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setembro 09, 2019


Visto que Deus aqui [na morte de Zwinglio] nos mostrou seus terríveis julgamentos, castigando com temor esses erros fatais e, ao mesmo tempo, confirmando a verdade de nossa fé, é hora de cessar todas as disputas e dúvidas. Além disso, essa doutrina não é um artigo, ou tese, além das Escrituras, a invenção do homem, mas estabelecida no evangelho pelas claras e indubitáveis ​​palavras de Cristo, e unanimemente cridas e mantidas em todo o mundo, desde a fundação do Igreja cristã até esta hora, como é mostrado nos escritos dos pais, nas línguas grega e latina, como também em nossa experiência de seus efeitos abençoados, na celebração diária do sacramento; tal testemunho de toda a Santa Igreja Católica, mesmo que não tivéssemos mais nada, seria suficiente para garantir nossa adesão a este artigo e não dar ouvidos a fanáticos selvagens. Pois é terrível e perigoso acreditar ou ouvir o que é contrário ao testemunho ou doutrina unânime de toda a santa igreja católica, mantida e publicada em todo o mundo durante mil e quinhentos anos. Preferia ter contra mim o testemunho de todos os fanáticos e toda a sabedoria dos imperadores, reis e príncipes, do que um pingo ou til de toda a Santa Igreja Católica. Pois artigos de fé assim mantidos por unanimidade e universalmente não podem ser insignificantes, como bulas papais, decretos imperiais ou mesmo tradições humanas de concílios ou de pais.

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(WA 30-III, 552; quoted in Gustavus Pfizer, The Life of Luther, with Notices and Extracts of his Popular Writings [translated by T. S. Williams] [London: The Society for the Promotion of Popular Instruction, 1840], p. 160)

setembro 03, 2019

Breve Exposição dos Dez Mandamentos


No dia 04 de Setembro a Igreja Luterana comemora Moisés, autor dos cinco primeiros livros da Sagrada Escritura. Para a festa de Moisés, segue a exposição que o bem-aventurado Dr. Martinho Lutero faz dos 10 Mandamentos no Catecismo Menor:

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Primeiro Mandamento
Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.

O que significa isso? 
Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de todas as coisas. 

Segundo Mandamento
Não tomarás em vão o nome do Senhor, teu Deus, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.

O que significa isso? 
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, em seu nome não amaldiçoar, jurar, praticar a feitiçaria, mentir ou enganar; mas devemos invocá-lo em todas as necessidades, orar, louvar e agradecer.

Terceiro Mandamento
Santificarás o dia do descanso.

O que significa isso?
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não desprezar a pregação e a sua palavra; mas devemos considerá-la santa, gostar de a ouvir e estudar.

Quarto Mandamento
Honrarás a teu pai e a tua mãe, para que vás bem e vivas muito tempo sobre a terra.

O que significa isso?
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não desprezar, nem irritar nossos pais e superiores; mas devemos honrá-los, servi-los, obedecer-lhes, amá-los e querer-lhes bem.

Quinto Mandamento
Não matarás.

O que significa isso?
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não causar dano ou mal algum ao nosso próximo em seu corpo; mas devemos ajudá-lo e favorecê-lo em todas as necessidades corporais.

Sexto Mandamento
Não cometerás adultério.

O que significa isso?
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, viver uma vida casta e decente em palavras e ações, e cada qual ame e honre seu consorte.

Sétimo Mandamento
Não furtarás.

O que significa isso?
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não tirar ao nosso próximo o dinheiro ou os bens, nem nos apoderar deles por meio de mercadorias falsificadas ou negócios fraudulentos; mas devemos ajudá-lo a melhorar e conservar os seus bens e o seu meio de vida.

Oitavo Mandamento
Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

O que significa isso?
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não mentir com falsidade, trair, caluniar ou difamar o próximo; mas devemos desculpá-lo, falar bem dele e interpretar tudo da melhor maneira.

Nono Mandamento
Não cobiçarás a casa do teu próximo.

O que significa isso?
Devemos temer e amar e Deus e, portanto, não pretender adquirir, com astúcia, a herança ou a casa do próximo, nem nos apoderar dela sob aparência de direito; mas devemos ajudá-lo e servi-lo para conservá-la.

Décimo Mandamento
Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem os seus empregados, nem o seu gado, nem coisa alguma que lhe pertença.

O que significa isso?
Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não apartar, desviar ou aliciar a mulher do próximo, os seus empregados ou o seu gado; mas devemos aconselhá-los para que fiquem e cumpram o seu dever.

O que diz Deus de todos esses mandamentos?

Ele diz: "Eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.”

O que significa isso?
Deus ameaça castigar todos os que transgridem estes mandamentos; por isso devemos temer a sua ira e não transgredi-los. Mas ele promete graça e todo o bem aos que os guardam. Por isso mesmo devemos amá-lo, confiar nele e de boa vontade cumprir os seus mandamentos. 

Extraído de “Catecismo Menor de Lutero” ©

abril 17, 2019

Meditações na Semana Santa - Quarta Feira

Do Bem-aventurado Dr. Martinho Lutero, Pastor e Reformador da Igreja
Devocionário Castelo Forte de 25/02/83

(Séc XVI)

Em todas as tentações devemos olhar para a imagem de Cristo. Pois Cristo avança, por mais que lhe doa, e se faz corajoso. Assim devemos pedir que também a nós ele dê coragem e ânimo, para que aprendamos a ser fortes em meio à fraqueza e sair vitoriosos no dia da adversidade. Assim, Cristo vem a nós não na forma duma imagem, mas ele implante em nós toda a sua coragem, para que também possamos ficar firmes. Por isso, venha o que vier, dificuldades e problemas de qualquer espécie, não devemos perder de vista que Cristo, nosso príncipe, enfrentou o mesmo e, corajosamente, saiu vitorioso. Por isso, também devemos pedir que ele nos dê coragem, para que, em meio a tais adversidades, sejamos fortalecidos e vençamos a morte. De modo semelhante, Paulo nos apresenta Cristo em todas as suas epístolas. Em primeiro lugar, como exemplo que devemos seguir; depois, como aquele que nos dá o espírito e coragem que ele tem.  Esta é a verdadeira doutrina cristã. Isso nos deve ensinar que o uso que devemos fazer da paixão de Cristo e que ninguém pode experimentá-lo devidamente, a menos que tenha estado em dificuldades e se exercitado com Cristo porque recebeu de Cristo a força para resistir. É assim que devemos entrar em Cristo e fazer uso dele.

janeiro 31, 2019

Uma carta fictícia de Lutero


Este post é um trecho de Sincerely, Luther, nosso próximo conjunto de cartas fictícias na perspectiva de Lutero.

Letra 1

Meus amados irmãos e irmãs no Novo Mundo: Saúdo-vos do meu lugar de descanso. Alguns pensam que o local de descanso seja em Wittenberg, na Alemanha. Garanto-lhes que meu lugar de descanso é muito superior a Wittenberg.

Devo dizer que estou envergonhado por vocês terem usado o meu nome para se referir à Igreja de Jesus Cristo. Infelizmente, o uso do meu nome em referência à igreja começou ainda nos meus dias. Eu me opus, tanto quanto hoje. Me lembro de escrever para o meu amado povo em Wittenberg quando eu estive ausente deles por vários meses. Uma rebelião eclodiu entre meus partidários no final de dezembro de 1521. Isso me entristeceu muito. Escrevi-lhes uma longa carta, Uma Advertência Sincera de Martinho Lutero a Todos os Cristãos para Proteger contra a Insurreição e a Rebelião . Nessa carta, escrevi: “Em primeiro lugar, peço que os homens não façam referência ao meu nome; que eles se chamem cristãos, não luteranos.” Segui acrescentando: “Como então eu - pobre e fétida comida de vermes fedorenta que sou - chego a ter homens chamando os filhos de Cristo pelo meu nome miserável?” Essa rebelião (Eu lhe falarei mais sobre isso adiante) me fez escrever um tratado inteiro, Recebendo Ambos os Tipos no Sacramento . Nesse tratado eu disse: “É verdade que, por qualquer consideração de corpo ou alma, você nunca deve dizer: sou luterano, ou papista. Pois nenhum deles morreu por você ou é seu mestre. Somente Cristo morreu por você, somente ele é seu mestre, e você deve se confessar um cristão”. Infelizmente, faz pouca diferença o que eu penso; as pessoas farão o que estão acostumadas a fazer, e meu constrangimento permanece.

No entanto, eu sinto um perigo no uso do nome luterano. Você pode estar tão atraído pelo meu nome que esqueceu a prioridade de Jesus Cristo, o Senhor da Igreja. Você pode até usar meu nome para se desligar dos outros na comunhão dos santos. Eu sofro no meu túmulo porque há aqueles que se identificam com o meu nome que não são mais cristãos do que o próprio Satanás. Eles não adoram a Deus nem recebem o santo sacramento do corpo e do sangue de Cristo. Eles nem ouvem a Palavra, lêem a Palavra, não crêem na Palavra, nem vivem nem morrem pela Palavra de Deus. Mesmo que eles usem meu nome, sejam amaldiçoados, porque eles já são.

Eu me identifiquei acima com a ortografia latina do meu nome, que usei ocasionalmente durante minha carreira profissional. (Eu uso o termo "carreira profissional" apenas porque você entenderá o que quero dizer com essa frase. Eu nunca usei isso, e nunca o farei! Meu nome era um chamado de Deus para ser uma testemunha fiel da Palavra de Deus e de Jesus Cristo, meu Senhor, nunca considerei que meu chamado fosse uma profissão. Meu primeiro nome me foi dado por meus pais quando me levaram à Igreja dos Santos Pedro e Paulo em Eisleben, Alemanha (a cidade em que nasci em 10 de novembro) para ser batizado pelo Pastor Bartholomy Rennebecher no dia de St. Martinho, 11 de novembro de 1483.

O nome da família foi escrito de várias maneiras diferentes. Meu avô Heine Luder soletrou o nome com um d . Outras grafias no meu tempo, incluindo minhas próprias grafias variantes, eram Ludher, Lueder, Lutter e Lauther. Depois de 15 de outubro de 1517, soletrei ocasionalmente meu nome Eleutério (o livre). Uma das primeiras vezes em que usei essa grafia foi numa carta escrita em janeiro de 1518 a meu amigo Spalatino, capelão na corte de meu soberano, o príncipe Frederico.

Eu deveria contar um pouco sobre meus pais. Preciso falar pouco sobre minha mãe, Margarethe, porque pouco se sabe sobre e seus dias. Talvez isso seja minha culpa, porque raramente falei dela e quase não fiz referência a meus ancestrais do lado materno da família.

Meu pai, Hans (chamado Gross-Hans para distingui-lo de seu irmão com o mesmo nome, que se chamava Klein-Hans), era mineiro. Quando eu era muito jovem, meu pai trabalhava nas minas ao redor de Eisleben. Eu tinha menos de um ano quando minha família se mudou para Mansfeld. Se tiver dificuldades com a geografia da Alemanha, talvez um dos seus amigos alemães possa ajudá-lo. Em resumo, essas duas cidades são principalmente sul e um pouco a oeste de Berlim.

Em Mansfeld, meu pai trabalhava como proprietário de uma mina. Nós não éramos ricos, nem éramos da classe trabalhadora do meu dia. No entanto, minha família tinha uma riqueza modesta em comparação aos meus vizinhos.

Passei meus primeiros anos em Mansfeld. Vou ter que falar sobre isso em outra ocasião. Agora devo retornar ao meu descanso, e você deve retornar ao seu trabalho de testemunhar a verdade salvadora de Deus contra todas as mentiras que as forças das trevas apresentam a você e ao seu próximo em seus dias, assim como essas mesmas forças estavam presentes nos dias da minha vida. 

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dezembro 30, 2018

Lutero sobre o Descanso da Alma

As almas dormem na palavra de Deus

João 5.24-29

Aqui surge a seguinte questão: se é certo que as almas vivem e descansam em paz, que tipo de vida ou que descanso é esse? Não foi da vontade de Deus que tivéssemos resposta a essa pergunta na presente vida. Basta-nos saber que as almas, ao deixarem os corpos, não correm o risco de sofrerem as dores e os tormentos infernais, mas que lhes está preparado um lugar onde dormem em paz. Mesmo assim, o sono ou descanso na vida futura é diferente do sono ou descanso nesta vida. Pois, nesta vida, quando chega a noite, a pessoa, cansada do trabalho diário, recolhe-se ao quarto para dormir em paz e descansar, e não toma conhecimento de desgraças, incêndios ou assassinatos. Com a alma é diferente. Ela vigia, tem visões e ouve a voz dos anjos e do próprio Deus. Nesse sentido, na vida futura, o sono é mais profundo do que nesta vida e, mesmo assim, a alma vive na presença de Deus. Com essa figura eu me dou por satisfeito. Assim, depois da morte, a alma vai para seus aposentos e sua paz e, dormindo, não percebe o seu sono, mas, mesmo assim, Deus cuida da alma que vigia. Assim, Deus pode despertar Moisés e Elias e fazer com que vivam. Mas como pode ser isso? Não sabemos. Devemos contentar-nos com a figura do sono e com a palavra de Deus, dizendo que se trata de um sono. Tal como a mãe coloca seu filhinho no berço, não para que morra, e sim, para que durma e descanse tranquilamente, assim, também, antes de Cristo e, especialmente, depois de Cristo, todas as almas dos fiéis foram para junto de Cristo, onde estão seguras.

agosto 05, 2018

O pão nosso de cada dia nos dá hoje






Por Nathan Buzzatto

Podemos dizer que esta quarta petição do Pai Nosso é sem dúvidas uma das passagens mais sublimes do novo testamento. Para mim, ela simplesmente resume todas as nossas necessidades para esta vida e para a eternidade de modo sublime.

Certamente que Deus tem providenciado o sustento diário para nós todos os dias, sejamos seus mais piedosos filhos ou o pior dos pecadores. Mas pedimos também por esta petição não apenas que nos seja dado, mas que possamos reconhecer isto como dádiva divina. Isto nos remete para o comissionamento dado por Cristo em sua ascensão aos céus “Ensinando-os a reconhecer todas as coisas que vos tenho mandado” (Mt 28.28-29). Nesta pequena frase aprendemos a reconhecer que nosso pão é acima de tudo, dádiva divina.

Mas seria isto somente o simples pão? De fato, não falamos apenas disto, mas de tudo o que entendemos ser pão, ou melhor definido nas palavras de Lutero:

“O que significa o pão de cada dia? Tudo o que pertence ao sustento e às necessidades da vida, como por exemplo: comida, bebida, vestes, calçados, casa, lar, campos, gado, dinheiro, bens, cônjuge fiel, filhos piedosos, empregados fiéis, superiores piedosos e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, leais amigos, bons vizinhos e coisas semelhantes.”

Com toda razão colocamos por pão tudo o que é essencial à vida, não somente a uma mera sobrevivência, mas a uma vida alegre com amigos leais, bons vizinhos, bom governo, cônjuge fiel...

Neste momento é inevitável pensar que Lutero se adiantou alguns séculos ao pensamento de John Piper, famoso teólogo que diz que devemos viver para a maior glória de Deus, e que o glorificamos também com nossa alegria. Louvar a Deus pelos agrados que temos é viver para a glória de Deus, e reconhecer isto como o pão nosso de cada dia, é entender a oração de Jesus com um sentido muito mais sublime.

Basicamente estamos pedindo a Deus que nos ensine a reconhecer todas as coisas com ação de Graças a cada dia. E que preciosa lição é esta! Somos tão miseravelmente falhos que podemos tomar os mais grandiosos dons de Deus como algo comum e sem valor, simplesmente por termos todos os dias.

O povo que saiu do Egito caiu neste erro! Eles viam colunas de fogo todas as noites, caminhavam no deserto escaldante sempre à sombra de uma nuvem com roupas que nunca se desgastavam, comiam do pão que descia do céu em uma infinita variedade de receitas que deviam ter inventado todo este tempo, mas ainda assim... se acostumaram e passaram a reclamar ao invés de reconhecer o sustento vindo de Deus.

Somos ainda aqueles adolescentes mimados que mesmo recebendo uma mesada todo mês sem ter feito nada para merecer, ainda reclamamos que não temos o suficiente.
 
Pedirmos a Deus “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje” é uma lição de contentamento!.

Mas talvez possamos nos dobrar a outro sentido para este pão. Na verdade, é neste outro sentido que está a verdadeira maravilha do texto.

Ao nos lembrarmos que os Evangelhos de Marcos e Lucas, onde encontramos a oração do Pai Nosso transcrita, foram escritos, não em nossa língua, mas em grego, temos uma palavra incomum “Ton arton ton imeron epiousion dos imin simeron” Assim aparece o texto. O problema é esta palavra de difícil interpretação “epiousion”. Trata-se do que linguisticamente chamamos de “hápax legomenon”, ou seja, um termo que não se repete no mesmo contexto, ou no caso, esta palavra não aparece em nenhum outro lugar de qualquer texto escrito em grego antigo. Isto é importante, pois usar uma palavra tão incomum já aponta para o fato de que estes homens estavam tentando traduzir em palavras algo que superava tudo o que eles poderiam explicar.

Sabemos que esta palavra tão incomum ocupa na frase a posição de um adjetivo, ou seja, é uma qualidade para “arton” (pão). Entretanto, este adjetivo é antecedido por um artigo, “ton”, então, se comporta como um substantivo, um nome.

Com esta dificuldade, esta palavra foi simplesmente traduzida como o pão diário, ou o pão de cada dia. Entretanto, em nenhum outro lugar esta palavra foi usada, em todos os demais textos do Novo Testamento, sempre que algo era dito nesta frequência, a palavra diária usa outro termo “himeran”, termo bem comum no grego.

Então, se já havia uma palavra comum para “pão diário” porque precisaram usar uma palavra nunca antes usada e que nunca mais foi encontrada?

Podemos então voltar até as primeiras gerações de cristãos, que certamente teriam maiores condições de entender esta linguagem, e encontramos São Jerônimo no ano 382 da era cristã com a difícil missão de traduzir esta passagem para o Latim. Jerônimo, atualizando o latim antigo para uma versão mais condizente com sua época, buscou no grego o significado original, transpassando-o para o latim corrente em sua época. Vendo este dilema ele traduziu então de duas formas esta palavra, em Mateus 6.11, Jerônimo fez uma análise morfológica, buscando a raiz da palavra e assim a traduziu como “supersubstantialem”, apontando para uma substância sobrenatural, e no texto de Lucas, a mesma palavra foi traduzido por “quotidiamum”, simplesmente dizendo ser um pão diário.

Sem dúvidas há muitas formas de entendermos o “pão nosso de cada dia”, mas esta é uma delas: “Epi-Ousion”, uma super substância, um pão que não é nada parecido com os demais. O mais próximo em nossa língua seria “o pão nosso sobrenatural dá-nos hoje” De fato, os Santos Pais entendiam que esta petição era na verdade uma prece eucarística:

“O sacramento dos fiéis, necessário agora, não, porém, para a felicidade deste tempo, mas para alcançarmos a felicidade eterna.” (Santo Agostinho)

Vale lembrar, este termo é de difícil tradução e o entendimento como sendo apenas uma alusão ao pão quotidiano é perfeitamente cabível. Tanto que assim foi mantido na tradução de Jerônimo, e mesmo nas missas celebradas em latim do antigo rito, ainda o texto usado é o de Lucas onde a palavra utilizada é esta “quotidianum”.

Podemos sim ver “epiousion” como uma recordação do Maná no deserto, como vemos em Êxodo 16.4, o pão suficiente para o dia, como de fato podemos ler em algumas versões. Ainda assim, encontramos suporte para entendermos este pedido pelo “pão sobrenatural” em Agostinho, Cirilo de Jerusalém, Cipriano de Cartago e São João Cassiano (embora contraditado por Orígenes).

Tomado neste sentido, o pão sobrenatural nos aponta para o Pão da Vida, o próprio Cristo, “dá-nos hoje” neste caso, aponta para o Dia do Senhor, a celebração da instauração do reino de Deus, este grande dia que sua igreja aqui na terra aguarda e que provamos um pouco quando tomamos parte na mesa do Senhor com os irmãos na fé a cada comunhão na Santa Ceia. Faz então completo sentido primeiro pedirmos “venha o teu reino”, e depois continuarmos, pedindo o pão sobrenatural de Deus.

Assim desde as primeiras gerações de cristãos entenderam, o pão nosso de cada dia é o pão necessário para a existência, este é o pão da comunhão, este é Cristo! O fato dos autores dos Evangelhos precisarem criar uma nova palavra para explicar isto nos aponta para o fato de estarem tentando explicar alguma coisa realmente nova, que nunca antes alguém tinha presenciado para que esta palavra já existisse.

Inicialmente Lutero também na sua tradução para o alemão tinha mantido a palavra “supersubstancial” conforme os textos apontam, em 1528 alterou a palavra para “täglich”, ou “diário” como encontramos até hoje. O motivo não foi ter discordado de se tratar de uma petição eucarística, mas na verdade por conta de uma corrente em sua época que via nesta petição a menção apenas do pão usando assim este texto para justificar a divisão do sacramento, servindo-se apenas o pão. A explicação de que não se deveria proceder assim foi inclusa até mesmo na Confissão de Augsburgo.

Temos então um pedido escatológico: pedimos a antecipação do mundo porvir!

Não seria uma contradição Jesus nos ensinar a pedir pão todos os dias e logo depois, em Mateus 6.31 dizer para não nos preocuparmos com mantimento que Deus cuidaria de nossas necessidades?

Muitas são as interpretações desta passagem difícil, e com isso, as possibilidades de se traduzir o texto. Mas como esta passagem nos leva a pensar, com um simples pedido dizemos:

O mantimento nosso de cada dia nos dai hoje

As alegrias nossas de cada dia nos dai hoje

Nos dê o suficiente para nosso dia

Nos dê Cristo todos os dias!

janeiro 01, 2018


Por Diac. Betsy Karkan

Provavelmente isto não é o que você pensa. Em seus escritos devocionais sobre o Magnificat, Lutero meticulosamente resume como devemos e como não devemos honrar esta “Muito Bendita Virgem Mãe”. Lutero não quer dar a ela falsos atributos ou devoção idólatra, nem depreciar “o motivo pelo qual ela é uma pessoa singular dentre todo o gênero humano” como a Mãe de Deus. As Confissões Luteranas (Artigo XXI da Confissão de Augsburgo e Apologia) ajudam Lutero a dar um esboço tríplice de como os cristãos podem apropriadamente honrar Maria e todos os outros santos. Além disso, a forma como os cristãos falam sobre ela reflete o que a Igreja crê sobre a natureza de Cristo e sua ordem com respeito a sua criação.

Para aqueles que acreditam que Maria tornou-se merecedora desta honra por seu próprio mérito ou dignidade, Lutero aponta para as próprias palavras dela em relação a sua humildade e a obra de Deus Pai nela como sua serva. Lutero afirma que ela não é escolhida porque é “mais rica, bela, jovem e culta, gozando da mais honrosa reputação aos olhos de todo o país. Entre os vizinhos e suas filhas ela foi uma moça comum... sem dúvida, em nada diferente como o faz uma pobre doméstica de hoje” [1]. Ela é chamada de bendita não por causa de seu próprio mérito ou dignidade, mas porque Deus lhe concedeu essa dádiva, fazendo esta poderosa obra dentro dela. Lutero afirma: “Ela não diz que irão falar muito bem dela, elogiar sua virtude, exaltar sua virgindade ou humildade ou, quem sabe, entoar um hino para exaltar seu feito. Pelo contrário, falarão somente do fato de Deus ter posto os olhos nela, e se dirá que ela é bem-aventurada por causa disso. Com isso não se louva a ela, mas a graça de Deus para com ela” [2]. Ainda que ele admita que o título “Rainha dos Céus” e “isso está certo”, Lutero adverte o leitor a não cometer exagero [3]. Ele adverte contra aqueles que tornaram um costume diminuir a sua nulidade e humildade, elevando-a uma posição como a de uma deusa, que possuiria atributos divinos iguais a Cristo e digna dessa posição por si própria, menosprezando assim a graça de Deus. Nessa posição exaltada, ela se torna para muitos uma co-redemptrix a quem as pessoas “clamam mais do que a Deus” [4]. Melanchthon concorda: “Ainda que é digníssima das honras mais excelsas, ela não quer, todavia, que a igualemos a Cristo. Quer antes que consideremos e sigamos os exemplos dela” [5].


Em resposta, muitos protestantes vão para o extremo oposto e jogam fora o proverbial bebê com a água do banho, recusando-se a dar qualquer honra a Maria porque isto pode ser visto como idolatria. Isto é um pouco equivocado e parece mais frequentemente motivado pela autojustiça do que um verdadeiro conflito com as Escrituras, com as Confissões e até mesmo com os Pais e Mães da Igreja. Isso levou a uma prática imprópria e preocupante entre muitos protestantes e luteranos, não só em relação a Maria e aos santos, mas também em outras áreas da prática cristã. Se alguma coisa simplesmente parece ou soa “muito católico” na devoção pessoal ou no culto corporativo, então isto é descartado como se nós não possuíssemos as mesmas dádivas que Cristo concedeu a Sua Igreja. Ao invés de aproveitar a riqueza que essas coisas têm contribuído para o culto e a vida devocional dos cristãos por milênios, muitos optam por nada, guiados pelo seu próprio sentimento de piedade.

Lutero, no entanto, não tem receio de dar a Maria toda a honra que ela merece. Com entusiasmo, ele a chama de ”muito bendita Mãe de Deus, bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Cristo” e sim, até “Rainha dos Céus” [6]. Ele também se maravilha com a sua fé e a humildade, perguntando: “Não percebes quanto é maravilhoso esse coração?” [7] Que ela é uma pessoa singular como a Mãe de Deus, Lutero escreve: “Ninguém pode dizer coisa mais sublime dela e a ela, ainda que tivesse tantas línguas como existem folhas e ervas, estrelas no céu e areia no mar” [8]. 


Como bom professor, Lutero não usa esses títulos para dar a ela honra sem motivo. Ele sabe que há algo de grande valor a ser aprendido com eles. Como o Artigo XXI da Apologia declara, ao honrar os santos, os cristãos são “ensinados a dar graças a Deus, a estarem fortalecidos na fé e encorajados a imitar a fé e as virtudes deles” [9]. A maneira como falamos de Maria e da obra de Deus nela também é uma confissão do que nós cremos sobre Cristo e sua obra em nós. Ao dizer que Maria é Mãe de Deus, os cristãos confessam que Cristo é Deus e Homem, duas naturezas unidas em uma pessoa. Em Maria, vemos que Deus escolheu se colocar dentro do seu ventre e somos lembrados de que Ele também escolheu se colocar dentro de nós através de sua Palavra e Sacramentos. Além disso, na nulidade e humildade de Maria, vemos a graça do Senhor e a mão de misericórdia para conosco vis pecadores, como diz São Paulo: “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” [10]. Os cristãos são encorajados de tal maneira, mesmo em nosso estado pobre, desprezado e humilde, que Deus escolheu colocar sua graça e favor sobre nós, semelhante a Maria, ao operar os seus poderosos atos em nós.

- Diaconisa Betsy Karkan serve na Concordia Univeristy-Chicago, EUA.


[1] Lutero, O Magnificat

[2] Ibid

[3] Ibid

[4] Ibid

[5] Apologia, Artigo XXI:27

[6] Lutero, O Magnificat
[7] Ibid

[8] Ibid

[9] Apologia, Artigo XXI:4

[10] 1 Coríntios 1.27


Artigo publicado originalmente em inglês no portal LutheranReformation.Org

Publicado primeiramente por: Teologia e Liturgia Luterana

dezembro 15, 2017

Minha alma engrandece ao Senhor

Cena do Filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson
Comentário do dia por Martinho Lutero
Doutor e Reformador da Igreja Cristã

Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada. 

Maria não diz que vão falar muito bem dela, elogiar sua virtude, cantar um hino para engrandecer seu feito. Pelo contrário, falarão somente do fato de Deus ter posto os olhos nela. Será dito que ela é bem-aventurada por causa disso. Isso significa dar glória a Deus da maneira mais pura possível. Por isso Maria aponta para o contemplar e diz: "Eis que de agora em diante me dirão bem-aventurada". Isto é, a partir do momento em que Deus contemplou minha nulidade, serei declarada bem-aventurada. Com isso não se louva Maria, mas a graça de Deus para com ela.

Maria não gosta de ouvir os charlatães inúteis, que pregam e escrevem muito a respeito de seu mérito. Todos aqueles que insistentemente atribuem a Maria tanto louvor e honra e lhe impõem tudo isso não estão longe de transformá-la em ídolo, como se ela desejasse ser honrada e se devesse esperar todo bem dela. Maria rejeita isso e quer que Deus seja honrado nela e que, por intermédio dela, todos sejam levados a confiar plenamente na graça de Deus

Então, assim, você ficará maravilhado com a superabundante graça de Deus que olha, recebe e abençoa ricamente e com tão grande misericórdia uma pessoa tão insignificante e nula. A apreciação de tudo isso vai impelir você a amar e honrar Deus por causa de tamanha graça. Você deve sentir-se encorajado a esperar tudo desse Deus que observa com tamanha misericórdia pessoas sem importância, desprezadas, nulas e não as despreza. Assim seu coração será fortalecido em Deus na fé, no amor e na esperança.  Haveria algo mais bonito para ela do que se você, por meio dela, encontrasse Deus e aprendesse a confiar nele? Mesmo que seja desprezado e reduzido a nada onde quer que seja, na vida ou na morte? Maria não quer que você venha a ela, mas que você encontre Deus através dela.

Fonte: 

LUTERO. Martim. Magnificat - O Louvor de Maria. Aparecida: Santuário; São Leopoldo: Sinodal, 2015.

maio 11, 2017


A abordagem luterana à doutrina da eleição é de que as passagens da Escritura sobre o tema foram escritas para nossa garantia de que em Cristo a salvação está nas mãos de Deus, ou seja, inteiramente fora de nossos poderes. Nós não escolhemos Cristo, mas Cristo nos escolheu. 

Nós sustentamos que os eleitos são aqueles que, no final, serão salvos, mas isso não significa que podemos especular e ir além do que está oculto para nós em relação à inescrutável vontade de Deus. O que isso quer dizer? Quer dizer que seria uma abordagem racional assumir que a salvação é uma obra completamente de Deus e que a eleição se destina somente a alguns, e consequentemente Deus não deseja salvar todos. 

Lutero rejeitou essa ideia. Ele advertiu contra tal pensamento em seu De Servo Arbítrio (Utilidade Pública: cuidado com versões condensadas dessa obra que são distribuídas por ai), seus sermões, seu Comentário sobre o Gênesis, etc. Para ele, o Deus oculto deve ser distinguido do Deus revelado. O Deus revelado é o Deus que se encarnou através do nascimento virginal, obedeceu a lei em nosso lugar, e pagou por nossos pecados na Cruz. Este é Jesus, o Deus que se revelou no Evangelho que vem a nós na Palavra e nos Sacramentos. Ele deseja salvar a todos, embora nem todos sejam salvos. 

Por que alguns são salvos e outros não, se Deus quer salvar todos e a salvação é, do começo ao fim, uma obra de Deus?

É aí que Lutero e as Confissões Luteranas afirmam que devemos nos calar, visto que é proibido para nós especular para além do que nos foi revelado (Deus absconditus). Para o luteranismo, o Deus oculto é o Deus da lei, que se esconde de nós pecadores, já que ninguém pode vê-Lo e continuar vivendo. Assim, a distinção entre o Deus escondido e o Deus revelado está ligada à distinção entre lei e evangelho. O evangelho é Cristo crucificado por nós. E essa é a Palavra de salvação: que Cristo vem a todos com a Graça. E a culpa recai sobre aqueles que não O recebem. Em outras palavras, enquanto a salvação pertence a Deus, a condenação está inteiramente em nossas mãos. Não devemos duvidar de que Deus deseja salvar a todos. Como li por aqui recentemente: Para ir pro inferno é preciso passar sobre o cadáver do Filho de Deus e ignorá-lo.

Lutero se recusou a abraçar a ideia de que se Deus não salva a todos, Ele deve ser um Deus fraco, ou um Deus injusto. Basta-nos saber que Aquele que nos elege é capaz de nos converter e nos manter salvos. 

Para Lutero, manter a salvação também é obra que pertence somente a Deus. Na sua opinião, mesmo que a mensagem do Evangelho seja rejeitada após anúncio da Palavra e Sacramento, ela (a vontade de Deus em salvar) ainda permanece. Para ser verdadeira, a vontade de Deus não depende de nossa fé. Então, em que sentido isso é uma segurança para nós?

Para Lutero, o que é verdadeiro para todos (a expiação de Deus, vontade de salvar/graça) torna-se objetivamente verdade para nós pessoalmente. Em outras palavras, só podemos saber que Cristo morreu por cada um de nós, se Ele tiver morrido por todos. Do mesmo modo, só podemos saber que Jesus deseja nos salvar com Sua graça, se Ele realmente quer fazê-lo por todos. 

Lutero rejeitou qualquer idéia de que podemos ter certeza de que Deus quer nos salvar ou que Cristo morreu por nós, se olharmos para nossa própria fé. Para ele, isso seria fé na fé. Na sua opinião, a fé deve olhar para fora. Olhar para onde? Para a salvação que está em Cristo, e nos é oferecida na Palavra e nos Sacramentos. 

Para ele, a salvação, sendo obra de Deus, nos diz que não podemos olhar para dentro de nós e nos assegurar se somos honestos com nós mesmos. Ao olharmos para nós mesmos, só poderemos ver um pecador que precisa ser redimido, o que não é garantia. Portanto, a fé só deve se apegar ao que Deus dá e oferece na Palavra e no s Sacramentos, que é a obra objetiva de Cristo sendo oferecida a todos. 

E isso me leva ao meu próximo ponto: a eleição, segundo o luteranismo, é tanto cristológica quanto sacramental. Na visão de Lutero, nossa predestinação brilha quando podemos dizer: "Eu sou batizado, sou filho de Deus por causa do meu batismo". Ou quando as palavras de absolvição são ditas para assegurar que o perdão que Cristo conquistou na Cruz por nós ainda está conosco. Ou quando Ele entrega Seu Corpo e Sangue na Eucaristia. Ele está verdadeiramente presente na Palavra e nos Sacramentos para entregar a si mesmo e Seu perdão como garantia objetiva e externa. E podemos confiar que, em Cristo dado de fora de nós na Palavra e nos Sacramentos, temos a certeza de que somos eleitos. Eleitos em Cristo!

Para Lutero, se uma pessoa cair da graça e se perder, não significa que Deus não desejou salvá-la. As passagens das Escrituras que advertem contra a apostasia são realmente passagens da lei para alertar um crente que caiu no pecado e se sente confortável. A intenção é afligi-lo com a necessidade de contrição e desejo de perdão. As passagens de garantia de salvação (incluindo as da eleição) são realmente passagens do evangelho que asseguram e consolam aqueles que sentem pesar pelo seu pecado e desejam o perdão que o evangelho oferece. 

Lei e Evangelho também se aplicam a como pregar aos perdidos. Lei e Evangelho andam de mãos dadas. O perdido precisa de lei para saber que precisa de perdão, e precisa ouvir o evangelho que mostra Deus gracioso e misericordioso.

Por fim, achamos conforto somente em Cristo crucificado por nossos pecados. É em Cristo que encontramos nossa predestinação. O que passa disso, é especulação e doutrinas de homens, baseadas em conclusões racionalistas e anti-escriturísticas. 

Equipe SJEP

abril 29, 2017


Bem-aventurado Martinho Lutero, Doutor das Sagradas Escrituras e Reformador da Igreja
Comentário de 1 Corintios 1.27

Cristo inicia seu reino através de leigos que não tinham instrução alguma e simples pecadores que não tinham estudado as Escrituras Sagradas. Parece absurdo que a igreja cristã começou com aqueles pobres coitados e com a escandalosa pregação de Jesus de Nazaré, crucificado, ridicularizado, cuspido, caluniado, maltratado de todo mais vergonhoso e, afinal, pregado na cruz e morto como agitador e blasfemo, como indica o letreiro no alto da cruz: “Jesus Nazareno, o rei dos judeus”. No dia de pentecostes prega-se publicamente a respeito desse Jesus. Os apóstolos dizem que Jesus foi vítima de violência e injustiça; que os que o crucificaram e mataram são diabos e inimigos de Deus, pecando gravemente e provocando a terrível ira de Deus. E através desta pregação começa o reino de Cristo e a igreja cristã.

É uma coragem admirável que demonstram os apóstolos e discípulos, e um grande consolo poderem pregar publicamente a respeito de Cristo no dia de pentecostes. Quem mais seria tão corajoso e pregaria como eles pregaram? 

E em que consiste esta força e poder? Na palavra e no Espírito. Veja só o poder que Pedro tem! E não somente Pedro, mas também os demais. Como estão convictos do que dizem! Com que autoridade manejam as Escrituras, como se as tivessem escrito durante cem mil anos e assimilado perfeitamente! Eu não saberia manejar as Escrituras com tanta segurança, embora seja doutor nas Escrituras Sagradas. E aqueles são pecadores que tinham lido as Escrituras.

Assim, o cristianismo começou com a pregação de pobres pescadores, e através da pobre e desprezada obra de Deus, Jesus de Nazaré, pendurado na cruz.