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agosto 29, 2019


Esta pergunta expõe a diferença existente dentro de igrejas cristãs a respeito daquilo que conhecemos como "meios da graça". O que são "meios da graça"? São aqueles meios escolhidos e utilizados por Deus para vir ao nosso encontro com sua graça salvadora, ou seja, trazendo-nos perdão, vida e salvação. São a Palavra, o Batismo e o Sacramento do Altar. 

Algumas igrejas evangélicas, no entanto, não consideram o batismo e o sacramento do altar como meios da graça, mas sim, como mandamentos que precisamos cumprir. Temos, então, uma notável diferença: meios da graça são obra de Deus; Deus age pela Palavra unida à água no batismo e ao pão e o vinho no sacramento do altar. Mandamentos, todavia, são obra humana. Quem vê o batismo como mandamento e, por isso, como obra humana, acha impossível que uma criança possa conhecer a Jesus, aceitá-lo e se arrepender dos seus pecados. Cremos, ensinamos e confessamos, porém, que a ação de Deus não está limitada pela idade de alguém. Por isso, mesmo que uma criança ainda não possa confessar sua fé em Jesus, ela já pode crer, pois a fé é obra de Deus e não depende de ação ou participação humana. Se dissermos que isso é impossível, estaremos, sem dúvida, limitando a ação do poder de Deus.

abril 05, 2018


Das Catequeses de Jerusalém
(Cat. 20, Mystagogica 2, 4-6: PG 33,1079-1082) (Séc.IV)

Fostes conduzidos à santa fonte do divino Batismo, como Cristo, descido da cruz, foi colocado diante do sepulcro. 

A cada um de vós foi perguntado se acreditava no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Vós professastes a fé da salvação e fostes por três vezes mergulhados na água e por três vezes dela saístes; deste modo, significastes, em imagem e símbolo, os três dias da sepultura de Cristo. 

Assim como nosso Senhor passou três dias e três noites no seio da terra, também vós, na primeira emersão, imitastes o primeiro dia em que Cristo esteve debaixo da terra; e na imersão, a primeira noite. De fato, como aquele que vive nas trevas não enxerga nada, pelo contrário, aquele que anda de dia está envolvido em plena luz. Assim também vós, na imersão, como que mergulhados na noite, nada vistes; mas na emersão, fostes como que restituídos ao dia. Num mesmo instante, morrestes e nascestes, e aquela água de salvação tornou-se para vós, ao mesmo tempo, sepulcro e mãe. 

Apesar de situar-se em outro contexto, a vós se aplica perfeitamente o que disse Salomão: Há um tempo para nascer e um tempo para morrer (Ecl 3,2). Convosco sucedeu o contrário: houve um tempo para morrer e um tempo para nascer. Num mesmo instante realizaram-se ambas as coisas e, com a vossa morte, coincidiu o vosso nascimento. 

Ó fato novo e inaudito! Na realidade, não morremos nem fomos sepultados nem crucificados nem ainda ressuscitamos. No entanto, a imitação desses atos foi expressa através de uma imagem e daí brotou realmente a nossa salvação. 

Cristo foi verdadeiramente crucificado, verdadeiramente sepultado e ressuscitou verdadeiramente. Tudo isto foi para nós um dom da graça, a fim de que, participando da sua paixão através do mistério sacramental, obtenhamos na realidade a salvação. 

Ó maravilha de amor pelos homens! Em seus pés e mãos inocentes, Cristo recebeu os cravos e suportou a dor; e eu, sem dor nem esforço, mas apenas pela comunhão em suas dores, recebo gratuitamente a salvação. 

Ninguém, portanto, julgue que o batismo consista apenas na remissão dos pecados e na graça da adoção filial. Assim era o batismo de João que concedia tão-somente o perdão dos pecados. Pelo contrário, sabemos perfeitamente que o nosso batismo não só apaga os pecados e confere o dom do Espírito Santo, mas é também o exemplar e a expressão dos sofrimentos de Cristo. É por isso mesmo que Paulo exclama: Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele (Rm 6,3-4).

dezembro 23, 2017


Batismo e Santa Ceia, sacramentos instituídos por Cristo, nos foram dados para fundamento da fé ao lado do Evangelho. A mesma graça e perdão oferecidos e transmitidos pela Palavra de Deus, também se nos oferecem e transmitem por eles. (At 2.38): "Arrependam-se e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados". (Mt 26.28; Lc 22.19ss): "Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados." Nesse gracioso oferecimento de perdão, selado por Cristo nos sacramentos, firma-se a fé cristã, do mesmo modo e num mesmo grau como ocorre no oferecimento de perdão de nosso Senhor na Palavra. Por essa razão é que as doutrinas do Santo Batismo e da Santa Comunhão são fundamentais; são o fundamento da fé cristã. 

Não obstante, pode uma pessoa ignorar essas doutrinas, ou mesmo errar com respeito a elas e, contudo, salvar-se contando que se prenda à promessa de perdão oferecida no Evangelho. A razão disso é manifesta. O inteiro perdão que Cristo para os pecadores por sua morte na cruz, é oferecido e transmitido ao crente no Evangelho. Se ele confia na promessa do Evangelho, pela fé está na posse de todos os merecimentos de Cristo, juntamente com a vida espiritual e a salvação eterna. Isso não quer dizer que a promessa sacramental seja supérflua. A Igreja Cristã jamais poderá prescindir dos sacramentos, visto que transmitem as bênçãos espirituais do Salvador de modo particularmente íntimo e confortante.  Os sacramentos são a Palavra Visível (Verbum Visibile) e a aplicação individual da graça divina (aplicatio individualis). Todavia, o crente que confia na promessa divina de perdão oferecida no evangelho a todos os seres humanos, já está na posse da salvação. Os sacramentos nada de novo oferecem; apenas selam e confirmam a mesma graça e absolvição que o Evangelho anuncia, dá e confere. Nesse sentido os sacramentos não são absolutamente necessários. 

Por essa razão chamamos as doutrinas do Santo Batismo e da Santa Comunhão doutrinas fundamentais secundárias. Não devemos repudiar essa distinção, porque nos indica a linha divisória entre cristãos e não-cristãos. Dessa maneira, os filhos de Deus nas igrejas reformadas erram quanto à essência e finalidade dos sacramentos. Devemos considerar esse erro tão perigoso quanto pernicioso. Ainda assim, confiam na graça que lhes é oferecida no Evangelho. Enquanto fizerem assim, não lhes podemos negar a fé salvadora.  Em outras palavras, ainda devemos considerá-los cristãos, se bem que cristãos fracos e em erro, e que põem em perigo seu estado de graça pela não-aceitação da Palavra total de Cristo. O que se acabou de dizer dos filhos de Deus nas igrejas reformadas, cabe também aos crentes em outras denominações religiosas e na Igreja Católica Romana.  Enquanto o crente confia na graça de Cristo oferecida na Palavra, como fez o ladrão na cruz, ele está salvo, mesmo que nunca haja auferido as bênçãos dos sacramentos. Hollaz está perfeitamente com a razão, quando diz acerca dos artigos fundamentais secundários em si: 

A simples falta de conhecimento deles (dos sacramentos) não impede a salvação, mas a sua obstinada negação e hostilização subverte o fundamento da fé. (Doctr. Theol., p.98ss)

Nas suas observações sobre doutrinas fundamentais secundárias, Hollaz chama a nossa atenção para uma verdade importantíssima. Jamais se deve abusar da distinção entre doutrinas fundamentais primárias e secundárias com o objetivo de tolerar doutrina errônea. A obstinada negação e hostilização pública das doutrinas fundamentais secundárias - o mesmo acontece com respeito a todas as doutrinas das Sagradas Escrituras - acabam necessariamente por subverter  o fundamento da fé, por implicarem resistência oferecida ao Espírito Santo. Urge que se faça lembrar isso continuamente a todos os que persistem nesse erro, ainda que não lhes possamos negar o estado de graça.

[...] Ao mesmo tempo em que admitimos uma "feliz inconsequência", devemos lembrar que existe uma "infeliz consequência", mediante a qual os teólogos, que ofendem num ponto são induzidos a desviar-se em muitos pontos e, até mesmo, em todos. Em outras palavras, a proclamação de um erro conduz à publicação de outros e, no final, à negação de toda a verdade escriturística.

Dessa consequência fatal advinda de negar-se a Palavra de Deus e condescender no erro, Lutero adverte seriamente todos os teólogos cristãos, quando escreve:

Não deves dizer: Proponho-me errar como cristão. O errar de cristão ocorre somente por ignorância. (S. L. XIX, 1132)

Lutero admite a existência de semelhante anomalia: "o errar de cristão". Isso quer dizer que mesmo o verdadeiro cristão erra de quando em quando em consequência de fraqueza ou ignorância.  Esse "errar de cristão", entretanto, transforma-se em "errar de não-cristão" tão logo a pessoa consinta no erro deliberada e conscientemente. Tal "errar de não-cristão" subverterá necessariamente o fundamento da fé e porá em perigo a salvação.

Que o teólogo cristão esteja, portanto, de sobreaviso. O indiferentismo para com as doutrinas da Escritura Sagrada e o unionismo espiritual dele decorrentes são diametralmente opostos à Palavra de Deus, que declara: "Evite a pessoa que provoca divisões, depois de admoestá-la uma ou duas vezes, pois você sabe que tal pessoa está pervertida, vive pecando e por si mesma está condenada." (Tt 3.10,11) A Bíblia nunca justifica o ensino do erro, mas o condena sempre e com a maior veemência como escândalo.

Fonte:

Adaptado da 4° edição da Dogmática Cristã, de John Theodore Mueller, publicada pelas Editoras Concórdia e ULBRA.

maio 12, 2017


Os luteranos creem, confessam e ensinam a doutrina bíblica do Sola Gratia, ou seja, uma pessoa é salva somente pela graça de Deus através da fé em Jesus Cristo.

A Bíblia nos diz que essa fé "vem pelo ouvir" (Romanos 10:17). O próprio Jesus ordena o Batismo e nos diz que o Batismo é água compreendida na Palavra de Deus (Mt 28: 19-20).

Santo Agostinho afirma: 

Accedit verbum ad elementum et fit sacramentum.

Devido a isso, acreditamos que o batismo é um dos milagrosos meios de graça (outro é a Palavra de Deus em sua forma escrita ou proclamada), através do qual Deus cria e /ou fortalece o dom da fé no coração de uma pessoa (cf. Atos 2: 38, Atos 22:16, 1 Pedro 3:21, Gálatas 3: 26-27, Rm 6: 1-4, Col. 2: 11-12, 1 Coríntios 12.13).

Termos que a Bíblia usa para falar sobre o início da fé incluem "conversão" e "regeneração". Embora não pretendamos compreender plenamente como isso acontece, cremos que quando um bebê é batizado, Deus cria fé no coração dessa criança.

Acreditamos nisso porque a Bíblia diz que os bebês podem crer (Mt 18: 6) e que o novo nascimento (regeneração) acontece no Batismo (João 3: 5-7). A fé da criança ainda não pode ser verbalmente expressa ou articulada pela criança, mas é real e presente mesmo assim (ver, por exemplo, Atos 2: 38-39, Lucas 1:15, 2 Tim. 3:15).

Baptismus est sacramentum regenerationis per aquam in verbo.

Isto, porém, não signfica que o batismo manterá uma pessoa salva ex opere operato. A fé da criança, como a fé dos adultos, também precisa ser alimentada e nutrida pela Palavra de Deus (Mt 28: 18-20), ou ela morrerá.

Os luteranos não creem que somente os batizados quando crianças recebam fé. A fé também pode ser criada no coração de uma pessoa pelo poder do Espírito Santo trabalhando através da Palavra de Deus (escrita ou proclamada).

O batismo logo deve seguir a conversão (Atos 8:37) com o propósito de confirmar e fortalecer a fé de acordo com o mandamento e a promessa de Deus. Os luteranos batizam pessoas de todas as idades desde a infância até a idade adulta.

O Luteranismo Confessional, apesar das muitas mentiras que são espalhadas por ai, não crê que o Batismo seja ABSOLUTAMENTE necessário para a salvação. Todos os crentes verdadeiros na era do Antigo Testamento foram salvos sem o batismo. Marcos 16:16 implica que não é a ausência do Batismo que condena uma pessoa, mas a ausência de fé, e há claramente outras maneiras de chegar à fé pelo poder do Espírito Santo (ler ou ouvir a Palavra de Deus).

Ainda assim, não devemos nos atrever a desprezar ou negligencias o batismo, uma vez que é explicitamente ordenado por Deus e tem Suas preciosas promessas ligadas a ele. Não é um mero "ritual" ou "símbolo", mas um poderoso meio de graça pelo qual Deus concede a fé e o perdão dos pecados.

junho 04, 2016

Você foi crucificado com Cristo?


Que coisa estranha, até bizarra, isso de Deus inspirar o apóstolo Paulo a dizer: "Estou crucificado com Cristo" (GI 2.19). Por quê? O registro que a Bíblia faz da crucificação menciona apenas outros dois [homens] que foram crucificados com Jesus: Um de cada lado, e Jesus no meio (Jo 19.18). Paulo não estava lá, nem perto desse evento histórico.

Então, como é que ele pode dizer: "Estou crucificado com Cristo?

Deus explica como ele liga o apóstolo Paulo e você à crucificação de Jesus Deus explica como usa o milagre do Batismo para "unir" não apenas o apóstolo Paulo, mas todos os seus filhos, à crucificação do seu Filho.

Em Romanos 6.3-5 (NTLH), Deus diz: Com certeza vocês sabem que, quando fomos batizados para ficarmos unidos com Cristo Jesus, fomos batizados para ficarmos unidos também com a sua morte. Assim, quando fomos batizados, fomos sepultados com ele por termos morrido junto com ele. E isso para que, assim como Cristo foi ressuscitado pelo poder glorioso do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. 

Pois, se fomos unidos com ele por uma morte igual à dele, assim também seremos unidos com ele por uma ressurreição igual à dele.

E por que o seu Pai Celestial quer que você esteja unido à morte e ressurreição do seu Filho? Para que "não sejamos mais escravos do pecado" (Rm 6.6). 

Boas Novas para você! Isso é verdadeiramente uma Boa Nova! Essa conexão à crucificação de Cristo traz esperança para todos os que lutam contra as tentações intermináveis da carne, as quais incluem sensualidade, fofoca, preguiça, glutonaria, orgulho e amor ao dinheiro. 

Quem, no íntimo do seu coração, já não sentiu vontade de confessar seus muitos pecados secretos dizendo: "Pois eu conheço bem os meus erros e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti eu pequei – somente contra ti - e fiz o que detestas" (Sl 51.3-4)? Muito embora seja uma bênção indescritível estar unido a Cristo e a sua ressurreição, isso não irá torná-lo perfeito, nem irá evitar que você caia em pecado. 

Mesmo sendo cristão, você muitas vezes vai ter vontade de dizer como o apóstolo Paulo: "Pois eu sei que aquilo que é bom não vive em mim, isto é, na minha natureza humana. Porque, mesmo tendo dentro de mim a vontade de fazer o bem, eu não consigo fazê-lo. Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é que eu faço?” (Rm 7.18-19). 

Então, lembre-se disto: mesmo depois de Jesus Cristo ter unido você a ele próprio, a sua morte e ressurreição através do Batismo, você ainda cometerá pecados. Entretanto, Deus diz que você não será mais escravo do pecado (Rm 6.6). 

Com Cristo vivendo em você, você pode se considerar "[morto] para o pecado, mas [vivo] para Deus, em Cristo Jesus" (Rm 6.11). Tome a sua cruz e siga-me (Mateus 16.24) Simão, o cireneu, raramente é mencionado na Bíblia. 

Ainda assim, o que Deus nos ensina através desse homem, embora pouco conhecido, é profundo. 

A lição de Simão, o cireneu, pode afetar você profundamente, especialmente se você sempre achou Jesus interessante, mas jamais tomou a sua cruz para segui-lo. 

Você não precisa mais ser escravo do pecado! Quando você está unido a Cristo, a sua crucificação e sua ressurreição, o diabo pode tentar você, mas jamais poderá derrotá-lo, pois "maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo" (1Jo 4.4). 

Quando você é unido à morte e ressurreição de Jesus através do dom divino do Batismo, o poder do pecado pode tentar controlar você, mas louvado seja Deus: Você jamais será escravo do pecado. 

Ao invés disso, você será um alegre escravo de Deus, pois Cristo vive em você (Rm 6.22).

Querido Senhor, obrigado por me libertar da escravidão do pecado e me unir com a morte e ressurreição de Jesus, para que, enquanto Cristo vive em mim, eu seja teu escravo cheio de alegria. Amém. 

“Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça [...] Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna" (Rm 6.17-18,22).

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Fonte: Mensageiro Luterano, Abril 2014 | Ano 97 | Nº 1.190 Pág 10 e 11.