Mostrando postagens com marcador Quaresma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Quaresma. Mostrar todas as postagens

março 06, 2019

O jejum e a abstinência no luteranismo


Iniciamos o período quaresmal. Com a quaresma surgem as diversas perguntas sobre a questão do jejum e da abstinência. Ainda vale? Não é prescrição da Igreja Romana? O que os luteranos tem a ver com isso? Estes são questionamentos frequentes, seja por parte de não luteranos ou por luteranos que há muito se afastaram destas práticas históricas de penitência e oração.

Você sabia que nosso Senhor Jesus Cristo pressupunha que Seus discípulos jejuariam, assim como eles orariam? Jesus elogiou o jejum como um ato privado de humildade e devoção a Deus (cf. Mateus 6.16-18). Note particularmente que ele diz: “Quando jejuarem...” não “ Se jejuarem ...” Dê também uma olhada em Mateus 9.14-15. Os primeiros cristãos jejuaram (At 13.2-3; 14.23). Por que um cristão do século XXI não poderia fazer o mesmo? 

https://amzn.to/2VxRDg6

O problema é que somos, como cultura e sociedade, glutões. Afinal, somos a sociedade do "consumo". Nós temos necessidade de consumir cada vez mais e mais. Analisamos os jejuns exigidos no catolicismo romano e na ortodoxia oriental e criticamos com razão a imposição de tais regras como contrárias à liberdade do Evangelho que temos, mas depois, novamente, usamos isso como uma desculpa para não jejuar e para rotular de legalista qualquer um que se proponha a jejuar. 

Ao nos aproximarmos agora do início da Quaresma, é bom lembrar que a Quaresma tem sido ao longo da história da Igreja, um período que envolve o jejum. O nome alemão para Quaresma usado historicamente no luteranismo é fastenzeit, “tempo rápido”. A disciplina espiritual do jejum sempre foi parte do luteranismo histórico, mas como em muitas outras áreas da nossa vida da igreja, o desejo de "se parecer" com o restante do protestantismo levou esta prática a cair em desuso entre nós. Lutero também pressupõe que o jejum seja prática entre os membros da Igreja da Reforma como preparação para receber a Eucaristia, pois no Catecismo Menor ele escreve: “Jejuar e preparar-se corporalmente é, sem dúvida, boa disciplina externa.” Certo que ele vai dizer que verdadeiramente digno e bem preparado é aquele que tem fé. No entanto, as coisas não estão em oposição aqui, elas se complementam. Só recentemente a confiança em Cristo tem sido colocada em oposição à boa disciplina externa. Na Bíblia de Estudo da Reforma existe um ótimo artigo sobre jejum e acho que seja útil compreender um pouco mais sobre a prática do jejum e da abstinência para este período de quaresma. 

---***---

Afligindo a alma

O calendário judeu moderno tem 28 dias de jejum, mas no Antigo Testamento Deus somente ordenou um jejum anual. Em Lv 16.29-31, Moisés deu a ordem de Deus: "afligireis a vossa alma" no Dia da Expiação (Yom Kipur). Em resposta à expiação do pecado de Israel, os israelitas devotos jejuavam da manhã até a noite do décimo dia do sétimo mês.

Antes do exílio para a Babilônia, os israelitas jejuavam em tempos de perigo iminente, luto, doença, ameaça de guerra, desespero e tristeza. Por exemplo, Ana não comia por causa do grande estresse causado pela sua infidelidade (1 Sm 1.7), e Davi jejuou depois de ficar sabendo da morte de Abner (2 Sm 3.35). Os líderes religiosos também decretavam períodos de jejum em tempos de grandes crises nacionais (cf. Jz 20.26; 2 Cr 20.3; Jr 36.9). Estes exemplos mostram que o jejum era uma expressão de tristeza e, mais importante ainda, uma expressão de arrependimento.

Excesso

Quando a fé é forte, Satanás se esforça em dobro. Enquanto Deus ama "o aflito e abatido de espírito" (Is 66.2), Satanás os ataca vigorosamente com tentações para cometerem excessos. Demos graças a Deus porque ele não deixou o seu povo indefeso em meio ao seu pecado. Em uma resposta de oração, Deus enviou Isaías para com veemência chamar o povo ao arrependimento e ajudá-los a entender o caráter verdadeiro do jejum como uma expressão de tristeza sobre o pecado e uma oportunidade para ter misericórdia de quem passa fome (Is 58.3-8).

Infelizmente, em vez de atenderem ao chamado de Deus, o povo continuou em sua atitude autocentrada e assim causou o exílio na Babilônia. Para o povo de Deus, o exílio babilônico e a destruição do primeiro templo por Nabucodonosor (587 a.C) foram um ponto crucial na história, comparado somente pela destruição romana do templo de Herodes (70 d.C). Como resultado do exílio, quatro novos jejuns foram acrescentados ao calendário judeu, cada um deles marcando uma data histórica importante até chegar ao exílio (Zc 8.18-19). Por exemplo, um jejum no quarto mês lamenta a invasão do muro externo de Jerusalém por Nabucodonosor (Jr 52.6-7). Um jejum no quinto mês lembra a queima do Templo de Deus e outros prédios (2 Rs 25.8-9), enquanto um jejum no sétimo mês marca o assassinato de Gedalias, que havia sido colocado como governador de Judá pelo rei da Babilônia (Zc 7.5). Finalmente, um jejum durante o décimo mês lembra o cerco de Jerusalém por Nabucodonosor (2 Rs 25.1). Esses jejuns serviam um propósito santo: eles lembravam os israelitas das coisas tristes que acontecem quando se negligencia a Palavra de Deus. Entretanto, com o tempo o jejum se tornou mais uma forma pela qual os israelitas abusavam da Palavra de Deus.

Na esperança de evitar outros cativeiros, estudiosos judeus examinaram os escritos de Moisés, procurando desesperadamente entender por que Deus os havia exilado. Eles se determinaram a aplicar a Lei com mais seriedade. O que se seguiu foi uma mudança fundamental em sua fé. Até hoje, muitas pessoas ainda acreditam que, se observarem todas as leis perfeitamente, elas obterão a salvação. O jejum foi de uma expressão de arrependimento a um apaziguamento compulsório de um código legalístico. Essa mentira desviou muitos e os fez passar a eternidade separados do Senhor, que deseja salvar a todas as pessoas (1 Tm 2.3-4).

O aparecimento de Cristo

Antes do aparecimento de Jesus, os fariseus exigiam que se jejuasse duas vezes por semana (Lc 18.9-12). Os essênios, grupo que se separou dos fariseus e que pode ter vivido em Qumran, centravam boa parte de sua vida no jejum. Para os infiéis, o jejum era uma coisa que se fazia para bajular Deus e obter o seu favor - um dever, obra ou lei. Mas para os fiéis, o jejum continuava sendo uma expressão  de arrependimento e reverência para com o Senhor, que os criara e prometia redimi-los. 

Depois do batismo de Jesus, ele foi ao deserto e jejuou por 40 dias e 40 noites (Mt 4.2). Este número lembrava a devoção de Moisés (Êx 24.18), o grande profeta Elias (1 Rs 19.8), e os 40 anos que Israel andou errante no deserto. Durante este jejum, Satanás repetidamente tentou Jesus, mas Jesus usou a preciosa Palavra de Deus para se defender.

O jejum e você

No sermão do monte, Jesus falou contra o jejum usado como um meio para se obter a salvação. Em vez disso, ele recomendou o jejum feito como um ato voluntário e particular de humildade diante de Deus (Mt 6.16-18). Tire alguns minutos agora para ler as palavras de Jesus e refletir sobre a sua própria devoção. Se você for como a maioria das pessoas, você pensa mais em fazer dieta do que em fazer jejum. É difícil imaginar jejuar por um dia inteiro. Certamente, Jejuar por 40 dias como Jesus fez depois do seu batismo está fora de questão para nós. No entanto, as palavras do nosso Senhor revelam claramente que o jejum deve fazer parte da vida de um cristão: Jesus disse "Quando jejuardes" (Mt 6.16) não "se jejuardes" (cf. Mt 9.14-15). Os primeiros cristãos jejuavam (At 13.2-4; 14.23). Por que um cristão no século XXI não deveria fazer o mesmo?

Quando você jejuar, deixe que as sensações de fome que o acometem lembrem você de orar. Use o tempo que você normalmente usaria para comer lendo a Palavra de Deus e meditando no evangelho de Jesus Cristo. Por meio de sua Palavra, o Senhor irá abençoar e alimentar você. "Então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda, então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui" (Is 58.8-9)

Como você pode jejuar?

Que tal jejuar durante uma ou duas refeições antes de tomar a santa ceia? Use o templo extra para estudar a Palavra de Deus e cantar hinos sobre a santa ceia.

O jejum durante a quaresma pode ser uma oportunidade maravilhosa para lembrar-se da obediência perfeita de Cristo e do sacrifício dele pela sua salvação. O dinheiro não gasto em comida pode ser doado aos pobres. 

Você pode seguir a rotina a seguir para um jejum que dure um dia inteiro: (1) levante antes do nascer do sol e tome café; (2) examine-se a si mesmo como se faz antes de participar sa santa ceia; (3) ofereça sua vida a Deus em oração penitente; (4) prossiga normalmente com o seu dia, voltando a se alimentar depois do pôr do sol. 

Se você é diabético, o jejum pode ser perigoso. Consulte seu médico antes de tentar. Não use o jejum como dieta. Se não for possível abster-se de comida, considere abster-se de alguma outra coisa. Por exemplo, desligue a televisão e passe o tempo em oração e estudo da Palavra de Deus.

Bíblia de Estudos da Reforma, SBB, p.194-195

março 02, 2019

Qual o sentido da Quarta-feira de Cinzas?


Muitos não-luteranos se perguntam por que seus amigos ou familiares luteranos usam cinzas em suas testas no início da Quaresma. Eles estão se exibindo? Você está tentando se destacar? É algum ritual secreto da igreja? Que significa isso? Devo recebê-lo também?

Há três razões pelas quais os luteranos vão à igreja para receber as cinzas na quarta-feira de cinzas. Primeiro, as cinzas lembram os pecadores de seus pecados. Em segundo lugar, as cinzas lembram as pessoas de sua mortalidade. Terceiro, as cinzas lembram às pessoas que elas foram redimidas. 

Desde os tempos antigos, o povo de Deus usou cinzas como sinal de humilde arrependimento (por exemplo, Jonas 3.5-9, Jó 42.6, Daniel 9.3, Mateus 11.21, Lucas 10.13). Esta tradição foi realizada pela igreja primitiva e continua sendo uma tradição importante hoje. Quando você voluntariamente se aproxima de um pastor e recebe cinzas em sua testa, você está admitindo que é um pecador desesperadamente necessitado de salvação. Eles estão admitindo que pecaram não apenas contra o seu próximo, mas contra o próprio Deus. As cinzas mostram que sem Deus todas as pessoas estão espiritualmente mortas. As cinzas lembram o portador de sua necessidade de se arrepender e confessar para retornar a Deus. As cinzas demonstram nossa súplica de que o Senhor nos purificaria. As cinzas servem como um sinal tangível e visível de nossa incapacidade de amar a Deus tanto quanto Ele nos ama.

A recepção das cinzas na quarta-feira de cinzas também lembra as pessoas de sua mortalidade, que é o resultado direto da condenação de Deus ao nosso pecado. Deus disse a Adão: "Tu és pó e ao pó voltarás" (Gênesis 3:19). As cinzas servem como um lembrete solene de que o salário do pecado é a morte. O homem não pode escapar da morte. Muitas vezes, as pessoas hoje sentem como se fossem invencíveis. É fácil sentir que estamos no topo do mundo, capazes de fazer tudo o que queremos. Continuamos ocupados fazendo coisas "boas", mas não reconhecemos que realmente somos homens mortos que andam. As pessoas não gostam de pensar na morte. Nossa cultura aparentemente esterilizou a morte. Nós fazemos todo o possível para evitar a morte. A morte é desconfortável. E é por isso que as cinzas são tão importantes. Elas são o lembrete visível de que Deus criou o homem do pó da terra e, um dia, todos os homens retornarão ao pó da terra. Cinzas a cinzas e pó a pó. As cinzas nos forçam a lembrar que somos apenas mortais e que somente Deus é soberano e reina por toda a eternidade.

As cinzas também nos contam as boas novas do evangelho! Você vê, as cinzas não são apenas manchas aleatórias nas testas das pessoas. As cinzas são impostas na forma de uma cruz. Ao receber as cinzas, lembramos que nosso Senhor Jesus tomou a plenitude de nossa humanidade. Aquele que estava sem pecado tornou-se nosso pecado. Jesus Cristo foi crucificado em uma cruz. Ele foi crucificado por você. Ele desceu ao inferno onde ele suportou a plenitude da ira de Deus em seu nome. Então Jesus conquistou a morte através de sua ressurreição. Ele foi ressuscitado pra você. Ao fazê-lo, Ele tomou as cinzas do nosso passado e criou em nós uma nova vida, permitindo-nos viver para sempre na santa presença de Deus. Ele redimiu seus filhos, nos tornando limpos e novos. Através da cruz de Cristo, o poder da morte foi destruído. Através da cruz há vida.

Em muitos cultos luteranos na quarta-feira de cinzas, a Eucaristia segue imediatamente após a recepção das cinzas. Nós, que uma vez morremos em nossos pecados, que merecemos a morte, chegamos à Mesa do Senhor literalmente carregando a cruz de Cristo. Aqui, na mesa do Senhor, aqueles que se humilharam diante do Senhor, que admitiram seu pecado, que sabem que merecem a morte, recebem a nova vida que só é encontrada através do corpo e do sangue de nosso amado Senhor Jesus. . Aqui, à mesa do Senhor, aqueles que estão marcados com a cruz de Cristo se levantam, são fortalecidos pela misericórdia, amor e graça de Deus, e são enviados ao mundo para proclamar as boas novas da salvação.

Este ano, a quarta-feira de cinzas é 6 de março. Você é encorajado a encontrar uma igreja luterana local para que você também possa participar desta ocasião especial na qual nos apresentamos humildemente perante o Senhor, nos arrependemos de nossos caminhos pecaminosos e recebemos o dom gratuito de nosso Senhor Jesus Cristo. Curiosamente, as cinzas que os luteranos recebem são tradicionalmente feitas com os galhos de palmeira usados ​​anteriormente no Domingo de Ramos, um dia em que as pessoas se regozijavam e louvavam Jesus alguns dias antes de se voltarem contra ele e gritarem " Crucifica-o! (Mateus 27:22, Marcos 15:13, Lucas 23:21, João 19: 6) Isto serve como um poderoso lembrete de que as pessoas são pecadoras, a morte é real, mas o Dia da Ressurreição (Páscoa) é tão real quanto estes dias de miséria! Venha, todo mundo é bem vindo. Todos precisam de salvação. Deixe o Senhor usar as cinzas do seu passado para criar em você um coração limpo e uma nova vida nEle.

***

Fonte:

https://lutheranlenses.com/2019/02/23/ashes-to-ashes-and-dust-to-dust-why-lutherans-receive-ashes-on-ash-wednesday/

março 16, 2018

Hawking, Herodes e Eu


por Nathan Buzzatto

Hawking, Herodes e Eu

A notícia que tem tomado a Internet nestes dias tem sido a recente morte de um conhecido cientista e ateu convicto - Stephen Hawking. Já li algumas de suas publicações e devo confessar que as vejo como nada menos que: geniais!

Ele não ficou famoso por odiar cristãos, por defender o ateísmo, ou qualquer outra coisa, mas pela sua mente brilhante: foi um físico teórico e cosmólogo britânico e um dos mais consagrados cientistas da atualidade, ocupando a cadeira de Física da universidade de Cambridge, a mesma ocupada por Isaac Newton, e tendo desempenhado importantes trabalhos nas áreas de física teórica e matemática aplicada nesta universidade.

Sua morte foi estranhamente celebrada por cristãos nas redes sociais, muitos, inclusive celebrando o fato de este agora descobrir que estava errado a respeito de Deus enquanto arde no fogo do inferno.

Por esta razão mesmo me coloquei a pensar sobre a natureza da verdadeira oposição ao que cremos, e começo pelo infame Herodes Antipas. Nada mais justo, ele nunca é mencionado vinculado a algo de bom. Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande (aquele que mandou matar criancinhas).

"Porque Herodes tinha prendido João, e tinha-o maniatado e encerrado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe;" Mateus 14:3

A situação que tornou Herodes Antipas mais lembrado, foi a prisão e morte de João Batista (Mt 14:3-12, Mc 6:17-29, Lc 3:19-20, Josefo, Antiguidades XVIII. 5. 2 ; 116-119) .

Antipas se casou com a irmã de Aretas IV, provavelmente instigado por Augusto, que era conhecido por estimular casamentos entre as famílias de governantes em nome da paz no império. Este casamento não teria sido apenas para assegurar a paz entre Judeus e Árabes, mas também porque o território de Aretas servia de defesa contra a Parthia. Desta forma, foram casados em 14 d.C..

Por volta de 15 anos depois, (29 d.C.) Antipas viajou a Roma. Em seu caminho visitou seu meio-irmão Herodes Filipe, governante de 5 regiões.  Herodias, até então, esposa de Herodes Filipe,  aparentemente era uma mulher muito ambiciosa, e Herodes Antipas parecia uma oportunidade de se tornar esposa de um tetrarca. a filha de Aretas IV  descobre o acordo e apela a seu pai. Este divórcio, não apenas constituía um insulto pessoal a Aretas IV, mas também a quebra de uma aliança política, que levou a uma posterior retaliação (Josefo. Antiguidades. XVIII. 5. 1 ; 109, 110).

Herodes Antipas e Herodias se casaram e João Batista falou contra este casamento, motivo que o levou à prisão. A denúncia de João era que ele se casou com a mulher de seu irmão, o que, segundo a lei mosaica, era condenável (Lv 18:16; 20:21) e as circunstâncias não se adequavam às exceções prescritas (Dt 25:5; Mc 12 :19) .

"Herodes o matou, e era um bom homem, e comandou os judeus a exercitarem a justiça com os homens e a piedade com Deus e o batismo” JOSEFO, Antiguidades, XVIII, v, 2.

Sobre este inimigo dos cristãos, o próprio Cristo o chamou de "aquela raposa" (Lc 13;32), tempos depois, Jesus preso se encontra com Herodes:


Quando Herodes viu Jesus, ficou muito alegre, porque havia muito tempo queria vê-lo. Pelo que ouvira falar dele, esperava vê-lo realizar algum milagre. Lucas 23:8

Que grande momento para Jesus! Na frente de um rei, representante de Roma, um homem que queria muito vê-lo e o recebe com alegria! Bastaria um milagre, algo pequeno e este inimigo do Evangelho se curvaria! 

Mas não! O Deus-homem ficou quieto, permitiu que esta alegria se transformasse em deboche, e como nem assim houve uma manifestação, Herodes Antipas o manda de volta a Pilatos.

Pela segunda vez Cristo rejeita a ideia de se tornar um homem influente, a primeira foi no deserto quando tentado.

O que o próprio Deus-homem fez com o mais influente homem e declarado inimigo? Ele não o humilhou mostrando seu poder, não o ridicularizou mesmo sabendo de seu pecado, não o atacou por ter mandado matar a seu parente e profeta de Israel, São João Batista, nada! Não havia o que se falar, seu pecado já havia sido exposto. As palavras que levaram João Batista a morte ainda ecoavam! Cristo, na verdade, sendo Luz da Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, se entristecia com este homem:

Teria eu algum prazer na morte do ímpio?, palavra do Soberano Senhor. Pelo contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver? Ezequiel 18:23

O coração de Deus certamente se entristecia em ver Herodes Antipas, um cruel inimigo do reino, algoz de profetas, indiferente ao próprio Deus que estava diante dele. A morte deste homem não foi comemorada. Jesus não saiu da corte com um sorriso dizendo "te vejo no inferno", "te pego na saída", ou outra coisa.

Este é o Evangelho! Deus está sempre triste com o caminho do ímpio, mas ele é o pai que ao ver o filho pródigo arrependido, corre ao seu encontro, o abraça, perdoa seu pecado, lava suas feridas e dá roupas limpas! Não importa o tamanho do pecado, afinal, qual a diferença que há entre mim e Herodes? Compartilhamos da mesma natureza humana. Ele casou-se por poder, eu também gostaria muito de ser poderoso, quando criança, sempre brincava que era um rei, um super-herói, de certa forma, ainda sonhamos todos assim. Herodes se separou e casou novamente por desejo. Quem de nós não tem isto também no fundo de seu coração? Eu sei que tenho. Então o que me faz ser diferente deste homem cruel, certamente não é algo que venha de mim mesmo. Eu sou apenas um filho que sempre se arrepende e volta para casa humilhado. Deus me recebe sempre de volta com alegria, é o que o testemunho das Escrituras me dão certeza, e certamente, Herodes Antipas teria sido recebido com alegria! Se Deus pode amar um homem como eu, certamente ele poderia amar Herodes; e, se Deus pode amar alguém como Herodes, não seria um cientista ateu da atualidade que não teria lugar.

Por eles e por nós, rogamos: Senhor, Tem piedade!

fevereiro 19, 2018

As tentações de Cristo


Comentário do dia por Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja
Discursos sobre os Salmos, PS 60; CCL 39, 766

«Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado» (Heb 4,15)

«Escutai, ó Deus, o meu clamor, atendei a minha oração! [...] Dos confins da terra grito por Vós, com o meu coração desfalecido» (Sl 60,2-3). Dos confins da terra, ou seja, de toda a parte. [...] Não é só uma pessoa que fala assim; e, no entanto, é uma só pessoa, porque não há senão um só Cristo, do qual somos os membros (Ef 5,23). [...] Aquele que grita dos confins da terra está angustiado, mas não foi abandonado. Porque fomos nós, ou seja, o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar no seu próprio corpo. [...]

Simbolizou-nos na sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. Lê-se no Evangelho que Nosso Senhor, Cristo Jesus, foi tentado no deserto pelo diabo. Em Cristo, és tu que és tentado, porque Cristo tomou de ti a sua humanidade para te dar a sua salvação, de ti tomou a sua morte para te dar a sua vida, de ti sofreu os seus ultrajes para te dar a sua honra. Foi portanto de ti que Ele tomou as tentações, para te dar a sua vitória. Se somos tentados nele, nele também triunfaremos do diabo.

Reconheces que Cristo foi tentado, e não reconheces que alcançou a vitória? Reconhece-te como tentado ele, reconhece-te como vencedor nele. Ele poderia ter impedido o diabo de se aproximar dele; mas, se não tivesse sido tentado, como nos teria ensinado a maneira de vencer a tentação? Por isso, não é de espantar que, atormentado pela tentação, Ele grite dos confins da terra segundo este salmo. Mas porque não é vencido? O salmo continua: «Conduzi-me ao rochedo». [...] Recorda o Evangelho: «Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (Mt 16,18). Assim, é a Igreja, que Ele quis construir sobre a pedra, que grita dos confins da terra. Mas quem se tornou rochedo, para que a Igreja pudesse ser construída sobre o rochedo? Ouçamos S. Paulo: «O rochedo era Cristo» (1Cor 10,4). É pois sobre Ele que nós somos edificados. Por isso, a pedra sobre a qual somos construídos foi a primeira a ser batida pelos ventos, pelas torrentes e pelas chuvas, quando Cristo foi tentado pelo diabo (Mt 7,25). Eis a fundação inabalável sobre a qual Ele te quis edificar.

Quarta reflexão na Quaresma: Se falhas cometi


Por Nathan Buzzatto

Quarta reflexão na Quaresma: Se falhas cometi


Na reflexão anterior me detive no mal que cometemos enquanto buscamos fazer o bem. Hoje me detenho no mal que cometo voluntariamente.

Se tem algo que me fala mais alto aos ouvidos no louvor de Maria, o Magnificat, é sem dúvidas “A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. Que nobre canção! Após a anunciação do anjo, Maria tem tempo para pensar no que ouviu, certamente passou pela angústia de querer explicar e não saber como, tentar contar para alguém e não ser compreendida. Seu próprio noivo tentou deixa-la! Então, ela vai à casa de sua prima, e após ser recebida, entoa este louvor. 

As circunstâncias estavam longe de ser favoráveis para Maria, mas isto é o que ela traz consigo: A plena satisfação em Deus! Que espírito puro e humilde o dela.
Este texto também nos exorta. Enquanto aquela que é bendita entre as mulheres tinha sua satisfação em Deus, quantas vezes não pequei por buscar minha satisfação fora de Deus.
nesta mesma hora, quando me deparo com a satisfação plena de Maria em Deus, seu Salvador, olho para dentro de mim, para as minhas paixões. Vejo o pecado deliberado de louvar menos a Deus na provação que durante a bonança, o pecado consciente de estar ansioso, temendo que de alguma forma a providência de Deus venha a faltar, vejo como, estando decidido a ser moderado em meus gastos, ao ver um produto diferente, sou levado a comprar sem muito refletir. Vejo-me perdido nas paixões do coração quando me detenho na beleza com que Deus agraciou suas filhas. Peco voluntariamente em meus pensamentos, palavras e ações. Não sou sempre um homem bom que as vezes comete o mal tentando fazer o bem. Sou também um pecador. Miserável homem que sou!

Tal natureza decadente é com maestria transcrito por Paul Gerhardt, considerado o maior poeta luterano depois de Lutero. Seus versos, O Haupt voll Blut und Wunden, traduzido como “O Fronte ensanguentada”:

O que tens suportado
foi minha própria dor;
eu mesmo sou culpado
de tua cruz Senhor.
Ó vê-me, aflito e pobre:
castigo mereci;
com tua graça encobre
o mal que cometi!

Sim, eu matei a Cristo! Sempre que me deparo com um crucifixo, a primeira coisa que me vem à mente é o meu corpo naquela cruz. É exatamente como deveria ser! Eu sou aquele Barrabás legitimamente condenado porque, de fato, era inexcusável de seus atos. Tinha uma cruz feita na minha medida. Eu mereci cada chaga pelas vezes que me recusei a perdoar, Aquela lança era minha no momento que recolhi a mão que deveria ter ajudado. Me tornei digno dos espinhos todas as vezes que desviei os olhos do Criador para desejar suas criaturas de modo infame.

Eu sou Barrabás! Não peco apenas porque tento fazer o bem e as vezes falho! Peco de modo consciente! Esta é a minha miséria! Que esperança posso ter nesta quaresma? Cristo! Quando olho aquela cruz, não vejo apenas que eu deveria estar ali, também vejo que EU NÃO ESTOU ALI! Não cabe o meu corpo naquela cruz porque aquela vaga já está ocupada.

"Cristo, na cruz, toma sobre si os pecados que você cometeu, carrega-os em seu lugar e os destrói. Isso é graça e misericórdia. E crer nisso firmemente, tê-lo diante dos olhos, não duvidar, isso se chama olhar para a imagem da graça e imprimi-la em sua mente. Veja, aqui os pecados deixam de ser pecados, pois são destruídos em Cristo. Assim, a imagem da vida e da graça de Cristo é nosso consolo face à imagem do pecado e da morte."
Martinho Lutero

Este é nosso caminhar, Justos, porém pecadores! Pelo meu pecado, reconheço que sou um miserável e odioso ser, digno do inferno. Mas quando contemplo a Cristo, vejo meu pecado castigado nele. Meu pecado foi forte o suficiente para tirar o brilho dos olhos do Senhor, Deus forte e Pai da Eternidade, em uma face coberta de sangue e sofrimento. Entretanto, Cristo foi forte o suficiente para me buscar do fundo de um abismo, me batizar para dentro de seu próprio corpo e colocar em mim o brilho de seus próprios olhos nos meus ao contemplar uma nova vida. Neste momento, por todas as vezes que pequei voluntariamente, só posso levantar meus olhos aos céus e dizer: Se falhas cometi, estavas comigo, mas eu não estava contigo. Assim, longe de ti, me detinham as criaturas que nada seriam se em ti não existissem. Kyrie, eleison! Senhor, Tem piedade!

fevereiro 16, 2018

Terceira reflexão na Quaresma



Por Nathan Buzzatto

Terceira reflexão na Quaresma: “perdoa-me, Senhor, Se em teu caminho não segui.”

John Bunyan, em sua obra “O Peregrino” expõe de maneira sublime porque erramos em nossa caminhada: “Olha: nessa aldeia próxima, que se chama Moralidade, vive um homem de muito juízo e grande reputação, cujo nome é Legalidade, o qual é muito hábil em tratar pessoas como tu, o que tem sido provado com numerosos exemplos; além disso, também sabe curar os indivíduos que padecem do cérebro. A casa dele fica daqui a um quarto de légua, quando muito, e, se ele não estiver em casa, seu filho, Urbanidade, que é um mancebo de grande talento, poderá servir-te tão bem como seu pai. Não deixes de lá ir. E se não estás disposto, como não deves estar, a voltar à tua cidade, manda buscar tua mulher e teus filhos, porque na aldeia de que te falo há muitas casas devolutas, e podes arranjar uma por preço muito módico. Outra coisa boa aí encontrarás: vizinhos honrados, de fino trato e bons costumes. A vida ali é muito barata e cômoda.”

E assim vai a história! “Cristão” deixa o caminho que lhe foi mostrado por conta de um conselho de um “sábio”. Sua proposta era simples, trocar o caminho difícil por uma vida tranquila e agradável na aldeia da “Moralidade”. Ele não se desviou porque buscava o mal, muito pelo contrário, ele o fez porque queria alívio ao seu fardo. Buscando o bem, praticou o mal. Quantas vezes não caímos no mesmo erro! Nem mesmo os Santos Apóstolos estava imunes a praticar o mal enquanto suas intenções eram de bem. São Paulo também lamenta de si mesmo: “Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Romanos 7:19”

Ah sedutora vila da moralidade! Quantas vezes buscamos alívio no que se apresenta como bem, mas está longe do caminho. Quantas vezes buscamos transformar nossa caminhada cristã num conjunto de “regras para uma vida melhor”, trocamos o Evangelho da Cruz para acatarmos orientações práticas sobre o que podemos ou não ouvir, o que podemos ou não ver, que posição política devo aceitar, quanto devo “semear”, com quais pessoas devo ou não falar. O senhor “Legalidade” anda bem ocupado distribuindo os seus conselhos em toda parte. O que vemos na vila da “moralidade”? Existe ordem, bons costumes, pessoas finas! Que desvio perigoso! Uma vida de aparente segurança, onde é convidativo para que se fique, mas ESTE NÃO É O CAMINHO!

Não se pode buscar a justificação em Cristo, se o fizer mediante a lei. Ser justificado é ato gracioso de Deus, e por isto mesmo, depende exclusivamente do Evangelho. A vila da legalidade destrói o bendito consolo que Deus tencionou dar aos homens pela gloriosa doutrina da justificação pela fé. Ao passo que a esta doutrina confere ao crente completa certeza da salvação, a da justificação pelas obras afasta esta certeza; porquanto arrebata a salvação da mão graciosa de Deus e a coloca na mão pecaminosa e impotente do próprio homem. É fato significativo que todos os que erram negando o sola fide, também negam a verdade escriturística que o crente possa estar seguro de sua salvação.

Quantas vezes caí no lodo da desconfiança, tive medo de fazer da graça de Deus uma “graça barata” e fui até a vila da “Moralidade”, me sentei com o senhor “Legalidade” para ouvir seus conselhos. Quantas vezes fui à igreja, confiando assim ter algum favor de Deus., Quantas vezes já participei de campanhas de oração crendo que nelas eu teria algum mérito para com Deus, ou dei ofertas em troca de bênçãos. Quantas vezes fui aos cultos, não porque sentia a necessidade, mas para não ficar em falta com o pastor e me complicar com Deus. Quantas vezes deixei de aproveitar uma diversão sadia porque achava ofender a Deus com minha felicidade numa diversão qualquer de uma festa.

Sim, eu pisei fora do caminho muitas vezes! Tentei fazer com que a Graça não fosse barata, tentei dar um preço a ela! Busquei a certeza de minha salvação, não no fato de ter ouvido a Palavra e recebido os sacramentos, mas nas obras que fiz. São Pedro negou a Cristo 3 vezes. Eu não sei quantas vezes eu já fiz isto buscando a vila fora do caminho. Aquele galo que cantou aos ouvidos do Apóstolo, repetidamente canta aos meus ouvidos.

Hoje, esta é a oração de alguém que se perdeu no caminho: “perdoa-me, Senhor, Se em teu caminho não segui."

Para Citar

Buzzatto, Nathan. Terceira Reflexão na Quaresma. Disponível em <http://justosepecadores.blogspot.com.br/2018/02/por-nathan-buzzatto-terceira-reflexao.html>


Por Nathan Buzzatto

Segunda reflexão na quaresma: se em meu agir o teu amor também não refletir.

Seguindo a reflexão anterior, hoje, volto o olhar para o amor. De todas as palavras, a mais bela, e também a mais mal compreendida. Deus é amor. Não o que penso, nem o que sinto, mas Deus, ele sim é o Amor. Se na primeira reflexão houve um lamento pela forma como se vive, nesta parte, firmamos um compromisso com Deus. Quaresma não é apenas o lamento pelo pecado, mas o que este lamento produz em nós para a vida eterna. Amamos nossos animais, nossos colegas de trabalho e estudos, nossos amigos, nossos familiares, amamos a Deus. Amamos também circunstâncias, amamos eventos, amamos! Simplesmente amamos!

De uma forma ou de outra, nossa vida é repleta de amores! Melhor ainda quanto este amor é correspondido! Certa vez Cristo sondou a Pedro sobre seu amor: “Amas-me?” Uma pergunta aparentemente fácil de responder, mas os Santos Evangelhos nos mostram uma riqueza maior, a palavra “amar”, usada por Cristo não retratava qualquer forma de amor, mas aquele amor que é atributo do próprio Deus. Ágape, o amor sublime e perfeito com que Pedro era amado! Ele sabia que não poderia retribuir a Cristo o mesmo amor, ele então responde: “Tu sabes que te amo”, e nesta resposta, não era mais este amor sublime, mas o termo “Fileo”, um amor mais limitado, imperfeito. Este jogo de perguntas se repete, Cristo pergunta novamente se teria de Pedro o amor que ele dava correspondido, e novamente a resposta “Fileo”. Era tudo o que ele tinha. O Apóstolo amado sabia que não teria como retribuir o mesmo amor que recebia. Cristo não seria correspondido!

Então na terceira vez, Cristo pergunta “Amas-me”, não com o ágape, aquele amor que ele dava, mas “Fileo”, o amor imperfeito, limitado, tão humano! O Apóstolo estava já entristecido, sabia que até mesmo o seu melhor amor, não era digno de Cristo, quando então Cristo muda sua pergunta, ele aceita o amor que Pedro oferecia, e então agora ele responde pela última vez “Tu sabes que te amo”. As perguntas terminam. Nada mais era necessário! Pedro sabia que amava de modo imperfeito e lamentou sua própria limitação humana, mas sabia que teria em Cristo um amor ainda maior, mesmo que não fosse digno.

De mesmo modo, Jesus tomou os 12 consigo e subiu a Jerusalém, mas os seus não o compreenderam sobre as coisas que se passariam ali, somos limitados em entender o Amor, mesmo quando ele se mostra diante de nós. Nas palavras de J.S.Bach: “Meu Jesus, atrai-me para Ti que virei correndo. Pois a carne e o sangue não entendem perfeitamente, tanto quanto Teus discípulos, o que foi dito. Eles anseiam pelo mundo e pelas multidões; querem também, quando Te transfigurares, construir uma fortaleza segura no monte Tabor, Mas a Gólgota, que é tão cheia de sofrimento, e teu aviltamento não querem olhar. Ah, crucifica em mim, em meu peito corrompido, antes de mais nada, este mundo e os prazeres proibidos, E, então, entenderei exatamente o que dizes E irei, com multiplicada alegria, a Jerusalém.” (BWV 22).

Sem dúvidas, temos nesta vida uma visão de relance do que seja o Amor. Deus nos fez desejosos de realmente prová-lo. Ele ocultaria uma revelação que satisfizesse a esse suspiro? Não se pode crer que um Deus amoroso e sábio permita que o homem pereça perplexo diante deste desejo em provar tão grande atributo no Ser de Deus. Somos levados a crer que Deus, enfim, coroará essa natureza passível de um amor incompleto com o Amor sobrenatural. A benevolência de Deus nos conduz a esperar que ele solucione a grave limitação de nosso amor incompleto, este que é ao mesmo tempo indigno de Cristo, mas também tudo o que podemos retribuir. A justiça de Deus nos conduz à esperança de que seremos infundidos neste Amor em tons claros e com autoridade à nossa consciência.

Somos miseravelmente indignos! O melhor de nosso amor, ainda é índigo! Por isto, nos arrependemos também da forma como amamos. “Se em meu agir o teu amor também não refleti.” Mata-nos em Tua bondade! Desperta-nos em Tua piedade. Mortifica o antigo homem para que possa viver o novo, bem aqui nesta terra, para que nossos sentidos e todos os desejos e pensamentos possam dirigir-se a Ti.

Para citar:

Buzzato, Nathan. Segunda reflexão na quaresma: se em meu agir o teu amor também não refletir. Disponível em <http://justosepecadores.blogspot.com.br/2018/02/segunda-reflexao-na-quaresma-se-em-meu.html>

fevereiro 15, 2018

Primeira reflexão na quaresma:


Por Nathan Buzzatto

Primeira reflexão na quaresma:

Por vezes a nossa mente nos leva a nos perdermos em debates sobre as grandes questões filosóficas e teológicas, e deixamos de olhar para dentro de nós. Agora iniciamos a quaresma, tempo de alinharmos nossas prioridades e pensamentos.

Como diria Jonathan Edwards, ''Eu necessito me arrepender do meu arrependimento que às vezes é tão superficial.'' Como é fácil perder o foco! Ainda mais quando estamos lidando com a penitência. Caímos por orgulho. Todas as vezes que pecamos, o fazemos por nos considerarmos fortes para resisti-lo. Quando reconhecemos nossa pequeneza, então, nos apoiando em Deus, de fato, podemos resistir ao pecado que nos cerca. 

No primeiro dia da Quaresma nos lembramos que somos pó (este é o significado das cinzas). Caídos em transgressões, olhamos para nós mesmos e vemos que mesmo tentando acertar, somos todos terrivelmente indignos diante de um Deus santo. Nesta hora, o sacerdote anuncia nossa sentença "lembre-se que você é pó, e ao pó retornará" e nos marca a fronte com o pó das cinzas. Então, reconhecemos que pecamos e reconhecemos justa a sentença. 

O que nos dará esperança? J. S. Bach, um dos maiores compositores da história da música nos remete nestes termos: “Senhor Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Tu que suportaste a tortura, o medo e o escárnio, por mim na cruz expiraste, e me ganhastes a Graça do Pai, Eu vos imploro por tua amaríssima paixão: Por todos os meus pecados, tende piedade. Minha alma descansará em Jesus quando a terra esconder o meu corpo. Ah, chame-me depressa ó morte, Eu estou a morrer sem pesar, por mim, meu Jesus irá despertar (BWV 127). Que belas palavras de alguém que não duvidava de sua salvação. Bach sabia que a paixão, morte e ressurreição de Cristo é a nossa certeza, e enquanto lamente o próprio pecado, descansa na certeza da redenção. Isto é a fé sempre penitente, sempre arrependida, a fé que busca a santidade!

Do que hoje me arrependo? Hoje oro: “Perdoa-me, Senhor, se não vivi pra te servir” lembramos que somos pó, então o que de fato importa senão que esta vida sirva a algo maior que ela mesma? Qual arrependimento pode ser maior que viver toda uma vida, e no final dela, vermos que tudo o que fazemos irá se desmanchar. Talvez meus netos saibam meu nome, quem sabe os bisnetos saibam quem fui apenas como um nome no histórico? Nada permanece! Tudo é levado ao esquecimento! Você conhece os artistas famosos do rádio e do cinema da época de seu pai? E de seu avô? Somos pó, nada nos pode tirar desta jornada rumo ao esquecimento, salvo as sementes que plantamos para a eternidade.

“Perdoa-me, Senhor, se não vivi pra te servir” que esta seja a nossa oração! Todas as nossas lutas cairão no esquecimento, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre! Isto não é pó, é eterno! Vivamos para o que é eterno e nossa quaresma, assim como toda a nossa vida, terão um sentido real.

Para citar:

Buzzatto, Nathan. Primeira reflexão na quaresma. Disponível em <http://justosepecadores.blogspot.com.br/2018/02/primeira-reflexao-na-quaresma.html>

fevereiro 14, 2018

Quarta-feira de Cinzas


O Período Quaresmal começa hoje. Como você já deve saber, a Quaresma é o período de quarenta dias entre a Quarta-feira de Cinzas e o Domingo de Páscoa. Estes quarenta dias recordam uma série de eventos e imagens bíblicas, como Moisés recebendo a Santa Lei no Monte Sinai (Ex 34.28), os quarenta anos em que Israel peregrinou no deserto (Nm 32.13), a viagem de Elias ao Monte Horebe (1 Reis 19.8), e a tentação de Jesus no deserto (Mt 4.1-11). A Quaresma é um tempo de reflexão solene sobre a profundidade de nosso pecado; é também tempo de arrependimento, de renovar nossa atenção no sofrimento de nosso Senhor Jesus Cristo em sua traição, humilhação, crucificação e morte.

A quaresma é o momento mais belo e solene do calendário litúrgico. A cultura brasileira ao nosso redor esconde e busca diminuir a realidade do pecado e da morte no mundo. A Quaresma nos coloca diante de nossa vida como ela realmente é. Valorizamos todas as coisas de forma casual e cômoda, mas a Quaresma nos obriga a lidar com a destruição, a miséria e a dor de nossa morte. Preferimos manter nossas vidas ocupadas e nossa agenda cheia, mas a Quaresma nos chama a pisar no freio, a refletir, a renunciar para que possamos ter tempo livre para escutar a Palavra de Deus e o Evangelho.

Uma prática cristã comum às Igrejas Históricas ocorre no começo do ofício da quarta-feira de Cinzas. No início do ofício, o pastor encoraja e convida os cristãos a receber as cinzas em suas frontes. Este símbolo é um dos mais poderosos da Quaresma. As cinzas marcam de maneira visível e tangível o nosso próprio pecado e nos chamam ao arrependimento. Ao longo das Escrituras, as cinzas são utilizadas como simbolo de arrependimento (Jr 6.26). O arrependido se vestia com sacos (um pano que provocava incômodo na pele) e as cinzas era sinal de horror ao seu próprio pecado (Lamentações 3). As vezes se vestiam de sacos e cinzas enquanto choravam, sofriam e reconheciam que todo o sofrimento, a morte e a dor são consequências da natureza caída e pecaminosa da humanidade.

Receber as cinzas também nos recorda nossa mortalidade. Quando o pastor coloca as cinzas sobre a fronte do cristão, também profere uma palavra da lei de Deus"lembre-se que você é pó, e ao pó retornará", fazendo eco à maldição de Deus à Adão quando este caiu em pecado em Gênesis 3.19. A imposição de cinzas é um símbolo de dor, pois significa a morte de nossa natureza pecaminosa. Significa tragar nosso orgulho, admitir que estamos mortos em nossos pecados e transgressões, e reconhecer que, devido ao pecado, nossos corpos um dia voltarão ao pó.

Mas também existe esperança na quarta-feira de Cinzas. Sim, o pó é colocado em nossas frontes como símbolo de nosso pecado e morte, mas o mesmo é traçado em forma de cruz. Ou seja, as cinzas nos remetem não só aos nossos pecados e nossa morte, mas também ao fato de que nosso Senhor Jesus Cristo tomou nossa carne, assumiu nossa natureza de pó e cinzas, para que pudesse nos redimir e nos levantar do pó no dia da ressurreição.

Nas próximas semanas, acompanhe nossas devoções e comentários voltados para este período quaresmal. E nesta quarta-feira de cinzas, visite uma igreja e dê início a esta viagem de quarenta dias de renuncia, reconhecimento de nossa miséria e arrependimento,  para contemplarmos a cruz e o túmulo vazio.

Equipe Justos&Pecadores

Para citar:

Justos&Pecadores, BLOG. Quarta-feira de Cinzas. Disponível em <http://justosepecadores.blogspot.com.br/2018/02/quarta-feira-de-cinzas.html>