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junho 29, 2018

Breve Resumo da Eclesiologia Luterana


Por Denício Godoy

O presente trabalho visa apresentar de forma sucinta a definição teológica do bem-aventurado Dr. Martinho Lutero sobre a Igreja Cristã a partir da doutrina da justificação pela fé. Partindo da perspectiva da justificação presente na exposição do segundo artigo do credo apostólico do Catecismo Menor, podemos lançar um primeiro olhar para o terceiro artigo do Credo Apostólico e então compreendermos melhor o que Lutero propõe como Igreja Cristã, . 

Na exposição do terceiro artigo do Credo, Lutero confessa: 

“Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé. Nesta cristandade perdoa a mim e a todos os crentes diária e abundantemente todos os pecados, e no dia derradeiro me ressuscitará a mim e a todos os mortos, e me dará a mim e a todos os crentes em Cristo a Vida Eterna.” (Catecismo Menor). 

Para Lutero, a Igreja é a portadora dos meios da graça. É através destes meios, palavra e sacramentos, que o Espírito Santo nos chama pelo Evangelho, ilumina com seus dons, santifica e conserva na verdadeira e única fé. 

Segundo Oswald Bayer, a igreja 

“não está ligada fundamentalmente a determinados lugares sagrados, templos sagrados, pessoas santas nem ritos sagrados, mas, por outro lado, ela tampouco é uma sociedade platônica, que só existiria como ideia, uma acusação que logo foi lançada contra os reformadores pelos adeptos da fé antiga (BAYER, 2007, p.185). 

Bayer argumenta que, para Lutero, na Palavra está contido tudo que faz a Igreja ser igreja. “Ubi est verbum, ibi est Ecclesia”, onde está a Palavra, ali está a Igreja. Lutero afirma na obra Do Cativeiro Babilônico da Igreja que 

“[...] a Igreja nasce da palavra da promessa, por meio da fé, e pela mesma é alimentada e conservada. Isto é, ela própria é constituída pelas promessas de Deus, e não a promessa de Deus por ela.” (LUTERO, 2016, p. 410). 

Tudo o mais que Lutero entende por igreja é um desdobramento dessa centralidade da Palavra na vida da própria Igreja. Isto é, a Igreja não é uma teoria gnóstica e superior (igreja invisível) mas uma realidade que se manifesta de forma visível. Como a igreja se apresenta de forma visível? Poderíamos dizer que no pensamento de Lutero a palavra se sacramentaliza (i.e é entregue como perdão) na proclamação da igreja e na administração dos sacramentos. 

O Espírito Santo chama pelo Evangelho 

Como visto na afirmação do Catecismo Menor de Lutero, o Espírito Santo chama a todos por meio do Evangelho. Na sua carta aos romanos, São Paulo afirma que "a fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo.” (Romanos 10:17 NVI). Na teologia de Lutero, a função da Igreja é proclamar a boa nova do Evangelho, de maneira que os homens creiam em Cristo e sejam justificados pela fé. A Igreja aponta para o segundo artigo do Credo. 

A Confissão de Augsburgo em seu 5° artigo diz que

“Para conseguirmos essa fé, instituiu Deus o ofício da pregação, dando-nos o evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo, que opera a fé, onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho, o qual ensina que temos, pelos méritos de Cristo, não pelos nossos, um Deus gracioso, se o cremos.” 

E no artigo 7° nos deparamos com a seguinte afirmação: 

“Ensina-se também que sempre haverá e permanecerá uma única santa igreja cristã, que é a congregação de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho. Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas pelos homens. É como diz Paulo em Efésios 4: 'Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo.'” 

Santificados e conservados na verdadeira fé. 

Note que no 7° Artigo, escrito por Melanchthon e subscrito por Lutero, encontramos a afirmação de que ensina-se – isto é, na Igreja Luterana – que sempre haverá e permanecerá uma única santa igreja cristã. Esta única santa igreja, explica o artigo da CA, é a congregação dos santos, entre os quais o evangelho é pregado corretamente e os sacramentos são administrados de acordo com o evangelho, de acordo com a instituição de Cristo. Isto nos coloca diante de uma qualificação que exclui muito da compreensão do protestantismo moderno de que as diferenças em questões como sacramentos (Batismo e Eucaristia) consistem em diferenças secundárias e irrelevantes. Para Lutero e os reformadores luteranos, é necessário que a palavra seja pregada corretamente. O artigo 7° fala do “evangelho pregado corretamente” e, a partir da teologia de Lutero como um todo, podemos deduzir a correta distinção entre lei e evangelho como um fator primordial para que isso ocorra. O artigo também sustenta que os sacramentos devem ser administrados conforme foram instituídos por Cristo. Com esta afirmação, por certo, estão excluídos os sacramentários, os romanistas e demais correntes teológicas que negam ou confundem a eficácia dos sacramentos. 

Sendo assim, na compreensão de Lutero, Espírito Santo e igreja estão intimamente ligados. No Catecismo Maior encontramos a seguinte colocação de Lutero: 

“Aprende, pois, a compreender esse artigo da maneira mais clara. Se perguntarem: que queres dizer com as palavras “Creio no Espírito Santo”?, podes responder: “Creio que o Espírito Santo me santifica, como seu nome indica”. Mas como ele o faz ou qual é a sua maneira ou meio para tanto? Resposta: “Por intermédio da igreja cristã, da remissão dos pecados, da ressurreição da carne e na vida eterna”. Pois, em primeiro lugar, ele tem uma congregação peculiar no mundo, congregação essa que é a mãe e que gera e carrega cada cristão mediante a palavra de Deus, que ele revela e prega. Ilumina e incende os corações para que a entendam, aceitem, a ela se prendam e nela permaneçam”. (LUTERO, 2012, p. 83) 

Notamos aqui que Lutero pode perfeitamente falar da “mãe igreja” – no sentido de que a igreja é o meio pelo qual a palavra de Deus me alcança e gera a fé no coração. Nesta igreja o Espírito Santo nos santifica e ilumina com seus dons. 

A Igreja vive pelo perdão. 

Na Igreja, a portadora dos meios da graça, o Espírito Santo perdoa diária e abundantemente todos os pecados. Para Lutero, esta ação começa desde quando somos inseridos na comunhão da Santíssima Trindade. No Catecismo Menor Lutero confessa sobre o sacramento do Batismo: 

“Opera a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo e dá a salvação eterna a quantos creem, conforme dizem as palavras e promessas de Deus. Quais são estas promessas? São as que nosso Senhor Jesus Cristo diz no último capítulo de Marcos: 'Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado'”. 

A Igreja também é portadora do Ofício das Chaves, oficio através do qual o perdão dos pecados nos é comunicado individualmente e de forma audível: 

“A confissão compreende duas partes: primeiro, que confessemos os nossos pecados; segundo, que aceitemos a absolvição do confessor como de Deus mesmo, sem duvidar de modo algum, mas crendo firmemente que por ela os pecados são perdoados perante Deus no céu.” 

Um terceiro meio pelo qual Deus nos perdoa individualmente através da Igreja é o Sacramento do Altar que, segundo Lutero: 

“É o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo para ser comido e bebido, sob o pão e o vinho, por nós, cristãos, como Cristo mesmo o instituiu.”

Lutero afirma que o proveito em comer e beber o corpo e sangue de Cristo no sacramento é indicado nas Palavras:

“’Dado e derramado em favor de vós para remissão dos pecados’. Por estas palavras nos são dadas no sacramento remissão dos pecados, vida e salvação. Pois onde há remissão dos pecados, há também vida e salvação.”


Para Lutero, a Igreja vive pelo perdão dos pecados. “Unicamente Cristo é o cabeça da cristandade (Igreja). Ele age através do Evangelho pregado, do Batismo e da Ceia d o Senhor, os quais, portanto, são também os canais pelos quais a verdadeira Igreja se identifica. A tarefa da cristandade (Igreja) não é governar as pessoas, e sim levá-las ao arrependimento e anunciar-lhes o perdão de Deus.” (LUTERO, 2016, p. 199) 


Referências Bibliográficas 


BAYER, Oswald. A teologia de Martim Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 2007. 

LINDENBERG, Carter. História da Reforma. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. 

LUTERO, Martinho. Catecismo Menor. Disponível em: <http://catechism.cph.org/pt/> Acesso em: 01 jun. 2018, 15:16:05

LUTERO, Martinho. “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”, In. Obras Selecionadas, v. 2. São Leopoldo: Sinodal e Porto Alegre: Concórdia, 2016. 

LUTERO, Martinho. “A respeito do Papado em Roma contra o Celebérrimo Romanista de Leipzig”, In. Obras Selecionadas, v. 2. São Leopoldo: Sinodal e Porto Alegre: Concórdia, 2016. 

LUTERO, Martim. Catecismo Maior. São Leopoldo: Sinodal e Porto Alegre: Concórdia, 2012. 

MELANCHTHON, Phillip. “Confissão de Augsburgo”. In: Livro de Concórdia: As Confissões da Igreja Evangélica Luterana. – 6. Ed. – São Leopoldo : Sinodal; Porto Alegre : Concórdia, 2006.

dezembro 15, 2017

Theotókos e a Cristologia sadia


por G. Shane Morris

Theotokos - termo grego para "portadora de Deus" ou simplesmente, "Mãe de Deus". ´É um termo que muitos, senão a maioria dos ouvidos evangélicos, consideram "demasiado católico", mas a teologia e a história por trás dele são fundamentais para o que nos faz cristãos, e o que faz com que o Advento e o Natal sejam dignos de celebração.

Entendo o receio que os evangélicos tem sobre usar este título. A primeira vista, parece implicar que Maria poderia ser a mãe de Deus Pai e o Espírito Santo, ou que de alguma forma fez com que Deus nascesse. Nada disso reflete o que originalmente significava o termo, e basicamente nenhum cristão alguma vez  creu em tais bobagens. É certo que Jesus é a única pessoa que preexiste a sua mãe. Mas, novamente, também foi o primeiro bebê a preexistir o universo. Há muito mistério na Encarnação e na Trindade. Nada disso muda o que é a mãe, nem muda o fato de que Deus era, verdadeiramente, um bebê.

Os evangélicos também podem ouvir o espetáculo do rio Tibre no termo "mãe de Deus". Eles sabem que, para os católicos romanos, este título está associado a muito mais do que apenas uma boa cristologia. O catolicismo conspira com a concepção imaculada, a virgindade perpétua, a suposição e o papel intercessório e mediador especial que Maria desempenha na teologia romana. Mas o termo não foi cunhado à luz de qualquer um desses. Os protestantes não devem permitir que os abusos posteriores nos impeçam de usar uma palavra que, longe de criar Maria acima de seu Filho, originalmente exaltava o mistério de Deus tornando-se carne, o mistério no coração do Advento e as estações de Natal, a nossa própria fé.

Aqui está a versão rápida da história por trás de "Theotókos": em meados do século V houve um confronto entre dois pastores (que também tinham os patriarcados de suas respectivas cidades), Cirilo de Alexandria e Nestório de Constantinopla. Esses clérigos representavam dois lados em um debate sobre a relação entre a natureza humana de Cristo e a natureza divina.

Ambos os lados alegaram aderir ao Credo Niceno, produto do primeiro Concílio Ecumênico, que condenou a heresia ariana e sistematizou a doutrina da Trindade como todos os cristãos confessam hoje. Nestório concrdou em teoria de que Jesus era verdadeiramente Deus Filho, Segunda Pessoa da Trindade e verdadeiramente homem, mas enfatizou tanto o caráter distintivo das duas naturezas que criou, consequentemente, duas pessoas: Jesus, o homem, e Jesus, o Filho de Deus. A palavra que ele usou para esta aparente (mas não real) união da divindade e da humanidade foi "prosópon", "Um termo usado para as máscaras dos atores no teatro grego". Em outras palavras, Jesus de Nazaré, a pessoa que os primeiros cristãos vira, escutaram, seguiram e tocaram na terra, não era necessariamente a mesma pessoa que Deus Filho. As coisas que se disseram sobre Cristo não podem serem ditas sobre o Filho.

Cirilo de Alexandria se converteu no principal opositor de Nestório e expoente da posição ortodoxa. O que é surpreendente é que ele fez isso utilizando um único título, não para Jesus, mas para sua mãe, a virgem Maria. Esse título era "theotókos" - mãe de Deus. Embora Cirilo não tenha inventado o título (já tinha séculos de idade na época), ele usou brilhantemente para rebater as opiniões heréticas de Nestório sobre Jesus.

Nestório, como você vê, não poderia usar o termo "mãe de Deus", porque não acreditava que o "Deus" em Jesús estava suficientemente ligado ao "homem" para usá-lo como sujeito com os mesmos predicados. Cristo pode ter sentido fome, mas no julgamento de Nestório, Deus Filho não. Cristo poderia ter dormido, mas Deus Filho não podia.  Cristo poderia ter tido uma mãe, mas Deus Filho não. Então Nestório inventou um título alternativo para Maria, que permitia seu ponto de vista: "Christotokos" - mãe de Cristo.

Cirilo e os Alexandrinos não tinham nada disso. E, uma vez que o imperador bizantino Teodósio II convocou o Concílio de Éfeso para resolver o assunto, Nestório foi rapidamente despojado de seu ofício e seus pontos de vista condenados como heresia. A opinião de Cirilo, de que as naturezas de Cristo estavam perfeitamente unidas, mas também permaneciam distintas em cada Pessoa, de modo que poderia dizer com razão que Ele teve fome, dormiu, sofreu, morreu e teve uma mãe, enquanto permanecia completamente como Deus -  passou a informar ao Concílio de Calcedônia em 451.

Por que isso é tão importante? É simples. Se Jesus de Nazaré não era a mesma pessoa que Deus Filho encarnado em um corpo verdadeiramente humano com uma alma verdadeiramente humana, então sua morte na cruz não valeu mais do que a morte de um homem comum (embora justo). Ele não poderia expiar os pecados de ninguém, porque este homem, tão intimamente relacionado na medida do possível com o Filho de Deus, não era o partido ofendido principalmente pelo pecado. Ele não teria nada para perdoar (somente Deus pode perdoar os pecados - Marcos 2.7), nem a morte dele teria valido suficientemente como sacrifício para expiar os pecados de mais de uma pessoa, e muito menos do mundo inteiro. Somente a morte de Deus poderia alcançar esse milagre.

Ainda mais importante, a ressurreição de um Cristo nestoriano significaria pouco para nós. Esta Pessoa que nasceu de uma virgem em Belém, viveu a vida de um judeu piedoso, fez milagres durante três anos, morreu como um criminoso aos trinta e três anos e deixou seu túmulo vazio para ser totalmente e irrevogavelmente divino e humano.

Por quê? Porque em Jesus, Deus tornou-se homem para fazer o que o homem não podia fazer. Não era suficiente para o Criador manter seu lado da aliança que Adão quebrou. Ele também teve que vir e defender o lado de Adão. Ele tomou o que Ele é como Deus e o ligou ao que somos como criaturas, garantindo que não pudéssemos mais cair na pilha de poeira cósmica. Ele colocou sua própria pele em jogo. Ele pagou o que devemos, como se fosse um de nós, e então se levantou com a nossa natureza no reboue, o "primogênito dentre os mortos" (Colossenses 1.18), garantindo a nossa transformação da mesma maneira. Ele deu um passo no cadáver da humanidade caída e o trouxe a vida. E pode fazer tudo isso porque assumiu tudo o que significa ser humano, sem perder nada do que significa ser Deus.

Na linguagem do Oriente, o fim último da salvação é a theosis: a introdução do homem em uma semelhança mais próxima e união com Deus em Cristo. A restauração de todas as coisas realmente significa que Deus e a criação serão novamente reunidos, que o Céu e a Terra serão reconciliados. Em Cristo, essa reconciliação ocorre em uma pessoa.

O debate sobre o nestorianismo não é um mero exercício acadêmico para dividir os cabelos. O Evangelho não significaria nada se Nestório tivesse razão. Se Jesus não fosse completa, total e inequivocamente Deus, sua unidade com a humanidade e a criação seria inútil.

Deve ficar claro agora que o termo "theotokos" não é realmente sobre Maria. É sobre seu filho. É uma declaração profunda sobre a maravilha e o poder da Encarnação. Ligar a Maria, a mãe de Deus, é apenas uma outra maneira de chamar Jesus de Deus, uma maneira que assusta os hereges ao atribuir ao Homem-Deus as características mais humanas: ter uma mãe.

Publicado originalmente em: http://www.patheos.com/blogs/troublerofisrael/2017/12/yes-fellow-protestants-mary-is-the-mother-of-god-its-good-christology/?utm_medium=email&utm_source=Newsletter&utm_campaign=Evangelical&utm_content=46

abril 30, 2017

Lei e Evangelho como Função Hermeneutica


Vilson Scholz

Introdução

Num documento intitulado Apologia da Confissão de Augsburgo, redigido por Filipe Melanchthon, em 1530, este confessor evangélico afirma que “aterrorizar e justificar e vivificar os aterrados são as duas obras principais de Deus nos homens. Nessas duas obras se divide a Escritura toda. Uma parte é a lei, que mostra, argüi e condena os pecados; a outra é o evangelho, isto é, a promessa da graça dada em Cristo. E esta promessa é repetida constantemente em toda a Escritura. Primeiro foi entregue a Adão, depois aos patriarcas; em seguida, foi ilustrada pelos profetas. Por último, foi pregada e apresentada por Cristo entre os judeus e espargida pelos apóstolos em todo o mundo”. 41 Trata-se de uma afirmação ousada: a Bíblia toda se divide nessas duas obras de Deus: aterrorizar e vivificar. Em outras palavras, a Bíblia é feita de duas mensagens básicas: lei e evangelho. 42 Qual é, na prática, a importância disso para o intérprete?

Algumas teses

Antes de responder esta pergunta, cabem algumas reflexões e afirmações sobre lei e evangelho. Em primeiro lugar, lei é, de forma bem simples, aquilo que Deus anuncia ou faz anunciar e que nos aterroriza, assusta, mata. Pode ser também o que Deus exige de nós. O evangelho é a mensagem que nos consola. É o anúncio daquilo que Deus fez, faz e ainda fará por nós. 

Na teoria, esta distinção é muito fácil. Até uma criança sente quando está ouvindo lei, ou quando está ouvindo o evangelho. Se alguma coisa depende de nós, nunca é evangelho. Por exemplo, e fazendo uso de uma comparação, se a mãe diz à sua filha, “se você for uma boa aluna, vou levá-la ao shopping”, isto é, no fundo, lei. Agora, se ela disser, como que de surpresa, “por ser a minha filha amada, vou levar você ao shopping”, o enfoque é outro. 43 A lei é antiga. Ela governou, não apenas o povo de Israel, mas governa todas as nações debaixo do Sol. Em Gálatas 4.8-11, Paulo diz: “Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para convosco”. O que isso tem a ver com a lei? A conexão está na parte final, onde diz “guardais dias, e meses, e tempos, e anos”. Os cristãos gálatas haviam sido convertidos do paganismo ao evangelho. Haviam servido a deuses que, por natureza, não são deuses. Agora eles conheciam Deus, ou, como Paulo diz, mudando a ênfase (que passa a ser bem evangélica!), eles eram conhecidos por Deus. Guardar dias, isto é, dar importância a certos dias (algo que pode ser descrito como praticar as “obras da lei” do judaísmo) representaria uma volta aos mesmos “rudimentos fracos e pobres” que os haviam escravizado quando eram pagãos. Com isso Paulo, de forma bastante ousada, coloca o paganismo e a obediência à lei no mesmo patamar. 

Se acrescentarmos a isso o texto de Romanos 2.14 (“os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei”), poderemos afirmar que a lei é, em seus termos gerais (mais ou menos como aparece expressa no decálogo), patrimônio de toda a humanidade. Sob este aspecto, pregar a lei, despertar a consciência das pessoas, fazer exigências, é algo comum a todas as religiões. Não há nenhuma novidade em ensinar e pregar a lei. Não é esta a obra própria da Igreja. Como já disse alguém, não é função do pregador melhorar a Terra, mas abrir as portas do céu. A lei nos prende à Terra; ela foi dada, em grande parte, ao menos na assim chamada “segunda tábua”, em função do próximo e nossa convivência com ele. Abrir as portas do céu, isso somente a boa notícia da fé em Jesus Cristo faz. 

A expressão técnica “lei e evangelho” é herança da Reforma do século XVI. Esta polaridade foi formulada e enfatizada pelos reformadores luteranos. 44 Os Pais da Igreja antiga em geral desconheciam essa polaridade lei-evangelho, pelo menos na teoria. Assim, os reformadores não puderam, neste caso, apelar para a história da Igreja, indicando que não estavam introduzindo nenhuma novidade na vida da Igreja. Neste particular, tudo que tinham ao seu lado (e isto não era pouco!) era o testemunho da Bíblia. Talvez alguém estranhe a formulação “lei e evangelho”. A rigor, na própria Bíblia há outras designações, que expressam a mesma polaridade: obras e fé, lei e Cristo, lei e Espírito, lei e graça. 

Segundo outro documento confessional do século XVI, 45 “em 2 Coríntios 3 Paulo mostra de maneira cabal e poderosa essa distinção entre lei e evangelho”. Claro, o texto de 2 Coríntios 3 tem implicações hermenêuticas. Agostinho achava que esse texto, especialmente o versículo 6, legitimava a distinção platônica entre sentido literal e sentido espiritual. No entanto, o texto não trata disso. “Letra”, naquele contexto, é outro nome para “lei mosaica”. E Espírito é outra maneira de falar da novidade do evangelho nos tempos do fim. 46 Na sequência, em 2 Coríntios 3, Paulo contrasta o ministério da morte e o ministério do Espírito (versículos 7-8), o ministério da condenação e o ministério da justiça (versículo 9). Em Moisés, há morte e condenação; em Cristo, o dom do Espírito e justiça.

Essa distinção entre lei e evangelho é tanto quantitativa quanto funcional. Por “quantitativo” se entende que é algo que pode ser quantificado. Em outras palavras, é possível, em alguns lugares da Bíblia, marcar o texto com uma cor, para indicar que é lei, e marcar outras passagens com outra cor, para indicar que é evangelho.

Em Salmo 118.18, “o SENHOR me castigou severamente, mas não me entregou à morte”, a primeira metade é lei; a segunda metade (em itálico), evangelho. Em Salmo 119.28, “a minha alma, de tristeza, verte lágrimas; fortalece- me segundo a tua palavra”, a primeira parte é dita sob a perspectiva da lei; a segunda (em itálico), sob a perspectiva do evangelho. Romanos 3.23 (“todos pecaram”) é lei. João 3.16 (“Deus amou o mundo”) é evangelho.

Mas existe também a distinção funcional. Isso significa que um mesmo texto pode funcionar de dois jeitos, ou seja, pode tanto ser lei como evangelho. O exemplo clássico é a história da paixão e morte de Cristo. Aquela é a mensagem da cruz. Não poderia haver evangelho mais claro. No entanto, em geral essa narrativa é ouvida como lei. Sempre que a resposta é “como o ser humano é mau e cruel”, ficando implícito que algo como aquilo que aconteceu com Jesus não deveria ter sido feito, a história terá sido ouvida como lei.

Como saber se é lei ou é evangelho, no caso da história do sofrimento de Jesus, relatado nos quatro Evangelhos? A rigor, o texto é um só. O conteúdo (a semântica, para usar o termo técnico) não muda; o que muda é o impacto do texto (ou, para ficar com o termo técnico, a pragmática). No fundo, quem conta a história não tem como controlar o efeito ou garantir que a mesma seja ouvida como evangelho, e não como lei. Mas apenas o ouvinte poderá dizer se ouviu a história como lei ou como evangelho.

O mesmo vale, também, para a lei em seus diferentes usos. Falamos do tríplice uso da lei: freio, espelho e norma. Em seu primeiro uso (como freio), a lei, em seu sentido amplo, impede que o mundo se torne caótico. Em seu segundo uso, como espelho (nós usaríamos hoje, talvez, a metáfora do microscópio), a lei revela ao homem a amplitude de seu pecado. E em seu terceiro uso, como norma, a lei tem um papel a cumprir na vida do cristão. Especialmente no caso do segundo e do terceiro usos, o pregador ou professor não tem controle sobre a lei. A rigor, só Deus é Senhor do tríplice uso da lei. O pregador pode até tencionar um terceiro uso da lei, orientando seus ouvintes quanto à vivência da fé cristã, mas o efeito pode ser de segundo uso (espelho). Isso se percebe quando os ouvintes, depois de ouvirem a pregação, sentem ou dizem: “Hoje, sim! Hoje a coisa foi séria (especialmente para os outros)!”.

Lei e evangelho têm em vista o objetivo de salvação. O anúncio da lei não é um fim em si, pois está a serviço do evangelho (Cristo), que é o centro de toda a Escritura (como o próprio Cristo deixou claro em Lucas 24).

Exemplos bíblicos

Essa polaridade lei-evangelho aparece tanto em textos bíblicos específicos como também em episódios ou páginas da história do povo de Deus. Filipe Melanchthon, na Apologia, aponta para os exemplos de Adão, Davi, e o ministério de Jesus. 47 Mas esta lista pode ser ampliada. Comecemos, todavia, com Adão.

Melanchthon escreve: “Adão, depois do pecado, é repreendido e aterrorizado; foi a contrição. Depois, Deus promete graça, fala da semente futura pela qual será destruído o reino do diabo, a morte e o pecado. Aí oferece a remissão dos pecados. Essas são as partes principais. Pois, ainda que a pena seja acrescentada posteriormente, essa pena, todavia, não merece a remissão do pecado”. 48 Na sequência, seria possível dizer que, a rigor, a história do homem deveria ter terminado em Gênesis 3, ou com o dilúvio, ou no episódio da torre de Babel (Gênesis 11). Mas, não. Em Gênesis 12, Deus abre um novo capítulo, o capítulo da graça. Como disse alguém, “Gênesis 12 é o grande milagre da graça de Deus abrindo um caminho onde não há caminho que o homem possa ou mesmo queira encontrar”. 49

Na Apologia, Melanchthon cita o exemplo de Davi, o qual, “censurado por Natã, e, aterrorizado, diz: ‘Pequei contra o Senhor’. É a contrição. Depois ouve a absolvição: ‘O Senhor te perdoou o teu pecado; não morrerás’. Esta voz erige a Davi, e, pela fé, o sustenta, justifica e reanima. Também aqui se adiciona um castigo, mas esse castigo não merece remissão de pecados”. 50 A história de Israel, que vai de Deuteronômio ao final do livro de 2 Reis, é sombria. Somando tudo, parece que o resultado é nada. No entanto, olhando com atenção, nota-se que a mensagem dessa história é, apesar de tudo, evangelho.

O Deus de juízo é – por incrível que pareça – o Deus a quem o povo rebelde e infiel pode se voltar e a quem precisa se dirigir.

Em Oseias, um profeta cuja vida é uma parábola de como “a Terra se prostituiu, desviando-se do SENHOR” (1.2), lei e evangelho aparecem lado a lado, em Oseias 1.9-10: “Disse o SENHOR a Oseias: Põe-lhe o nome de Não-Meu-Povo, porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus. Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que se não pode medir, nem contar; e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo”. Em Ezequiel 16, Jerusalém, a cidade infiel, a cidade prostituta, a irmã de Sodoma, é confrontada com o juízo da lei: “Jerusalém, eu a tratarei como merece, pois você quebrou as suas promessas e não respeitou a aliança” (Ezequiel 16.59, NTLH). Mas, no versículo imediatamente após, aparece o “mas” do evangelho: “Mas eu manterei a aliança que fiz com você na sua mocidade e farei com você uma aliança que durará para sempre”  Ezequiel 16.60). E Deus continua: “Renovarei a aliança que fiz com você, e você ficará sabendo que eu sou o SENHOR. Eu perdoarei todas as coisas más que você fez...” (Ezequiel 16.62 63).

O profeta Habacuque, cercado de maldade, injustiça, destruição e violência, vendo o povo de Deus ser ameaçado pelos babilônios (lei), sabe que Deus sairá para salvamento do seu povo (evangelho, em Habacuque 3.13). Ele confessa que Deus é a garantia do futuro, naquela que é uma das mais belas passagens da Bíblia: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente” (Habacuque 3.17-19).

Provérbios, que faz parte da literatura de sabedoria, talvez não seja um candidato ideal para a articulação da polaridade lei-evangelho. No entanto, à luz do lema “o temor do SENHOR é o princípio da sabedoria”, é possível afirmar que a sabedoria do sábio depende tão pouco dele próprio quanto a justiça do justo depende daquilo que ele faz. Em 30.2-3, Agur confessa: “sou demasiadamente estúpido para ser homem; não tenho inteligência de homem, não aprendi a sabedoria, nem tenho o conhecimento do Santo”. No entanto, muito antes de se recolher à sua insignificância, o sábio conhece a saída. Em Provérbios 3.5, diz: “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento”. A parte final é lei; a parte inicial, é um convite evangélico. O mesmo tema se repete em Provérbios 22.19: “Para que a tua confiança esteja no SENHOR, quero dar-te hoje a instrução, a ti mesmo”.

A polaridade lei-evangelho aparece claramente no ministério de João Batista. Ele chama a todos de “raça de víboras” (Lucas 3.7), o que, com certeza, não tem nada de evangelho. Mas ao mesmo tempo anuncia um batismo de arrependimento para remissão de pecados e aponta para aquele que é mais poderoso do que ele e batiza com o Espírito Santo que dá vida e que é o dom dos tempos messiânicos (Mateus 3.11).

Filipe Melanchthon tem um exemplo do ministério de Cristo, especificamente Lucas 7. Ele escreve: “A mulher pecadora vem a Cristo chorando. Por essas lágrimas se conhece a contrição. Depois ouve a absolvição: ‘Perdoados são os teus pecados; a tua fé te salvou; vai-te em paz’. Esta é a segunda parte do arrependimento, a fé, que a encoraja e consola”. No Evangelho de João, o mundo que é dominado por aquele que é o pai da mentira e homicida desde o princípio (João 8.44) é o mundo amado por Deus (João 3.16). Lei e evangelho são claramente articulados em Atos 4.11-12: “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. Aqui, as afirmações itálico são tanto lei quanto evangelho. Dizer que não há salvação em nenhum outro é lei, pois exclui todos os outros pretensos salvadores. Mas, ao mesmo tempo, está implícito que há um nome pelo qual importa que sejamos salvos, o nome de Jesus. E isso é, com certeza, uma boa notícia.

O livro de Tiago parece, à primeira vista, um texto marcado por ensino ético, típico de lei. Mas, ainda assim, há também momentos em que transparece a polaridade lei-evangelho, como, por exemplo, quando contrasta a morte que resulta de nossos desejos (Tiago 1.15) com as boas dádivas que recebemos do alto, do Pai das luzes (1.17), ou quando contrasta a sabedoria terrena, animal e demoníaca (Tiago 3.15) com a sabedoria lá do alto (3.17).

E, para mostrar que essa polaridade perpassa a Bíblia, um exemplo de Apocalipse. Quando João chora muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro (Apocalipse 5.4), isto é lei. Mas o evangelho não tarda. Em 5.5 é dito: “Não chore. Olhe! O Leão da tribo de Judá, o famoso descendente do rei Davi, conseguiu a vitória e pode quebrar os sete selos e abrir o livro”.

A importância da distinção

A distinção entre lei e evangelho é importante como exercício hermenêutico ou interpretativo, conforme exemplificado acima. No entanto, é muito mais importante, é de vital importância, na hora de pregar e ensinar a palavra de Deus. Faz-se essa distinção entre lei e evangelho, não pelo prazer de encontrar esse tipo de polaridade, mas para que o evangelho soe como evangelho. O normal é que se encontre confusão, isto é, não distinção, entre lei e evangelho, quando não se escuta lei pura. Quando há confusão ou mistura entre lei e evangelho, o que resulta não é um meio-termo, algo como “lelangelho”, mas o que resulta é pura e simplesmente lei. Cabe aos mensageiros da fé cristã fazer essa distinção entre lei e evangelho, para que o evangelho seja ouvido como evangelho. Se a Igreja e seus pregadores não fizerem isso, o mundo está perdido. 

Paulo exorta Timóteo, em 2 Timóteo 2.15, a “ensinar corretamente a palavra da verdade” (NTLH). 51 Literalmente, o verbo grego usado (“orthotoméo”) sugere a imagem ou figura de “cortar em linha reta”. Este “cortar” de forma correta ou ensinar corretamente implica fazer a distinção entre lei e evangelho.

Segundo o Dr. Carl F. W. Walther, no clássico Lei e Evangelho, até uma criança aprende a distinção entre lei e evangelho. Em outras palavras, não é tão difícil saber o que é lei e o que é evangelho. A aplicação prática ou o uso na vida é que apresenta dificuldades que não se consegue superar pelo simples raciocínio. Essa distinção precisa ser ensinada sempre de novo pelo Espírito Santo na escola da experiência. Em outras palavras, a distinção não é estática, fossilizada, um bem que a igreja possui, mas é algo dinâmico, algo que a Igreja recebe sempre de novo, na escola da experiência, isto é, na escuta da palavra de Deus e na sua apropriação pela fé. Como diz Gerhard Ebeling, “a distinção entre lei e evangelho seria fácil, caso se tratasse dum conhecimento teórico que, uma vez adquirido, estivesse disponível como saber”. 52 E evangelho significa propriamente distinção de lei e evangelho, o que equivale a dizer que, sem a distinção, o evangelho não será evangelho.

Resumindo: O que é lei, na Bíblia, deve ser explicado e entendido como lei, e o que é evangelho deve ser explicado e entendido como evangelho. Se a Bíblia toda é entendida e explicada como lei, não haverá instrumento para o Espírito criar a fé em Cristo e como resultado não haverá consolo contra os terrores da lei. Se a Bíblia toda é explicada e entendida como evangelho, não haverá instrumento para o Espírito convencer o homem de seu pecado e mostrar-lhe sua necessidade do Salvador, enfraquecendo, desse modo, a força do evangelho.

Os limites da distinção, ou seja, o que ela não pode fazer

A ênfase na distinção entre lei e evangelho se baseia na convicção de que as Escrituras Sagradas são cristocêntricas e que seu objetivo central é tornar os homens sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Enquanto o intérprete não tiver falado de Cristo, a interpretação ainda não terá chegado ao seu final.

Isso não significa, porém, que a distinção entre lei e evangelho é princípio hermenêutico geral a ser aplicado a cada texto da Escritura para descobrir seu significado. Em outras palavras: o processo interpretativo não se resume a fazer distinção entre lei e evangelho. Ainda é preciso examinar de perto o texto, estar atento ao contexto, relacionar outros textos bíblicos etc. Agora, toda interpretação, para ser completa, precisa incluir este componente de lei-evangelho. Em especial quando se trata do assunto central da Bíblia, a salvação, a relação entre fé e obras, é crucial fazer essa distinção.

Há mais um elemento que pode ser acrescentado: pensar em termos de lei-evangelho ajuda a evitar que a exegese bíblica se torne fragmentária e deturpada.

Como dizemos, há momentos em que não conseguimos enxergar a floresta, de tantas árvores que temos pela frente. Pensar em termos de lei-evangelho leva a ver o quadro maior, e mantém a exegese fiel ao conteúdo cristológico e ao objetivo soteriológico da própria Bíblia.

Conclusão

A mensagem da Bíblia pode ser dividida em lei e evangelho. É fundamental fazer a distinção (sem que se faça uma indevida separação) entre essas duas palavras, para que a lei seja ouvida como lei, e o evangelho seja ouvido como evangelho. Sem essa distinção, tudo que se ouve é lei. Mas é fundamental, para a salvação, que se ouça a boa nova do evangelho. Assim sendo, só conclui a tarefa de interpretação de um texto bíblico quem pode dizer: “neste texto, o evangelho é o que segue”, indicando do que se trata.

Notas:

| | 41 Apologia XII, 53 – Livro de Concórdia, p. 199-200. A Apologia é um dos documentos confessionais da Igreja Luterana. O Livro de Concórdia reúne todos os documentos confessionais do século XVI.
| | 42 Num escrito intitulado “Seven Theses on Reformation Hermeneutics” (Sete Teses sobre a Hermenêutica da Reforma), Martin Franzmann contrasta esta ênfase luterana com outras ênfases, que, segundo ele, não estão, em si, erradas, mas são incompletas. Um exemplo é a ênfase na soberania de Deus. É uma ênfase bíblica válida. Deus é soberano, tanto em juízo quanto em amor. É uma ênfase luterana também. No entanto, dizer que Deus é assim ou assado não é tudo, pois a Bíblia diz mais. Ela diz que Deus está agindo. Isso sugere uma segunda ênfase, muito propalada na segunda metade do século XX: Deus age. A vantagem desta ênfase é que mostra a diferença entre o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (um Deus que se revela) e o “deus dos filósofos e sábios”, que é um deus distante e inativo. Entretanto, dizer que Deus está sempre pronto a agir ainda não diz tudo que a Bíblia requer que se diga, a saber, que ele quer agir em você, por meio de lei e evangelho.
| | 43 No mais das vezes, a mãe talvez dissesse, resignada: “Está bem ... vou com você ...”
| | 44 Reformadores não luteranos provavelmente enfatizariam a sequência evangelho-lei.
| | 45 A Fórmula de Concórdia, na Declaração Sólida, Artigo V, seção 26.
| | 46 Na verdade, em 2 Coríntios 3.6, Espírito deveria ser grafado com inicial maiúscula.
| | 47 Apologia da Confissão de Augsburgo, Artigo XII, 53-57.
| | 48 Livro de Concórdia, p. 200.
| | 49 Martin H. Franzmann, “Seven Theses on Reformation Hermeneutics”, Concordia Theological Monthly 40 (1969), p. 240.
| | 50 Livro de Concórdia, p. 200.
| | 51 A tradução de Almeida fala em “manejar bem a palavra da verdade”.
| | 52 Ebeling, Gerhard. O pensamento de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1986, p. 91.

FONTE:

Scholz, Vilson Princípios de interpretação bíblica / Vilson Scholz. – Canoas : Ed. ULBRA, 2010. 160 p.

AUTOR

Vilson Scholz possui graduação em Teologia pelo Seminário Concórdia (1978), Mestrado (1981) e Doutorado (1993) em Teologia pelo Concordia Seminary de St. Louis, EUA. Atualmente, é membro do corpo editorial da The Bible Translator. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Bíblica, atuando principalmente nos seguintes temas: 2 Coríntios 3,4-18, exegese de 2 Coríntios 3.

abril 08, 2017

Teologia da Cruz X Teologia da Glória


A partir da cruz de Cristo, resulta uma inversão de todos os valores. Justamente o que é inferior no mundo, o que nada é, isto Deus escolheu. Para o judeu Saulo de Tarso, a cruz tinha sido uma grande pedra de tropeço. Afinal, Cristo crucificado é “escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1 Co 1.23). Porém, agora, para o apóstolo Paulo a “palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1 Co 1.18). Para ele, Cristo tornou-se “poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia dos que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Co 1.24-25). Na cruz de Cristo, temos a redenção. Através de sua morte, temos a conciliação objetiva entre Deus e o homem. E na comunhão com Cristo entra somente quem participa de sua morte. “Nenhum personagem histórico entendeu melhor e mais profundamente o poder da cruz que Martinho Lutero, o reformador do século XVI”, escreve Mark Shaw.1 E Alister McGrath, um teólogo de Oxford, definiu a teologia da cruz de Lutero como “uma das compreensões mais poderosas e radicais da natureza da teologia cristã que a Igreja já conheceu”.

Em abril de 1518, Martinho Lutero (1483-1546), em Heidelberg, contrapôs seus “Paradoxos” teológicos como “teologia da cruz” (theologia crucis) à “teologia da glória” (theologia gloriae), isto é, à teologia eclesial dominante. Este episódio de 1518 tem sido descrito por Shaw como um “sussurro silencioso e ignorado”; constitui-se, entretanto, um grande engano passar despercebido por ele. No “Debate de Heidelberg”, travou-se a discussão da indulgência. Lutero contrastou a teologia da cruz com a teologia oficial, diante de uma igreja que se tornara segura e saciada. Como exemplo dessa realidade, para financiar o seu projeto mais extravagante, a basílica de São Pedro em Roma (incluindo a Capela Sistina), Leão X (1475-1521), eleito papa em 1513, resgatou a prática de cobrar indulgências, o que, de alguma maneira, precipitou a Reforma Protestante. Em Heidelberg, distinguindo entre o cristianismo evangélico bíblico e as corrupções medievais, Lutero entendeu que a igreja medieval seguia o caminho da glória ao invés do caminho da cruz. Para Lutero a cruz é a marca de toda a teologia. “No Cristo crucificado é que estão a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus.” Conhecer a Deus pela cruz é conhecer o nosso pecado e o amor redentor de Deus. Deus, na cruz, destrói todas as nossas idéias preconcebidas da glória divina. O perigo em potencial que a teologia da cruz vê na sua antítese é que a teologia da glória levará o homem a alguma forma de justiça pelas obras, à tendência de se fazer uma barganha com Deus com base em realizações pessoais. Por outro lado, a teologia da cruz repudia firmemente as realizações do próprio homem e deixa Deus fazer tudo para efetivar e preservar a sua salvação. Na doutrina de Martinho Lutero, a graça da justificação pela fé está rigorosamente orientada pelo Cristo crucificado.

Quem reconheceria que aquele que é visivelmente humilhado, tentado, condenado e morto é, internamente e ao mesmo tempo, sobremodo enaltecido, consolado, aceito e vivificado, não fosse o Espírito ensiná-lo pela fé? E quem admitiria que aquele que é visivelmente enaltecido, honrado, fortificado e vivificado é internamente rejeitado, desprezado, enfraquecido e morto de maneira tão miserável, se a sabedoria do Espírito não lhe ensinasse isso?

Quando a “sabedoria da cruz” não é entendida, também a Escritura permanece um livro trancado, pois a cruz de Cristo é a única chave para ela. A “sabedoria” humana se escandaliza com a Palavra de Deus e se irrita com a cruz de Cristo. Isto porque a nossa sabedoria está apaixonada por si própria, é como um doente que não quer que o médico o ajude. A nossa sabedoria é “sabedoria da carne”, que resiste à vontade de Deus. A cruz é o juízo daquilo que os homens se orgulham. A cruz é o juízo de toda glória humana, e a via crucis significa, por isso, desistir de toda glória humana. A cruz de Cristo contesta violentamente o senso natural. Para Lutero, a cruz de Cristo e a cruz do cristão são vistas em conjunto; a cruz de Cristo e a cruz do cristão formam uma unidade. O teólogo da cruz não está posicionado como espectador em relação à cruz de Cristo, ma ele próprio é envolvido neste acontecimento. Por isso, ele não foge dos sofrimentos, tal qual o teólogo da glória, mas considera-os tesouro valioso. Para Lutero, o teólogo da glória “define que o tesouro de Cristo são relaxações e isenções de penas, sendo estas as piores coisas e as mais dignas de ódio. O teólogo da cruz, pelo contrário, [afirma que] o tesouro de Cristo são imposições e obrigações de penas, sendo estas as melhores coisas e as mais dignas de amor”. Assim, para a teologia da cruz o sofrimento adquire significado todo especial. Os cristãos têm que se tornar iguais a seu Mestre em tudo e, por isto, têm de assumir a ignomínia de Cristo. Cristo nos precedeu no caminho que rejeita toda grandeza humana.

A glória do cristão consiste nesta “fraqueza e baixeza”. E sua baixeza se revela no ato de levar o sofrimento. Visto que em meio à vida de Cristo está erigida a cruz, a vida do cristão é discipulado e sofrimento. Uma razão, diz Lutero, pela qual as pessoas querem uma teologia da glória em vez de uma teologia da cruz é que elas “odeiam a cruz e o sofrimento”. Mas, à luz da cruz, o sofrimento serve a um propósito importante, a saber, a autonegação. Ela nos esvazia de nossa autoconfiança, para que possamos ter confiança em Deus. Contudo, o sofrimento jamais deve tornar-se “boa obra”, e não encontra sua origem em idéias ascéticas. A cruz do cristão está em unidade com a cruz de Cristo, e com isto está excluída por si só toda a idéia de mérito da pessoa, que pudesse ser obtido pelo sofrimento. Ao carregarmos nossa cruz, não fazemos com isso nada especial, mas simplesmente demonstramos que estamos em comunhão com Cristo. E também nem todo sofrimento pode reivindicar ser discipulado da cruz. Que significa isto: carregar a cruz de Cristo? “A cruz de Cristo outra coisa não é exceto o abandonar tudo e agarrar-se somente a Cristo pela fé do coração, ou seja: abandonar tudo e crer – isso é carregar a cruz de Cristo”.6 Assim, a cruz torna-se sinal da filiação divina. O padrão da cruz se torna o padrão de toda a jornada cristã. Lutero expressa este conceito ainda mais, nas seguintes palavras: Por isso somos ensinados aqui a crer contra a esperança na esperança; esta sabedoria da cruz está hoje por demais oculta em mistério. Também para o céu não há outro caminho do que esta cruz de Cristo. Por isso é preciso precaver-se, para que a vida ativa com suas obras, e a vida contemplativa com suas especulações não nos seduzam. Ambas são extremamente atrativas e tranqüilas, e por isso também perigosas, até que sejam temperadas pela cruz e perturbadas pelas adversidades. A cruz, no entanto, é de todas as coisas a mais segura. Bem-aventurado quem entende.

Em seu clímax, a vida sob a cruz se apresenta como “conformidade com Cristo”. Assim, conforme a teologia da cruz, a vida do cristão nada mais é do que “ser crucificado com Cristo”. O batismo não está apenas no começo da vida cristã, mas no ato do batismo temos o símbolo de toda a vida cristã: um constante morrer e ressuscitar com Cristo. “Ser crucificado com Cristo” realiza-se de dois modos: no interior da pessoa pela “mortificação” e no exterior pela inimizade do mundo. Porém, o conceito luterano do morrer do velho homem precisa ser traçado com base na doutrina da justificação. A mortificação não é obra meritória. Ela não é pré-requisito para a fé que alcança a graça, mas, inversamente, pressupõe a fé. Lutero, neste sentido, não se gloria na sua cruz, mas se gloria na graça de Deus. A teologia da cruz, em Lutero, se encontra na mais aguda oposição a qualquer moralismo.

De acordo com Lutero, ser crucificado com Cristo revela-se ainda no fato de um verdadeiro cristão ter de atrair necessariamente sobre si a inimizade do mundo. A inimizade do mundo é sinal para a autenticidade do discipulado. Pois o próprio evangelho é um escândalo para o mundo. A exemplo de Cristo, vestimos a “forma de servo”; renunciamos todo orgulho, fama e honra diante do mundo e de nós mesmos, e nos deixamos envolver na ignomínia de Cristo. Tornar- nos conformes com Cristo outra coisa não significa do que experimentar o fato da cruz também em nossa vida. Somos pessoas conformes com Cristo quando a cruz não permanece apenas um fato histórico, mas quando ela está erigida em meio à nossa vida. Isto, não obstante, é fruto da graça de Deus. A cruz é, portanto, um paradoxo:

Deus rejeita os orgulhosos, mas aos humildes concede a sua graça; ele rejeita os heróis, mas derrama o seu amor justificador aos fracassados. Assim, a humildade é a virtude básica da vida sob a cruz, do mesmo modo como a soberba é o verdadeiro e o maior pecado. Somente a fé pode perceber essa realidade verdadeira e paradoxal. A fé e a humildade estão intimamente relacionadas. A fé ensina a humildade, pois a fé é “negação de nós mesmos”, total renúncia e confiar na graça de Deus. Nesta negação de todos os direitos humanos, a fé se identifica com a humildade. Ostentar a própria humildade, como numa espiritualidade monástica, não é humildade. (...) ninguém se considera humilde ou se gloria de sê-lo, a não ser o que é o mais orgulhoso. Somente Deus reconhece a humildade, e também somente ele a julga e revela, de sorte que a pessoa jamais tem menos consciência da humildade do que justamente quando é humilde.

Por isso, a busca monástica por humildade não faz nenhum sentido. O caminho da humildade não vai de fora para dentro, mas de dentro para fora. Não podemos apresentar nossa humildade (“nulidade”) como mérito diante de Deus. Humildade é a renúncia consciente a todas as qualidades humanas com as quais poderíamos argumentar. Neste sentido, a humildade tem que preceder à fé, pertence ao alicerce crítico da fé. Justificação pela fé só poderá acontecer onde houver sido posto este alicerce. Neste sentido, humildade, tal como a fé, não é uma virtude. É a renúncia de toda virtude; é saber que não podemos subsistir perante Deus com nossa virtude. “Humildade nada mais é do que o auto-reconhecimento perfeito, que encerra a fé justificante.”9 Este conceito luterano de humildade não se compara em nada ao sentido católico-sinergista.

Todo sinergismo está excluído. Por conseguinte, Lutero conta a cruz e o sofrimento entre os sinais particulares da igreja (nota ecclesiae). Faz parte da natureza da igreja encontrar-se ela no sofrimento; uma igreja da qual não se pode afirmar isso é uma igreja que se tornou infiel à sua destinação. A Igreja pode ser seduzida pela teologia da glória e se transformar em uma religião de boas obras e análises dos desempenhos dos fiéis. Lutero usou, portanto, a idéia de uma forma sofredora da igreja criticamente contra o papado e para julgamento da história da igreja. O Cristo morto e ressurreto está trabalhando em meio à fraqueza da Igreja, preparando-a para mostrar a sua força. De modo similar, o Cristo morto e ressurreto “julga a Igreja onde ela se tornou orgulhosa e triunfante, ou segura e presunçosa, e a chama para voltar ao pé da cruz, onde lembra da maneira misteriosa e secreta que Deus trabalha no mundo”. A teologia da cruz conhece a Deus no próprio lugar onde Ele se ocultou – na cruz, com os seus sofrimentos, todos eles considerados fraqueza e loucura pela teologia da glória. Deus é conhecido e compreendido não na força, mas na fraqueza, não numa demonstração impressionante de majestade e poder, mas na exibição de um amor que se dispõe a sofrer a fim de converter o homem para si: “Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça” (Rm 3.24-25). No momento em que a proclamação eclesial deixa de ser uma pedra de tropeço para o povo, isto é sinal de que ela traiu o evangelho. No escândalo, porém, é que está o “poder do evangelho”. A adoração ou pregação que faz as pessoas sentirem-se bem consigo mesmas, ou satisfeitas com suas palavras e pensamentos arrogantes sobre Deus, é uma adoração da glória que condena nossa alma e nos separa de Deus. Quando a igreja perde sua cruz, “trocando- a pelo aplauso desta era ou a medida de sucesso deste mundo, acaba se deparando com um futuro pouco promissor”, escreve Shaw.

A cruz de Cristo continua sendo ofensiva, como foi na época em que os primeiros cristãos começaram a falar dela como o caminho de Deus para a salvação. E nossa função, como a de João Batista, é apontar para Jesus Cristo crucificado – “Olhem o cordeiro de Deus!” E hoje, nesta era antropocêntrica e narcisista, a Igreja deve prosseguir dizendo ao homem: A si mesmo se negue, e dia a dia tome a sua cruz, e siga a Cristo.

Autor: Gilson Santos é pastor da Igreja Batista da Graça (SP). Graduado em História e Teologia, é escritor, articulista, preletor... 
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