescendência que se apresentou para ser alimentado. Pois tinha assumido um corpo que lhe fazia sentir fome e sede.

Portanto, o Senhor foi recebido como hóspede, ele que veio para o que era seu, e os seus não o acolheram. Mas, a todos que o receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,11-12). Adotou os servos e os fez irmãos; remiu os cativos e os fez co-herdeiros. Que ninguém dentre vós ouse dizer: Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa! Não te entristeças, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor corporalmente. Ele não te privou desta honra, pois afirmou:Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40).

Aliás, Marta, permite-me dizer-te: Bendita sejas pelo teu bom serviço! Buscas o descanso como recompensa pelo teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora sejam de pessoas santas. Mas, quando chegares à outra pátria, acaso encontrarás peregrinos para hospedar? encontrarás um faminto para repartires com ele o pão? um sedento para dares de beber? um doente para visitar? um desunido para reconciliar? um morto para sepultar? Lá não haverá nada disso. Então o que haverá? O que Maria escolheu: lá seremos alimentados, não alimentaremos. Lá se cumprirá com perfeição e em plenitude o que Maria escolheu aqui: daquela mesa farta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. Queres realmente saber o que há de acontecer lá? É o próprio Senhor quem diz a respeito de seus servos: Em verdade eu vos digo: ele mesmo vai fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá (Lc 12,37).

julho 23, 2019

Tendes Cristo em vós


Da Carta aos Magnésios, de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir
(Nn. 10,1-15: Funk1, 199-202) (Séc.I)

Tendes Cristo em vós

Longe de nós a indiferença ante a benignidade de Cristo. Se agisse conosco da maneira como fazemos, estaríamos perdidos. Por isto, feitos seus discípulos, aprendamos a viver de acordo com o cristianismo. Quem se faz chamar por nome diferente, não é de Deus. Rejeitai, pois, o mau fermento, velho e azedo, e mudai-vos com a força do novo fermento, que é Jesus Cristo. Salgai-vos nele para que nenhum de vós se corrompa, porque pelo cheiro seríeis descobertos. É absurdo confessar a Cristo Jesus e judaizar, porque, de fato, o cristianismo não creu no judaísmo, mas o judaísmo no cristianismo, no qual estão reunidos todos quantos creem em Deus.

Se vos escrevo deste modo, caríssimos meus, não é porque saiba haver alguns de vós com estes sentimentos. Porém, como o menor de todos, desejo-vos precavidos a fim de não cairdes no anzol da vã doutrina. Ficai plenamente certos do nascimento, e da paixão e ressurreição acontecidos durante a procuradoria de Pôncio Pilatos. Tudo isto foi verdadeiramente vivido por Jesus Cristo nossa esperança. Ninguém se afaste jamais desta esperança.

Goze eu de vossa companhia, se for digno. Embora em cadeias, não posso comparar-me com nenhum de vós, que não estais presos. Sei que não vos orgulhais, pois tendes Jesus Cristo em vós. Ora, além disto, sei que o rubor vos sobe ao rosto quando vos elogio, como está escrito: O justo acusa-se a si mesmo.

Esforçai-vos por ficar firmes na doutrina do Senhor e dos apóstolos, para que tudo quanto fizerdes tenha bom êxito na carne e no espírito, pela fé e pela caridade, no Filho e no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, com vosso digno bispo e a bem entretecida coroa espiritual de vosso presbitério, juntamente com os diáconos, agradáveis a Deus. Sede submissos ao bispo e uns aos outros como, em sua humanidade, Jesus Cristo ao Pai, e os apóstolos a Cristo e ao Pai e ao Espírito, para que a união seja corporal e espiritual.

Por vos saber cheios de Deus, exortei-vos com brevidade. Lembrai-vos de mim em vossas orações, para que consiga alcançar a Deus. Lembrai-vos também da Igreja que está na Síria, na qual não sou digno de ser contado. Necessito de vossa unida oração e caridade em Deus. Que a Igreja, que está na Síria, mereça ser orvalhada pela vossa Igreja!

Saúdam-vos em Esmirna, donde vos escrevo, os efésios que aqui se acham presentes para a glória de Deus, como também vós que, juntamente com Policarpo, o bispo de Esmirna, me assististes em tudo. As outras Igrejas, em honra de Jesus Cristo, vos saúdam. Adeus, unidos em Deus, possuidores do inseparável espírito, que é Jesus Cristo.

abril 23, 2019

Era necessário que Cristo sofresse

Dos Sermões de Santo Anastácio de Antioquia
(Oratio 4, 1-2: PG 89, 1347-1349) (Séc.VI)

Era necessário que Cristo sofresse
para assim entrar em sua glória

Cristo, por suas palavras e ações, revelou que era verdadeiro Deus e Senhor do universo. Ao subir para Jerusalém com seus discípulos, dizia-lhes: Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos gentios, aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei, para ser escarnecido, flagelado e crucificado (Mt 20,18.19). Fazia, na verdade, estas afirmações em perfeita consonância com as predições dos profetas, que haviam anunciado sua morte em Jerusalém.
Desde o princípio, a Sagrada Escritura havia predito a morte de Cristo com os sofrimentos que a precederiam, e também tudo quanto aconteceu com seu corpo depois da morte; predisse igualmente que aquele a quem tudo isto sucedeu é Deus impassível e imortal. De outro modo, nunca poderíamos afirmar que era Deus se, ao contemplarmos a verdade da encarnação, não encontrássemos nela razões para proclamar, com clareza e justiça, uma e outra coisa, ou seja, seu sofrimento e sua impassibilidade. O motivo pelo qual o Verbo de Deus, e portanto impassível, se submeteu à morte é que, de outra maneira, o homem não podia salvar-se. Este motivo somente ele o conhece e aqueles aos quais revelou. De fato, o Verbo conhece tudo o que é do Pai, como o Espírito que esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus (1Cor 2,10).
Realmente, era preciso que Cristo sofresse. De modo algum a paixão podia deixar de acontecer. Foi o próprio Senhor quem declarou, quando chamou de insensatos e lentos de coração os que ignoravam ser necessário que Cristo sofresse, para assim entrar em sua glória. Por isso, veio ao encontro do seu povo para salvá-lo, deixando aquela glória que tinha junto do Pai, antes da criação do mundo. Mas a salvação devia consumar-se por meio da morte do autor da nossa vida, como ensina São Paulo: Consumado pelos sofrimentos, ele se tornou o princípio da vida (cf. Hb 2,10).
Deste modo se vê como a glória do Filho unigênito, glória esta que por nossa causa ele havia deixado por breve tempo, foi-lhe restituída por meio da cruz, na carne que tinha assumido. É o que afirma São João, no seu evangelho, ao indicar qual era aquela água de que falava o Salvador: Aquele que crê em mim, rios de água viva jorrarão do seu interior. Falava do Espírito, que deviam receber os que tivessem fé nele; pois ainda não tinha sido dado o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado (Jo 7,38-39); e chama glória a morte na cruz. Por isso, quando o Senhor orava, antes de ser crucificado, pedia ao Pai que o glorificasse com aquela glória que tinha junto dele, antes da criação do mundo.

abril 16, 2019

 
Do Livro sobre o Espírito Santo, de São Basílio Magno, bispo
(Cap.15,35: PG32,127-130)

(Séc.IV)

Há uma só morte que resgata o mundo e uma só ressurreição dos mortos

O desígnio de nosso Deus e Salvador em relação ao homem consiste em levantá-lo de sua queda e fazê-lo voltar, do estado de inimizade ocasionado por sua desobediência, à intimidade divina. A vinda de Cristo na carne, os exemplos de sua vida apresentados pelo Evangelho, a paixão, a cruz, o sepultamento e a ressurreição não tiveram outro fim senão salvar o homem, para que, imitando a Cristo, ele recuperasse a primitiva adoção filial.

Portanto, para atingir a perfeição, é necessário imitar a Cristo, não só nos exemplos de mansidão, humildade e paciência que ele nos deu durante a sua vida, mas também imitá-lo em sua morte, como diz São Paulo, o imitador de Cristo: Tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos (Fl 3,10).

Mas como poderemos assemelhar-nos a Cristo em sua morte? Sepultando-nos com ele por meio do batismo. Em que consiste este sepultamento e qual é o fruto dessa imitação? Em primeiro lugar, é preciso romper coma vida passada. Mas ninguém pode conseguir isto se não nascer de novo, conforme a palavra do Senhor, porque o renascimento, como a própria palavra indica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é preciso pôr fim à antiga. Assim como, no estádio, os que chegam ao fim da primeira parte da corrida, costumam fazer uma pequena pausa e descansar um pouco, antes de iniciar o retorno, do mesmo modo, era necessário que nesta mudança de vida interviesse a morte, pondo fim ao passado para começar um novo caminho.

E como imitar a Cristo na sua descida à mansão dos mortos? Imitando no batismo o seu sepultamento. Porque os corpos dos batizados ficam, de certo modo, sepultados nas águas. O batismo simboliza, pois, a deposição das obras da carne, segundo as palavras do Apóstolo: Vós também recebestes uma circuncisão, não feita por mão humana, mas uma circuncisão que é de Cristo, pela qual renunciais ao corpo perecível. Com Cristo fostes sepultados no batismo (Cl 2,11-12). Ora, o batismo, por assim dizer, lava a alma das manchas contraídas por causa das tendências carnais, conforme está escrito: Lavai-me e mais branco do que a neve ficarei (Sl 50,9). Por isso, reconhecemos um só batismo de salvação, já que é uma só a morte que resgata o mundo e uma só a ressurreição dos mortos, das quais o batismo é figura.

abril 15, 2019

 
Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo Guelferbytanus 3:PLS 2,545-546)

 (Séc.V)

Gloriemo-nos também nós na Cruz do Senhor!

A Paixão de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é para nós penhor de glória e exemplo de paciência.

Haverá alguma coisa que não possam esperar da graça divina os corações dos fiéis, pelos quais o Filho unigênito de Deus, eterno como o Pai, não apenas quis nascer como homem entre os homens, mas quis também morrer pelas mãos dos homens que tinha criado?

Grandes coisas o Senhor nos promete no futuro! Mas o que ele já fez por nós e agora celebramos é ainda muito maior. Onde estávamos ou quem éramos, quando Cristo morreu por nós pecadores? Quem pode duvidar que ele dará a vida aos seus fiéis, quando já lhes deu até a sua morte? Por que a fraqueza humana ainda hesita em acreditar que um dia os homens viverão em Deus?

Muito mais incrível é o que já aconteceu: Deus morreu pelos homens.

Quem é Cristo senão aquele que no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus: e a Palavra era Deus? (Jo 1,1). Essa Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Se não tivesse tomado da nossa natureza a carne mortal, Cristo não teria possibilidade de morrer por nós. Mas deste modo o imortal pôde morrer e dar sua vida aos mortais. Fez-se participante de nossa morte para nos tornar participantes da sua vida. De fato, assim como os homens, pela sua natureza, não tinham possibilidade alguma de alcançar a vida, também ele, pela sua natureza, não tinha possibilidade alguma de sofrer a morte.

Por isso entrou, de modo admirável, em comunhão conosco: de nós assumiu a mortalidade, o que lhe possibilitou morrer; e dele recebemos a vida.

Portanto, de modo algum devemos envergonhar-nos da morte de nosso Deus e Senhor; pelo contrário, nela devemos confiar e gloriar-nos acima de tudo. Pois tomando sobre si a morte que em nós encontrou, garantiu com total fidelidade dar-nos a vida que não podíamos obter por nós mesmos.

Se ele tanto nos amou, a ponto de, sem pecado, sofrer por nós pecadores, como não dará o que merecemos por justiça, fruto da sua justificação? Como não dará a recompensa aos justos, ele que é fiel em suas promessas e, sem pecado, suportou o castigo dos pecadores?

Reconheçamos corajosamente, irmãos, e proclamemos bem alto que Cristo foi crucificado por amor de nós; digamos não com temor, mas com alegria, não com vergonha, mas com santo orgulho.

O apóstolo Paulo compreendeu bem esse mistério e o proclamou como um título de glória. Ele, que teria muitas coisas grandiosas e divinas para recordar a respeito de Cristo, não disse que se gloriava dessas grandezas admiráveis – por exemplo, que sendo Cristo Deus como o Pai, criou o mundo; e, sendo homem como nós, manifestou o seu domínio sobre o mundo – mas afirmou: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo (Gl 6,14).

março 06, 2019


Cerca de duas semanas atrás, nosso calendário da igreja marcou a festa de São Policarpo (69–155 dC), bispo de Esmirna e mártir (23 de fevereiro). Tal comemoração poderia ter incluído a leitura do relato de seu martírio ou de sua carta aos filipenses. O pastor idoso tem sido uma fonte de conforto e encorajamento para os cristãos desde os dias de seu ministério e sua morte por amor de nosso Senhor. Sua conexão com os apóstolos, sua devoção inabalável e sua ousada confissão fazem dele um santo digno de recordação e imitação. Mas como um pecador redimido, um homem que esteve em sua fraqueza nem sempre segura e firme, ele também precisou receber consolo e encorajamento de outros pastores e mestres. Isso pode soar familiar.

Por isso, recomendo-lhe a carta que Policarpo recebeu de Inácio de Antioquia (35–108 AD). Esta breve carta, escrita por um experiente soldado no ministério para um homem mais jovem, é cheia de exortação e encorajamento. Prosseguir a vida espiritual com devoção e oração. Lute corajosamente contra a heresia e seja diligente para ensinar os devidos deveres dos cristãos dentro de suas posições. Pelo menos cinco vezes, Inácio compara Policarpo a um atleta, encorajando-o para não desistir. Em resumo, Inácio diz a Policarpo que seja homem e trabalhe duro no serviço ao seu Senhor. Tal carta pode fortalecer os corações fracos e nos fortalecer para a luta, para que possamos também estar certos e firmes em nosso testemunho, seja em nossas palavras ou morte.

***

Inácio, também chamado Teóforo, a Policarpo, bispo da Igreja de Esmirna, ou melhor, que tem por bispo Deus Pai e o Senhor Jesus Cristo, as melhores saudações.

1. Acolhendo com alegria o teu conhecimento em Deus, alicerçado sobre rocha inabalável, louvo o Máximo (Senhor) por me haver julgado digno do teu rosto irrepreensível. Possa eu alegrar-me com ele em Deus. Eu te exorto, pela graça de que estás revestido, a apressares tua corrida, e exortares a todos, para que sejam salvos. Justifica tua dignidade episcopal com total solicitude física e espiritual. Preocupa-te com a unidade, acima da qual nada existe de melhor. Suporta a todos, assim como o Senhor te suporta. Suporta a todos no amor, como já o fazes. Cuida que as orações não cessem. Pede sabedoria maior do que essa que tens. Vigia com espírito vigilante. Fala a cada um em particular, conformando tua maneira à de Deus. Carrega as doenças de todos, como perfeito atleta. Onde o trabalho é maior, maior é o ganho.

2. Se amas os bons discípulos, não tens mérito; submete com mansidão os mais contaminados. Nem toda ferida se cura com o mesmo emplastro. Acalma as crises violentas com compressas úmidas. Em todas as coisas, sê prudente como serpente e sempre simples como pomba, pois és carnal e espiritual para tratar com afabilidade as coisas que aparecem diante de ti. Quanto às coisas invisíveis, pede que elas sejam manifestadas a ti, para que nada te falte e tenhas abundância em toda graça. O tempo presente exige que, para chegar a Deus, sejas como pilotos que invocam os ventos e como aqueles que esperam o porto ao serem surpreendidos pela tempestade. Sê sóbrio como atleta de Deus. O preço é a incorruptibilidade e a vida eterna, da qual também estás convencido. Em tudo sou um resgate para ti, eu e minhas cadeias, que amas1.

3. Aqueles que parecem dignos de fé, mas ensinam o erro, não te amedrontem. Permanece firme, como a bigorna sob os golpes do martelo. É próprio de grande atleta aparar os golpes e vencer. É por causa de Deus que devemos suportar tudo, a fim de que ele também nos suporte. Sê mais zeloso do que és; discerne os tempos. Espera aquele que está acima do tempo, atemporal, invisível, mas que se tornou visível para nós; aquele que é impalpável e impassível, mas que se tornou passível por nós, e por nós sofreu de todos os modos.

4. Não deixes de atender às viúvas; depois do Senhor, és tu que deves cuidar delas. Nada seja feito sem teu parecer, e não faças nada sem Deus, como de fato não o fazes. Sê firme. Que as reuniões sejam mais freqüentes; convida a todos nominalmente. Não desprezes os escravos e as escravas. Contudo, que eles não se inflem de orgulho, mas que sirvam com maior zelo para a glória de Deus, a fim de obterem de Deus liberdade maior. Que eles não procurem tornar-se livres às custas da comunidade, para não se tornarem escravos do desejo.

5. Foge das profissões desonestas. Além disso, faze homilia contra elas. Dize às minhas irmãs que amem o Senhor e se contentem com seus maridos física e espiritualmente. Recomenda também aos meus irmãos, em nome de Jesus Cristo, que amem suas esposas, como o Senhor ama a Igreja. Se alguém pode permanecer na castidade em honra da carne do Senhor, que permaneça na humildade. Se ele se gloria disso, está perdido, e considerando-se mais do que o bispo, está corrompido. Convém que os homens e as mulheres que se casam, contratem sua união com o parecer do bispo, a fim de que seu matrimônio seja feito segundo o Senhor e não segundo a concupiscência. Que tudo seja feito para a honra de Deus.

6. Atendei ao bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida para os que se submetem ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi, despertai, como administradores, assessores e servidores de Deus. Procurai agradar àquele sob cujas ordens militais e do qual recebeis vosso soldo. Não se encontre entre vós nenhum desertor. Que o vosso batismo seja como escudo, a fé como elmo, o amor como lança, a perseverança como armadura. Vossos depósitos sejam as vossas obras, para que possais retirar as somas a que tendes direito. Sede, portanto, pacientes na mansidão, uns com os outros, como Deus o é convosco. Possa eu sempre me alegrar convosco.

*** 

Nota

* Omitimos os últimos parágrafos da carta, pois eles estão focados em preocupações práticas e históricas de várias congregações e membros individuais. A carta inteira pode ser encontrada no site E-Cristianismo http://www.e-cristianismo.com.br/historia-do-cristianismo/pais-apostolicos/inacio-de-antioquia-carta-a-policarpo.html

janeiro 29, 2019


 
O velho Adão é uma pessoa muito "espiritual". E o maior de seus "dons espirituais" é auto-justificação. No entanto, esforçar-se para se justificar através de obras de genuína moralidade é bastante desgastante. É muito mais fácil, e muito mais auto-satisfatório, justificar e defender nossos vícios favoritos, racionalizando-os como virtudes. Gregório, o Grande, aponta isso em sua Regra Pastoral : “Frequentemente, os vícios assumem a aparência das virtudes. Por exemplo, a avareza se apresenta, com frequência, com o nome de parcimônia, enquanto a prodigalidade se esconde sob o falso nome de generosidade. A indulgência excessiva é considerada bondade e a ira desenfreada, vigor de zelo espiritual. Com frequência, considera-se a precipitação como prontidão a executar, e a lentidão no agir como prudência da sabedoria.” (p.59,60).

Esse perigo é real para todo cristão, em todas as etapas da vida. Mas Gregório está escrevendo para pastores, e ele faz um destaque especial para a ira se apresentando como zelo espiritual. Sua preocupação é que os pastores são tentados à ira excessiva e pessoal quando repreendem o pecado na vida de seu povo. Eis Gregório:

Em tudo isso é preciso saber que, se a alma do doutor se torna áspera ao corrigir, é muito difícil que não lhe escape alguma palavra que não deveria dizer. Acontece com frequência que, quando a culpa dos fiéis é corrigida com ímpeto exagerado, o mestre deslize em palavras desenfreadas. Quando o fogo da correção ultrapassa a medida, o coração dos pecadores se deprime no desespero. É, portanto, necessário que o pastor que tenha sido rude demais, tomando consciência de haver ferido o coração dos seus fiéis mais do que o devido, recorra sempre, dentro de si, ao arrependimento, a fim de que, por seus gemidos, obtenha o perdão na presença da Verdade, mesmo que a sua culpa provenha precisamente do seu excessivo zelo por ela. O Senhor o expressou com imagens, por meio de Moisés: Se um homem vai ao bosque com seu amigo para cortar lenha e, impelindo com força o machado para cortar a árvore, o ferro escapa do cabo, atinge o companheiro e o mata, tal pessoa poderá, então, refugiar-se numa das cidades acima mencionadas, ficando com a vida a salvo. Isso para que o vingador do sangue, enfurecido, não persiga o homicida, o alcance e o mate. Nós vamos ao bosque com um amigo cada vez que nos dispomos a examinar as faltas dos fiéis. Cortamos lenha simplesmente quando, com intenção de caridade, cortamos os vícios de quem faz o mal. Mas o machado escapa da nossa mão quando a correção se torna excessivamente rude. E o ferro salta do cabo quando, na correção, se deixam escapar palavras muito duras. E ele golpeia e mata o amigo porque a palavra de desprezo faz morrer nele o espírito de caridade. Sim, a alma de quem sofre a correção acaba caindo no ódio se a excessiva correção o condena mais de quanto seria justo. Mas aquele que golpeia imprudentemente a árvore e mata o seu próximo deve fugir para uma das três cidades, para viver bem protegido numa delas; pois, arrependendo-se, chorando lágrimas de penitência e buscando salvação na unidade do sacramento, através da esperança, da fé e da caridade, não é considerado réu de homicídio perpetrado. O parente próximo da pessoa morta, encontrando-o, não o fere a morte e, assim, quando vier o severo Juiz que a nós se uniu, compartilhando a nossa natureza, não o julgará réu de culpa, porque fé, esperança e caridade o colocam sob o abrigo do seu perdão. (p. 63,64)

Vamos nos empenhar pela verdadeira virtude e buscar o perdão no estrito Juiz que se uniu à nossa natureza.

***

Citações de Gregório Magno. Regra Pastoral, vol. 28. Paulus, SP.

outubro 25, 2018

No mundo, mas não do mundo


Das Homilias sobre os Evangelhos, de São GregórioMagno, Bispo
(Lib. 2, hom. 36, 11-13:PL76,1272-1274) (Séc.V)

Desejaria exortar-vos a deixar tudo, mas não me atrevo. Se não podeis deixar as coisas do mundo, fazei uso delas de tal modo que não vos prendam a ele, possuindo os bens terrenos sem deixar que vos possuam. Tudo o que possuís esteja sob o domínio do vosso espírito, para que não fiqueis presos pelo amor das coisas terenas, sendo por elas dominados.

Usemos as coisas temporais, mas desejemos as eternas. As coisas temporais sejam simples ajuda para a caminhada, mas as eternas, o termo do vosso peregrinar. Tudo o que se passa neste mundo seja considerado como acessório. Que o olhar do nosso espírito se volte para frente, fixando-nos firmemente nos bens futuros que esperamos alcançar.

Extirpemos radicalmente os vícios, não só das nossas ações mas também dos pensamentos. Que o prazer da carne, o ardor da cobiça e o fogo da ambição não nos afastem da Ceia do Senhor!

Até as coisas boas que realizamos no mundo, não nos apeguemos a elas, de modo que as coisas agradáveis sirvam ao nosso corpo sem prejudicar o nosso coração.

Por isso, irmãos, não ousamos dizer-vos que deixeis tudo. Entretanto, se o quiserdes, mesmo possuindo-as, deixareis todas as coisas se tiverdes o coração voltado para o alto. Pois quem põe a serviço da vida todas as coisas necessárias, sem ser por elas dominado, usa do mundo como se dele não usasse. Tais coisas estão ao seu serviço, mas sem perturbar o propósito de quem aspira às do alto. Os que assim procedem têm à sua disposição tudo o que é terreno, não como objeto de sua ambição, mas de sua utilidade. Por conseguinte, nada detenha o desejo do vosso espírito, nenhuma afeição vos prenda a este mundo.

Se amarmos o que é bom, deleite-se o nosso espírito com bens ainda melhores, isto é, os bens celestes. Se tememos o mal, ponhamos diante dos olhos os males eternos. Desse modo, contemplando na eternidade o que mais devemos amar e o que mais devemos temer, não nos deixaremos prender ao que existe na terra.

Para assim procedermos, contamos com o auxílio do Mediador entre Deus e os homens. Por meio dele logo obteremos tudo, se amarmos realmente aquele que, sendo Deus, vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

outubro 23, 2018

A oração do Senhor, por Santo Agostinho


Da Carta a Proba, de Santo Agostinho, bispo
(Ep.130,11,21-12,22:CSEL44,63-64) (Séc.V)


Temos necessidade de palavras para incitar-nos e ponderarmos o que pediremos, e não com a intenção de dá-lo a saber ao Senhor ou a comovê-lo. 

Quando, pois, dizemos: Santificado seja o teu nome, exortamo-nos a desejar que seu nome, imutavelmente santo, seja também considerado santo pelos homens, isto é, não desprezado. O que é de proveito para os homens, não para Deus. 

E ao dizermos: Venha teu reino que, queiramos ou não, virá sem falta, acendemos o desejo deste reino; que venha para nós e nele mereçamos reinar. 

Ao dizermos: Faça-se a tua vontade assim na terra como no céu, pedimos-lhe conceder-nos esta obediência de sorte que se faça em nós sua vontade do mesmo modo como é feita no céu por seus anjos. 

Dizemos: O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Pela palavra hoje se entende este nosso tempo. Ou, com a menção da parte principal,indicando o todo pela palavra pão, pedimos aquilo que nos basta. O sacramento dos fiéis, necessário agora, não, porém, para a felicidade deste tempo, mas para alcançarmos a felicidade eterna. 

Dizendo: Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos a nossos devedores, tomamos consciência do que pedimos e do que temos de fazer para merecer obtê-lo. Ao dizer: Não nos leves à tentação, advertimo-nos a pedir que não aconteça que, privados de seu auxílio em alguma tentação, iludidos, consintamos nela, ou cedamos perturbados. 

Dizer: Livra-nos do mal nos leva a pensar que ainda não estamos naquele Bem em que não padeceremos de mal algum. E este último pedido da oração dominical é tão amplo, que o cristão em qualquer tribulação em que se veja, por ele pode gemer, nele derramar lágrimas, daí começar, nele demorar-se, nele terminar a oração. É preciso guardar em nossa memória, por meio destas palavras, as realidades mesmas. 

Pois quaisquer outras palavras que dissermos – tanto as formadas pelo afeto que as precede e esclarece, quanto as que o seguem e crescem pela atenção dele – não dirão nada que não se encontre nesta oração dominical, se orarmos como convém. Quem disser algo que não possa ser contido nesta prece evangélica, sua oração, embora não ilícita, é carnal; contudo não sei como não ser ilícita, uma vez que somente de modo espiritual devem orar os renascidos do Espírito.

setembro 18, 2018

Luteranos e os Padres da Igreja


Por Rev. Anthony Dodgers¹

Um equívoco comum é a ideia de que a Igreja Luterana não existia até o ano de 1500. Um historiador pode ver dessa maneira, pelo menos de uma perspectiva estritamente cronológica. Mas não é assim que os reformadores luteranos viam. A Reforma Luterana não varreu seus predecessores para a lata de lixo da história. Eles retornaram à doutrina pura que a Igreja ensinou desde o tempo de Cristo até o seu tempo. Primeiro, foram às próprias Escrituras, extraindo seus ensinamentos de Jesus Cristo e seus apóstolos. Segundo, os luteranos também encontraram essa doutrina verdadeira e salvadora nos escritos dos pais da Igreja Primitiva, aqueles homens que tinham estudado as Escrituras e transmitido a fé nas formulações clássicas da teologia cristã. A Igreja Luterana não começou no ano de 1500.

No Livro de Concórdia, os pais da Igreja Primitiva são referenciados e citados em cada documento confessional (exceto o Catecismo Menor). Aqui estão todos os mencionados:

Segundo século: Justino Mártir, Irineu e Tertuliano

Terceiro, Quarto e Quinto séculos: Orígenes, Cipriano, Antônio do Egito, Atanásio, Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Hilário de Poitiers, Jerônimo, Ambrósio, Agostinho e Leão.

Sexto, Sétimo e Oitavo: Gregório I, Beda e João de Damasco.

Estes homens ensinaram e escreveram em todo o Império Romano: da Judeia à Inglaterra; do norte da África para a Itália e Ásia Menor. Eles são os principais mestres de toda Igreja ao longo dos oito primeiros séculos da história cristã, e os luteranos afirmam que eles são seus pais na fé.

Uma das principais razões pelas quais uma criança se volta para o pai é encontrar ajuda e orientação. Quando os luteranos citaram um pai da igreja, eles não estavam meramente conectados com o passado. Eles estavam em uma luta sobre a doutrina pura. Então, quando extraíram seus ensinamentos das Escrituras, eles também se voltaram para seus pais em busca de ajuda nos argumentos com a Igreja Romana e protestantes radicais.

Os luteranos citaram os pais da Igreja primitiva contra os novos (falsos) mestres da Igreja Romana, visando mostrar que os luteranos estão alinhados com os credos e mestres históricos. Eles não estão mudando nada, mas expurgando as falsas ideias que se infiltraram na Igreja. Por exemplo, no artigo principal da justificação, Ambrósio diz: 

"Ninguém se glorie de obras, já que ninguém é justificado pelo que faz. Porém, aquele que é justo, o é por dádiva, visto haver sido justificado desde o lavacro. É, pois, a fé que liberta pelo sangue de Cristo." (Apologia IV, 103)

Também aprovam o dito de Agostinho:

"Cumprem-se todos os mandamentos de Deus quando é perdoado tudo o que não se faz." (Apologia IV, 172)

Os luteranos também abordaram o abuso de negar o sangue de Cristo aos leigos na Ceia do Senhor. Além da instituição de Cristo, eles também encontraram o apoio de Justino Mártir, Cipriano e Jerônimo. Outro argumento importante dizia respeito à autoridade do Papa e do Ofício do Ministério. Ao contrário das pretensões papais de superioridade, muitos dos antigos pais se posicionaram do lado dos luteranos, incluindo Jerônimo, que afirmou que os bispos são iguais no ofício. (Artigos de Esmalcalde, Parte II, IV, 9). João Crisóstomo, ao comentar sobre Mateus 16, disse: 

"'Sobre esta pedra', diz ele, e 'não sobre Pedro'. Pois edificou sua igreja não sobre o homem, mas sobre a fé de Pedro. Mas qual foi a fé? 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'" (Tratado 28)

Além disso:

"A maioria dos santos Pais, como Orígenes, Ambrósio, Cipriano, Hilário, Beda, interpretaram a sentença 'sobre esta pedra' desse modo, não como referência à pessoa ou à superioridade de Pedro." (Tratado 26-27)

Por outro lado, os luteranos também citaram os antigos pais contra a ala mais radical da Reforma Protestante (anabatistas, zwinglianos, calvinistas, etc.). Eles estavam preocupados em mostrar que esses reformadores radicais foram longe demais ao rejeitar o que os precederam, inclusive se afastando da única fé católica verdadeira. Isso foi especialmente certo com relação à Ceia do Senhor e à Pessoa de Cristo. Enquanto muitos dos reformadores radicais reduziram a Ceia do Senhor a uma refeição memorável, os luteranos chegaram a um acordo com mestes como João Crisóstomo:

"'O próprio Cristo prepara e abençoa esta mesa. Pois homem nenhum faz do pão e do vinho postos diante de nós corpo e sangue de Cristo, senão o mesmo Cristo que foi crucificado para nós. As palavras são proferidas pela boca do sacerdote, mas os elementos postos diante de nós na ceia são consagrados pelo poder e pela graça de Deus, pela palavra que ele diz: Isto é o meu corpo." (Fórmula de Concórdia, Declaração Sólida, VII, 76)

Tanto na Apologia como na Fórmula de Concórdia "reproduz o testemunho de Cirilo [de Alexandria] de que Cristo também habita em nós corporalmente na Santa Ceia pela comunicação de Sua carne." (Fórmula de Concórdia, Declaração Sólida VII: 11, cf. Apologia X. 56)

É claro que os pais da Igreja primitiva não foram infalíveis. Os luteranos não os citam como autoridades finais, nem subscrevem cada escritura produzida por estes antigos mestres. Eles não tinham medo de apontar onde os pais estavam errados. Por exemplo, as declarações sobre o livre-arbítrio de Crisóstomo e Basílio foram rejeitadas porque "elas não estão em harmonia com a forma da sã doutrina." (Fórmula de Concórdia, Declaração Sólida II. 86) No Catecismo Maior, Lutero repreendeu a ideia de Jerônimo de que o arrependimento é a tabua que você usa para nadar quando o barco do seu Batismo é destruído pelo pecado. "A barca do Batismo não se rompe", diz Lutero, "visto ser ordenação de Deus, não coisa nossa." (Catecismo Maior, Parte 4, 81-82). Às vezes os pais precisam ser corrigidos. Ainda assim, os luteranos sempre os abordaram como pais respeitados e tentam colocar a melhor construção em suas palavras e ações. Um bom exemplo é como eles defendem Antonio e os primeiros líderes monásticos (Apologia IV, 211). Eles tentaram defender as boas intenções dos pais e não permitiram que erros fossem usados como argumentos para a falsa doutrina.

Citando os Padres da Igreja primitiva não implica que o ensino cristão é baseado na autoridade dos homens (Catálogo de Testemunhos, Conclusão). Os luteranos afirmam que as Escrituras são "a única norma verídica, de acordo com a qual devem ser julgados todos os mestres e doutrinas" (Fórmula de Concórdia, Da Suma, 3)

Mas aqueles professores e doutrinas que são julgados verdadeiros também devem ser apreciados e usados. A fé cristã não se originou conosco. A fé cristã é transmitida de uma geração de santos para a próxima, uma vez que cada geração adere às Escrituras. Há tanta coisa que podemos aprender com os fiéis mestres da antiga Igreja, já que somos parte da mesma Igreja Católica. Eles não devem ser estranhos para nós. Se somos verdadeiramente luteranos, então eles são verdadeiramente nossos pais.

Nota:

[1] O Rev. Anthony Dodgers é pastor da Immanuel Lutheran Churchl, Charlotte, Iowa.

***

  • Fonte: https://lutheranreformation.org
  • Tradução: Denício Márcio Godoy

agosto 24, 2018


Das Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios, de São João Crisóstomo, bispo

(Hom. 4,3.4:PG61,34-36) (Séc.IV)


Por meio de homens ignorantes a cruz persuadiu, e mais, persuadiu a terra inteira. Não falava de coisas sem importância, mas de Deus, da verdadeira religião, do modo de viver o Evangelho e do futuro juízo. De incultos e ignorantes fez amigos da sabedoria. Vê como a loucura de Deus é mais sábia que os homens e a fraqueza, mais forte. 

De que modo mais forte? Cobriu toda a terra, cativou a todos por seu poder. Sucedeu exatamente o contrário do que pretendiam aqueles que tentavam apagar o nome do Crucificado. Este nome floresceu e cresceu enormemente. Mas seus inimigos pereceram em ruína total. Sendo vivos, lutando contra o morto, nada conseguiram. Por isso, quando o grego me chama de morto, mostra-se totalmente insensato, pois eu, que a seus olhos passo por ignorante, me revelo mais sábio que os sábios. Ele, tratando-me de fraco, dá provas de ser o mais fraco. Tudo o que, pela graça de Deus, souberam realizar aqueles publicanos e pescadores, os filósofos, os reis, numa palavra, todo o mundo perscrutando inúmeras coisas, nem mesmo puderam imaginar. 

Pensando nisto, Paulo dizia: O que é fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens (1Cor 1,25). Com isso se prova a pregação divina. Quando é que se pensou: doze homens, sem instrução, morando em lagos, rios e desertos, que se lançam a tão grande empresa? Quando se pensou que pessoas que talvez nunca houvessem pisado em uma cidade e, em sua praça pública, atacassem o mundo inteiro? Quem sobre eles escreveu, mostrou claramente que eles eram medrosos e pusilânimes, sem querer negar ou esconder os defeitos deles. Ora, este é o maior argumento em favor de sua veracidade. Que diz então a respeito deles? Que, preso o Cristo depois de tantos milagres feitos, uns fugiram, o principal deles o negou. 

Donde lhes veio que, durante a vida de Cristo, não resistiram à fúria dos judeus, mas, uma vez ele morto e sepultado – visto que, como dizeis, Cristo não ressuscitou, nem lhes falou, nem os encorajou – entraram em luta contra o mundo inteiro? Não teriam dito, ao contrário: “Que é isto? não pôde salvar-se,vai proteger-nos agora? Ainda vivo, não socorreu a si mesmo, e morto, nos estenderá a mão? Vivo, não sujeitou povo algum, e nós iremos convencer o mundo inteiro, só com dizer seu nome? Como não será insensato não só fazer, mas até pensar tal coisa?” 

Por este motivo é evidente que, se não o tivessem visto ressuscitado e recebido assim a grande prova de seu poder, jamais se teriam lançado em tamanha aventura.

agosto 13, 2018

Do Tratado sobre a Encarnação do Senhor, de Teodoreto de Ciro, bispo

(Nn. 26-27: PG 75, 1466-1467) (Séc.V)

Curarei os seus tormentos

Com liberdade, vai Jesus ao encontro dos sofrimentos preditos a seu respeito. Por várias vezes os prenunciou aos discípulos, tendo mesmo repreendido a Pedro que repelia o anúncio da paixão, e declarou que por eles se daria a salvação do mundo. Por isso apresentou-se aos que vinham buscá-lo, dizendo: Sou eu a quem procurais (cf. Jo 18,5). Acusado, não respondeu. Podendo esconder-se, não o quis, embora por mais de uma vez se tenha furtado às ciladas dos perseguidores. Chora sobre Jerusalém que pela incredulidade atraía para si a ruína e prediz a suprema destruição do templo outrora famoso. Com toda a paciência suporta ser batido na cabeça por homem duplamente escravo. Esbofeteado, cuspido, injuriado, atormentado, flagelado e por fim crucificado e dado por companheiro de suplícios a dois ladrões, contado entre os homicidas e celerados. Bebe o vinagre e o fel produzidos pela má videira, coroado de espinhos em lugar de louros e cachos de uva. Escarnecido com a púrpura, batido com a cana, ferido o lado pela lança e enfim levado ao sepulcro. 

Tudo isto sofreu enquanto operava nossa salvação. Pois àqueles que se haviam escravizado ao pecado eram devidos os castigos do pecado. Ele, isento de todo pecado, tendo cumprido toda a justiça, suportou a pena dos pecadores, destruindo por sua cruz o antigo decreto de maldição. Cristo, assim diz Paulo, nos remiu da maldição da lei, feito maldição por nós; por que está escrito: Maldito todo aquele que pende do lenho (Gl 3,13; cf. Dt 21,23). Com a coroa de espinhos põe fim ao castigo de Adão. Pois, após o pecado, este ouvira: Maldita a terra em teus trabalhos; germinarão para ti espinhos e abrolhos (cf. Gn 3,17-18). 

Com o fel bebeu a amargura e a dor da vida humana passível e mortal. Pelo vinagre assumiu em si a mudança do ser humano para o pior e concedeu a volta ao melhor. A púrpura significava o reino; a cana, o frágil poder do diabo. A bofetada publicava nossa liberdade, tolerando as injúrias, flagelos e chagas a nós devidas. 

O lado aberto, à semelhança de Adão, deixa sair não a mulher que, por seu erro, gerou a morte, mas a fonte de vida que com dupla torrente vivifica o mundo. Uma, no batistério, nos renova e cobre com a veste imortal; outra, à mesa divina, alimenta os renascidos como leite aos pequeninos.

julho 09, 2018


Sobre a encarnação do Verbo, 8-9 (SC 190)

«Jesus entrou, tomou a menina pela mão e ela levantou-se».

O Verbo, a Palavra de Deus incorpórea, incorruptível e imaterial, veio habitar no meio de nós, ainda que antes não tivesse estado ausente. Com efeito, não deixara parte alguma da criação privada da sua presença, pois Ele estava em todas as coisas e em toda a parte, Ele que mora junto do Pai. Mas tornou-Se presente humilhando-Se por causa do seu amor por nós, e a nós Se manifestou [...]. Teve piedade da nossa espécie, teve compaixão da nossa fragilidade, condescendeu para com a nossa perecível condição. Não aceitou que a morte nos dominasse; não quis ver perecer o que tinha iniciado, nem que se malograsse a obra de seu Pai ao criar o homem. Tomou portanto um corpo, e um corpo que não era diferente do nosso. Porque Ele não queria somente habitar um corpo nem somente manifestar-Se. Se tivesse apenas querido manifestar-Se, poderia ter realizado essa teofania com outro e maior poder. Mas não: foi de facto um corpo igual ao nosso que Ele tomou [...].

O Verbo tomou um corpo capaz de morrer para que esse corpo, ao participar do Verbo que está acima de tudo [...], se tornasse imperecível pelo poder do Verbo que nele existe, e para libertar da degradação definitiva todos os homens, pela graça da ressurreição. O Verbo ofereceu pois à morte o corpo que tinha tomado, como sacrifício e vítima isenta de toda a mácula; e logo aniquilou a morte, dela libertando todos os homens seus semelhantes, pela oferenda desse corpo que se lhes assemelha.

O Verbo de Deus, a todos superior, que ofereceu o seu próprio templo, o seu corpo, em expiação de todos, pagou a nossa dívida com a sua morte, cumprindo a justiça de seu Pai. Unido a todos os homens por um corpo semelhante, o Filho incorruptível de Deus a todos reveste de incorruptibilidade, com a promessa da ressurreição. A própria corrupção, implicada na morte, já não tem poder algum sobre os homens, por causa do Verbo que entre eles habita num único e mesmo corpo.

junho 09, 2018


Comentário do dia por São Justino, filósofo, mártir 
Tratado sobre a ressurreição, 2.4.7-9 

«Creio na ressurreição da carne»

Aqueles que estão enganados dizem que não há ressurreição da carne, que é impossível que esta, após ter sido destruída e reduzida a pó, reencontre a sua integridade. Segundo eles, a salvação da carne não seria apenas impossível, mas nociva; pois acusam a carne, denunciam os seus defeitos, tornam-na responsável pelo pecado, e afirmam que, se ela ressuscitar, também os seus defeitos ressuscitarão [...]. Aliás, o Salvador declarou «Quando ressuscitarem de entre os mortos não se casarão, mas serão como anjos nos céus». Ora os anjos, dizem eles, não têm carne, não comem nem se unem. Portanto, não haverá ressurreição da carne. [...] 

Como são cegos os olhos do intelecto! Porque não viram na terra os cegos verem e os coxos caminharem (Mt 11,5) graças à palavra do Salvador [...], para nos fazer crer que, na ressurreição, a carne ressuscitará completa. Se nesta terra Ele curou as enfermidades da carne e devolveu ao corpo a sua integridade, quanto mais o fará no momento da ressurreição, para que a carne ressuscite sem defeito, integralmente [...]. Parece-me que essas pessoas ignoram a ação divina no seu conjunto, tanto na origem da criação como no fabrico do homem; e ignoram a razão por que foram feitas as coisas terrenas. 

O Verbo disse: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gn 1,26). [...] É evidente que o homem, moldado à imagem de Deus, era de carne. Que absurdo é considerar desprezível e sem mérito a carne moldada por Deus segundo a sua imagem! É também evidente que a carne é preciosa aos olhos de Deus porque é obra sua. E, porque nela se encontra o princípio do seu projeto para o resto da criação, é o que há de mais precioso aos olhos do Criador.

abril 09, 2018


Das Cartas de São Leão Magno
(Epist. 28, ad Flavianum, 4: PL 54,763-767) (Séc.V)

A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza, pela força, a mortalidade, pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.

Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Sedutor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.

Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha do seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.

Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido;existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.

Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.

Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.

A natureza divina resplandece nos milagres, a humana, sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.

É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.14).

abril 06, 2018

A unção do Espírito Santo


Das Catequeses de Jerusalém
(Cat. 21, Mystagogica 3,1-3; PG 33,1087-1091) (Séc. IV)

Batizados em Cristo e revestidos de Cristo, vós vos tomastes semelhantes ao Filho de Deus. Com efeito, Deus que nos predestinou para a adoção de filhos tornou-nos semelhantes ao corpo glorioso de Cristo. Feitos, portanto, participantes do corpo de Cristo, com toda razão sois chamados "cristãos", isto é, ungidos; pois foi de vós que Deus disse: Não toqueis nos meus ungidos (Sl 104,15).

Tomastes-vos "cristãos" no momento em que recebestes o selo do Espírito Santo; e tudo isto foi realizado sobre vós em imagem, uma vez que sois imagem de Cristo. Na verdade, quando ele foi batizado no rio Jordão e saiu das águas, nas quais deixara a fragrância de sua divindade, realizou-se então a descida do Espírito Santo em pessoa, repousando sobre ele como o igual sobre o igual.

O mesmo aconteceu convosco: depois que subistes da fonte sagrada, o óleo do crisma vos foi administrado, imagem real daquele com o qual Cristo foi ungido, e que é, sem dúvida, o Espírito Santo. Isaías, contemplando profeticamente este Espírito, disse em nome do Senhor: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes (Is 61,1).

Cristo jamais foi ungido por homem, seja com óleo ou com outro unguento material. Mas o Pai, ao predestiná-lo como Salvador do mundo inteiro, o ungiu com o Espírito Santo. É o que nos diz Pedro: Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo (At 10,38). E o profeta Davi cantava: Vosso trono, ó Deus, é eterno, sem fim; vosso cetro real é sinal de justiça: vós amais a justiça e odiais a maldade. É por isso que Deus vos ungiu com seu óleo, deu-vos mais alegria que aos vossos amigos (Sl 44,7-8).

Cristo foi ungido com o óleo espiritual da alegria, isto é, com o Espírito Santo, chamado óleo de alegria, precisamente por ser o autor da alegria espiritual. Vós, porém, fostes ungidos com o óleo do crisma, tornando-vos participantes da natureza de Cristo e chamados a conviver com ele.

Quanto ao mais, não julgueis que este crisma é um óleo simples e comum. Depois da invocação já não é um óleo simples e comum, mas um dom de Cristo e do Espírito Santo, tornando-se eficaz pela presença da divindade. Simbolicamente unge-se com ele a fronte e os outros membros. E enquanto o corpo é ungido com óleo visível, o homem é santificado pelo espírito que dá a vida.
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Obs: Na Igreja Antiga, a confirmação foi parte do rito do Batismo. Depois que os candidatos recebiam o batismo nas vésperas da Páscoa, eram também "confirmados" com crisma, orações, o sinal da santa cruz e a imposição de mãos. Na manhã de Páscoa era permitido fazer sua primeira comunhão. Um remanescente desta prática sobrevive em nossa liturgia. Se encontra na atual oração pós-batismal onde se implora que Deus fortaleça, isto é, confirme a criança batizada "com Sua graça para a vida eterna".