Mostrando postagens com marcador Mariologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mariologia. Mostrar todas as postagens

fevereiro 02, 2019

Imaculada Purificação de Maria


Lutero certamente não via Maria como uma mulher qualquer, suas citações sobre ela são bem difundidas na internet, especialmente por sites católicos querendo mostrar que o que foi pregado nos tempos da reforma não é o que vemos hoje no grosso do protestantismo. Talvez esta visão de Lutero com uma mariologia elevada seja uma surpresa para estes novos ramos que tem surgido, embora de modo algum um choque para nós. 

Um ponto que costuma gerar questionamentos, entretanto, é como ele entendia a santidade de Maria, já que nenhum tratado foi escrito por ele especificamente sobre a questão. Mas podemos ver claramente a visão deste que para nós foi o principal reformador através de seus abundantes escritos.

Lutero tinha uma visão bem elevada sobre Maria, algo bem distante do que podemos ver no protestantismo moderno. Talvez o que mais surpreenda nisto é que em 1522 ele já tinha escrito: 

"Ela é cheia de graça (voll Gnaden), proclamada para ser inteiramente sem pecado, algo muito grande. Pois a graça de Deus a preencheu com tudo de bom, de modo que ela fosse desprovida de todo o mal."

Em um sermão pregado em 1527, no dia da concepção da Mãe de Deus, assim diz um trecho de seu sermão: 

“É uma crença doce e piedosa que a infusão da alma de Maria foi efetuada sem pecado original, de modo que mesmo na infusão de sua alma, ela também foi purificada do pecado original e adornada com os dons de Deus, recebendo uma alma pura infundida por Deus; assim, desde o primeiro momento em que ela começou a viver ela estava livre de todo pecado." 

Lutero expressa até 1530 uma mariologia que aponta para seu nascimento imaculado, isto é, não apenas purificada, mas totalmente livre da concupiscência ( segundo Santo Agostinho é a concupiscência que transmite o pecado original). Isto implica dizer que ele cria a confessava que o momento da infusão da alma quando Maria ainda estava no ventre já foi feito de modo que ela nascesse perfeitamente livre da inclinação para o mal, da desordem. 

A partir de 1530 começamos a ver Lutero amadurecendo a Theologia Crucis, e seu foco cristocêntrico estrito. Com isto, Lutero começa a rever o conceito da imaculada conceição, e , num momento mais maduro de sua caminhada, entende que não deve haver purificação completa sem Cristo, nisto, vemos uma retratação da posição assumida anteriormente, Lutero então defende a tese da imacula purificação de Maria. Ao invés de longos tratados sobre o assunto, Lutero novamente muda a ênfase da mãe para o Messias. Ao invés de discutir a impecabilidade de Maria, ele insistiu que a impecabilidade de Cristo deveu-se inteiramente à obra milagrosa do Espírito Santo durante a concepção. Em 1532 ele pregou: 

"Mãe Maria, como nós, nasceu em pecado de pais pecadores, mas o Espírito Santo a cobriu, santificando e purificando-a para que esta criança nascesse de carne e sangue, mas não com carne e sangue do pecado. O Espírito Santo permitiu à Virgem Maria continuar a ser um verdadeiro ser humano, natural de carne e sangue, assim como nós. No entanto, ele repeliu o pecado de sua carne e sangue para que ela se tornasse a mãe de uma criança pura, não envenenada pelo pecado como nós somos ... Pois, nesse momento em que ela concebeu, ela era uma santa mãe cheia do Espírito Santo e seu fruto é um fruto puro e santo, ao mesmo tempo Deus e verdadeiro homem, em uma só pessoa." Martin Luther, Sermões de Martin Luther, Vol. 3, ed. John Nicholas Lenker. (Grand Rapids: Baker Books, 1996), 291. 

De mesmo modo, na disputa de Lutero sobre a Divindade e a Humanidade de Cristo em 1540, ele afirma: 

Destaco a [premissa] maior: toda pessoa está sujeita aos vícios do pecado original exceto Cristo. Toda pessoa que não é Deus em pessoa, como Cristo, tem concupiscênica; mas o homem Cristo não a tem, porque é Deus em pessoa, e na concepção toda a carne e sangue de Maria foram purificados, de sorte que não restou nenhum pecado. Pois diz bem Isaías [53.9]: "Não se encontrou dolo algum em sua boca." Por outro lado, toda descendência foi viciada, exceto Maria. (Obras Selecionanas vol 2 p.288) 

Assim podemos perceber a posição que Lutero adotou: Maria não poderia ter nascido sem a concupiscência, pois ela encerra todos os homens e mulheres em sua condição natural. Ela nasceu de ventre comum, logo ela também a herdaria. Por outro lado, também afirma que Cristo não veio de um ventre impuro, nem herdou a concupiscência. Como resolver a questão? Maria teve uma dupla purificação, a primeira, em seu nascimento a preparou para receber a segunda e ultima, a purificação final que a livra da concupiscência e por fim, torna-se a pura e santa virgem que dará a luz ao Homem-Deus 

De modo surpreendente, Santo Tomás de Aquino já havia considerado uma purificação de Maria no momento da concepção de Cristo cerca de 300 anos antes: 

Por isso parece melhor pensarmos que, a santificação no ventre materno não isentou a Santa Virgem da concupiscência, na sua essência, mas os seus efeitos ficaram paralisados. (...) Mas, depois, na concepção mesma da carne de Cristo, quando primeiramente devia refulgir a imunidade do pecado, devemos crer que do filho redundou ela para a mãe, ficando então totalmente eliminada a inclinação para o pecado. E já isso estava figurado na Escritura, quando diz: Eis que entrava a glória do Deus de Israel pela banda do oriente, isto é, por meio da Santa Virgem; e a terra estava resplandecente pela presença da sua majestade, isto é de Cristo. (Suma Teologica, pars tertia, Q. 27, art 3) 

Ao contrário de romper com o pensamento cristão até sua época, o que vemos é Lutero seguindo uma linha do escolasticismo ensinado por Santo Tomás de Aquino. Podemos então dizer que Lutero se rebelava contra um dogma de fé católica que é a imaculada conceição de Maria, definido em sua extensão exata apenas em 1854 por Pio IX? 

Em certo sentido sim, se considerarmos que o dogma católico define o momento da graça especial de Deus tenha sido o momento da concepção de Maria, mas, se considerarmos a remoção do pecado original, o que é a essência do pensamento Tomista-Luterano, então ele não negou o dogma. 

Lutero nunca acreditou que o ato divino tivesse ocorrido na concepção de Maria, pois cria que este teria ocorrido em sua animação (o recebimento da alma), o que ele distinguia da concepção (como a maioria dos escolásticos, incluso Santo Tomás o faziam também). O que mudou foi simplesmente o tempo da ação divina, que passa da animação para a concepção de Cristo. 

O que permanece então é sua visão que Maria, por uma ato extraordinário de Deus, foi libertada do pecado original e do pecado atual também. Este pensamento, até onde se possa levar é extremamente católico! 

Considerando tudo, devemos pensar na posição de Lutero a Imaculada Purificação de Maria não como sendo idêntica à posição católica (que se tornou dogma apenas séculos depois de sua morte), nem mesmo idêntica a como o protestantismo mundo a fora tem também atribuído.

***

Para Citar

BUZZATTO. Nathan. Imaculada Purificação de Maria. Disponível em <https://apostoladosjep.blogspot.com/2019/02/imaculada-purificacao-de-maria.html> Desde 02/02/2019

janeiro 01, 2018


Por Diac. Betsy Karkan

Provavelmente isto não é o que você pensa. Em seus escritos devocionais sobre o Magnificat, Lutero meticulosamente resume como devemos e como não devemos honrar esta “Muito Bendita Virgem Mãe”. Lutero não quer dar a ela falsos atributos ou devoção idólatra, nem depreciar “o motivo pelo qual ela é uma pessoa singular dentre todo o gênero humano” como a Mãe de Deus. As Confissões Luteranas (Artigo XXI da Confissão de Augsburgo e Apologia) ajudam Lutero a dar um esboço tríplice de como os cristãos podem apropriadamente honrar Maria e todos os outros santos. Além disso, a forma como os cristãos falam sobre ela reflete o que a Igreja crê sobre a natureza de Cristo e sua ordem com respeito a sua criação.

Para aqueles que acreditam que Maria tornou-se merecedora desta honra por seu próprio mérito ou dignidade, Lutero aponta para as próprias palavras dela em relação a sua humildade e a obra de Deus Pai nela como sua serva. Lutero afirma que ela não é escolhida porque é “mais rica, bela, jovem e culta, gozando da mais honrosa reputação aos olhos de todo o país. Entre os vizinhos e suas filhas ela foi uma moça comum... sem dúvida, em nada diferente como o faz uma pobre doméstica de hoje” [1]. Ela é chamada de bendita não por causa de seu próprio mérito ou dignidade, mas porque Deus lhe concedeu essa dádiva, fazendo esta poderosa obra dentro dela. Lutero afirma: “Ela não diz que irão falar muito bem dela, elogiar sua virtude, exaltar sua virgindade ou humildade ou, quem sabe, entoar um hino para exaltar seu feito. Pelo contrário, falarão somente do fato de Deus ter posto os olhos nela, e se dirá que ela é bem-aventurada por causa disso. Com isso não se louva a ela, mas a graça de Deus para com ela” [2]. Ainda que ele admita que o título “Rainha dos Céus” e “isso está certo”, Lutero adverte o leitor a não cometer exagero [3]. Ele adverte contra aqueles que tornaram um costume diminuir a sua nulidade e humildade, elevando-a uma posição como a de uma deusa, que possuiria atributos divinos iguais a Cristo e digna dessa posição por si própria, menosprezando assim a graça de Deus. Nessa posição exaltada, ela se torna para muitos uma co-redemptrix a quem as pessoas “clamam mais do que a Deus” [4]. Melanchthon concorda: “Ainda que é digníssima das honras mais excelsas, ela não quer, todavia, que a igualemos a Cristo. Quer antes que consideremos e sigamos os exemplos dela” [5].


Em resposta, muitos protestantes vão para o extremo oposto e jogam fora o proverbial bebê com a água do banho, recusando-se a dar qualquer honra a Maria porque isto pode ser visto como idolatria. Isto é um pouco equivocado e parece mais frequentemente motivado pela autojustiça do que um verdadeiro conflito com as Escrituras, com as Confissões e até mesmo com os Pais e Mães da Igreja. Isso levou a uma prática imprópria e preocupante entre muitos protestantes e luteranos, não só em relação a Maria e aos santos, mas também em outras áreas da prática cristã. Se alguma coisa simplesmente parece ou soa “muito católico” na devoção pessoal ou no culto corporativo, então isto é descartado como se nós não possuíssemos as mesmas dádivas que Cristo concedeu a Sua Igreja. Ao invés de aproveitar a riqueza que essas coisas têm contribuído para o culto e a vida devocional dos cristãos por milênios, muitos optam por nada, guiados pelo seu próprio sentimento de piedade.

Lutero, no entanto, não tem receio de dar a Maria toda a honra que ela merece. Com entusiasmo, ele a chama de ”muito bendita Mãe de Deus, bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Cristo” e sim, até “Rainha dos Céus” [6]. Ele também se maravilha com a sua fé e a humildade, perguntando: “Não percebes quanto é maravilhoso esse coração?” [7] Que ela é uma pessoa singular como a Mãe de Deus, Lutero escreve: “Ninguém pode dizer coisa mais sublime dela e a ela, ainda que tivesse tantas línguas como existem folhas e ervas, estrelas no céu e areia no mar” [8]. 


Como bom professor, Lutero não usa esses títulos para dar a ela honra sem motivo. Ele sabe que há algo de grande valor a ser aprendido com eles. Como o Artigo XXI da Apologia declara, ao honrar os santos, os cristãos são “ensinados a dar graças a Deus, a estarem fortalecidos na fé e encorajados a imitar a fé e as virtudes deles” [9]. A maneira como falamos de Maria e da obra de Deus nela também é uma confissão do que nós cremos sobre Cristo e sua obra em nós. Ao dizer que Maria é Mãe de Deus, os cristãos confessam que Cristo é Deus e Homem, duas naturezas unidas em uma pessoa. Em Maria, vemos que Deus escolheu se colocar dentro do seu ventre e somos lembrados de que Ele também escolheu se colocar dentro de nós através de sua Palavra e Sacramentos. Além disso, na nulidade e humildade de Maria, vemos a graça do Senhor e a mão de misericórdia para conosco vis pecadores, como diz São Paulo: “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” [10]. Os cristãos são encorajados de tal maneira, mesmo em nosso estado pobre, desprezado e humilde, que Deus escolheu colocar sua graça e favor sobre nós, semelhante a Maria, ao operar os seus poderosos atos em nós.

- Diaconisa Betsy Karkan serve na Concordia Univeristy-Chicago, EUA.


[1] Lutero, O Magnificat

[2] Ibid

[3] Ibid

[4] Ibid

[5] Apologia, Artigo XXI:27

[6] Lutero, O Magnificat
[7] Ibid

[8] Ibid

[9] Apologia, Artigo XXI:4

[10] 1 Coríntios 1.27


Artigo publicado originalmente em inglês no portal LutheranReformation.Org

Publicado primeiramente por: Teologia e Liturgia Luterana

dezembro 15, 2017

Theotókos e a Cristologia sadia


por G. Shane Morris

Theotokos - termo grego para "portadora de Deus" ou simplesmente, "Mãe de Deus". ´É um termo que muitos, senão a maioria dos ouvidos evangélicos, consideram "demasiado católico", mas a teologia e a história por trás dele são fundamentais para o que nos faz cristãos, e o que faz com que o Advento e o Natal sejam dignos de celebração.

Entendo o receio que os evangélicos tem sobre usar este título. A primeira vista, parece implicar que Maria poderia ser a mãe de Deus Pai e o Espírito Santo, ou que de alguma forma fez com que Deus nascesse. Nada disso reflete o que originalmente significava o termo, e basicamente nenhum cristão alguma vez  creu em tais bobagens. É certo que Jesus é a única pessoa que preexiste a sua mãe. Mas, novamente, também foi o primeiro bebê a preexistir o universo. Há muito mistério na Encarnação e na Trindade. Nada disso muda o que é a mãe, nem muda o fato de que Deus era, verdadeiramente, um bebê.

Os evangélicos também podem ouvir o espetáculo do rio Tibre no termo "mãe de Deus". Eles sabem que, para os católicos romanos, este título está associado a muito mais do que apenas uma boa cristologia. O catolicismo conspira com a concepção imaculada, a virgindade perpétua, a suposição e o papel intercessório e mediador especial que Maria desempenha na teologia romana. Mas o termo não foi cunhado à luz de qualquer um desses. Os protestantes não devem permitir que os abusos posteriores nos impeçam de usar uma palavra que, longe de criar Maria acima de seu Filho, originalmente exaltava o mistério de Deus tornando-se carne, o mistério no coração do Advento e as estações de Natal, a nossa própria fé.

Aqui está a versão rápida da história por trás de "Theotókos": em meados do século V houve um confronto entre dois pastores (que também tinham os patriarcados de suas respectivas cidades), Cirilo de Alexandria e Nestório de Constantinopla. Esses clérigos representavam dois lados em um debate sobre a relação entre a natureza humana de Cristo e a natureza divina.

Ambos os lados alegaram aderir ao Credo Niceno, produto do primeiro Concílio Ecumênico, que condenou a heresia ariana e sistematizou a doutrina da Trindade como todos os cristãos confessam hoje. Nestório concrdou em teoria de que Jesus era verdadeiramente Deus Filho, Segunda Pessoa da Trindade e verdadeiramente homem, mas enfatizou tanto o caráter distintivo das duas naturezas que criou, consequentemente, duas pessoas: Jesus, o homem, e Jesus, o Filho de Deus. A palavra que ele usou para esta aparente (mas não real) união da divindade e da humanidade foi "prosópon", "Um termo usado para as máscaras dos atores no teatro grego". Em outras palavras, Jesus de Nazaré, a pessoa que os primeiros cristãos vira, escutaram, seguiram e tocaram na terra, não era necessariamente a mesma pessoa que Deus Filho. As coisas que se disseram sobre Cristo não podem serem ditas sobre o Filho.

Cirilo de Alexandria se converteu no principal opositor de Nestório e expoente da posição ortodoxa. O que é surpreendente é que ele fez isso utilizando um único título, não para Jesus, mas para sua mãe, a virgem Maria. Esse título era "theotókos" - mãe de Deus. Embora Cirilo não tenha inventado o título (já tinha séculos de idade na época), ele usou brilhantemente para rebater as opiniões heréticas de Nestório sobre Jesus.

Nestório, como você vê, não poderia usar o termo "mãe de Deus", porque não acreditava que o "Deus" em Jesús estava suficientemente ligado ao "homem" para usá-lo como sujeito com os mesmos predicados. Cristo pode ter sentido fome, mas no julgamento de Nestório, Deus Filho não. Cristo poderia ter dormido, mas Deus Filho não podia.  Cristo poderia ter tido uma mãe, mas Deus Filho não. Então Nestório inventou um título alternativo para Maria, que permitia seu ponto de vista: "Christotokos" - mãe de Cristo.

Cirilo e os Alexandrinos não tinham nada disso. E, uma vez que o imperador bizantino Teodósio II convocou o Concílio de Éfeso para resolver o assunto, Nestório foi rapidamente despojado de seu ofício e seus pontos de vista condenados como heresia. A opinião de Cirilo, de que as naturezas de Cristo estavam perfeitamente unidas, mas também permaneciam distintas em cada Pessoa, de modo que poderia dizer com razão que Ele teve fome, dormiu, sofreu, morreu e teve uma mãe, enquanto permanecia completamente como Deus -  passou a informar ao Concílio de Calcedônia em 451.

Por que isso é tão importante? É simples. Se Jesus de Nazaré não era a mesma pessoa que Deus Filho encarnado em um corpo verdadeiramente humano com uma alma verdadeiramente humana, então sua morte na cruz não valeu mais do que a morte de um homem comum (embora justo). Ele não poderia expiar os pecados de ninguém, porque este homem, tão intimamente relacionado na medida do possível com o Filho de Deus, não era o partido ofendido principalmente pelo pecado. Ele não teria nada para perdoar (somente Deus pode perdoar os pecados - Marcos 2.7), nem a morte dele teria valido suficientemente como sacrifício para expiar os pecados de mais de uma pessoa, e muito menos do mundo inteiro. Somente a morte de Deus poderia alcançar esse milagre.

Ainda mais importante, a ressurreição de um Cristo nestoriano significaria pouco para nós. Esta Pessoa que nasceu de uma virgem em Belém, viveu a vida de um judeu piedoso, fez milagres durante três anos, morreu como um criminoso aos trinta e três anos e deixou seu túmulo vazio para ser totalmente e irrevogavelmente divino e humano.

Por quê? Porque em Jesus, Deus tornou-se homem para fazer o que o homem não podia fazer. Não era suficiente para o Criador manter seu lado da aliança que Adão quebrou. Ele também teve que vir e defender o lado de Adão. Ele tomou o que Ele é como Deus e o ligou ao que somos como criaturas, garantindo que não pudéssemos mais cair na pilha de poeira cósmica. Ele colocou sua própria pele em jogo. Ele pagou o que devemos, como se fosse um de nós, e então se levantou com a nossa natureza no reboue, o "primogênito dentre os mortos" (Colossenses 1.18), garantindo a nossa transformação da mesma maneira. Ele deu um passo no cadáver da humanidade caída e o trouxe a vida. E pode fazer tudo isso porque assumiu tudo o que significa ser humano, sem perder nada do que significa ser Deus.

Na linguagem do Oriente, o fim último da salvação é a theosis: a introdução do homem em uma semelhança mais próxima e união com Deus em Cristo. A restauração de todas as coisas realmente significa que Deus e a criação serão novamente reunidos, que o Céu e a Terra serão reconciliados. Em Cristo, essa reconciliação ocorre em uma pessoa.

O debate sobre o nestorianismo não é um mero exercício acadêmico para dividir os cabelos. O Evangelho não significaria nada se Nestório tivesse razão. Se Jesus não fosse completa, total e inequivocamente Deus, sua unidade com a humanidade e a criação seria inútil.

Deve ficar claro agora que o termo "theotokos" não é realmente sobre Maria. É sobre seu filho. É uma declaração profunda sobre a maravilha e o poder da Encarnação. Ligar a Maria, a mãe de Deus, é apenas uma outra maneira de chamar Jesus de Deus, uma maneira que assusta os hereges ao atribuir ao Homem-Deus as características mais humanas: ter uma mãe.

Publicado originalmente em: http://www.patheos.com/blogs/troublerofisrael/2017/12/yes-fellow-protestants-mary-is-the-mother-of-god-its-good-christology/?utm_medium=email&utm_source=Newsletter&utm_campaign=Evangelical&utm_content=46

Minha alma engrandece ao Senhor

Cena do Filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson
Comentário do dia por Martinho Lutero
Doutor e Reformador da Igreja Cristã

Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada. 

Maria não diz que vão falar muito bem dela, elogiar sua virtude, cantar um hino para engrandecer seu feito. Pelo contrário, falarão somente do fato de Deus ter posto os olhos nela. Será dito que ela é bem-aventurada por causa disso. Isso significa dar glória a Deus da maneira mais pura possível. Por isso Maria aponta para o contemplar e diz: "Eis que de agora em diante me dirão bem-aventurada". Isto é, a partir do momento em que Deus contemplou minha nulidade, serei declarada bem-aventurada. Com isso não se louva Maria, mas a graça de Deus para com ela.

Maria não gosta de ouvir os charlatães inúteis, que pregam e escrevem muito a respeito de seu mérito. Todos aqueles que insistentemente atribuem a Maria tanto louvor e honra e lhe impõem tudo isso não estão longe de transformá-la em ídolo, como se ela desejasse ser honrada e se devesse esperar todo bem dela. Maria rejeita isso e quer que Deus seja honrado nela e que, por intermédio dela, todos sejam levados a confiar plenamente na graça de Deus

Então, assim, você ficará maravilhado com a superabundante graça de Deus que olha, recebe e abençoa ricamente e com tão grande misericórdia uma pessoa tão insignificante e nula. A apreciação de tudo isso vai impelir você a amar e honrar Deus por causa de tamanha graça. Você deve sentir-se encorajado a esperar tudo desse Deus que observa com tamanha misericórdia pessoas sem importância, desprezadas, nulas e não as despreza. Assim seu coração será fortalecido em Deus na fé, no amor e na esperança.  Haveria algo mais bonito para ela do que se você, por meio dela, encontrasse Deus e aprendesse a confiar nele? Mesmo que seja desprezado e reduzido a nada onde quer que seja, na vida ou na morte? Maria não quer que você venha a ela, mas que você encontre Deus através dela.

Fonte: 

LUTERO. Martim. Magnificat - O Louvor de Maria. Aparecida: Santuário; São Leopoldo: Sinodal, 2015.